É Tudo Verdade mostra fracasso de Trump e até sexo na varanda diante da CovidReprodução

CINEMA - A pandemia de coronavírus abalou o cinema e a TV como uma avalanche. Estremeceu sets de filmagem e, mais importante, infectou tramas que vão de novelas a filmes de Hollywood. Mas não foi só a ficção que sucumbiu à nova doença. Documentaristas em todo o globo posicionaram suas câmeras nos últimos meses para registrar a histórica e catastrófica crise.

Os resultados dessa verdadeira corrida para gravar os meses de maior rebuliço em torno do vírus começam, agora, a ser lançados mundo afora. No Brasil, uma boa leva de filmes com essa premissa desembarca no streaming a partir de agora, com o É Tudo Verdade, principal festival de documentários do país.

Justamente por causa da pandemia, o evento precisou migrar para o universo digital, como já havia acontecido no ano passado. Nesta 26ª edição, serão 69 filmes, além de debates, palestras e homenagens, exibidos de graça até 18 de abril, em diversas plataformas e também no Canal Brasil.

Entre os longas e curtas da seleção deste ano estão alguns que versam sobre a Covid-19. Mas não pense que as telas darão lugar a uma sucessão de máscaras, corredores hospitalares assépticos e lágrimas. Eles estão lá, mas a pandemia se infiltrou no É Tudo Verdade de forma criativa e plural, extrapolando as imagens já corriqueiras dos telejornais.

No curta "E14", por exemplo, o diretor Peiman Zekavat mostra a rotina do confinamento no centro de Londres. De sua varanda, ele filma as janelas vizinhas de seu prédio, num voyeurismo que remete a "Janela Indiscreta", obra-prima de Hitchcock.

Sua câmera bisbilhoteira flagra tipos curiosos. Num apartamento, uma mulher corre em sua diminuta sacada. Noutro, um homem que toma sol volta para dentro ao ouvir a tosse de um vizinho. Até que o diretor encontra um casal transando, num ritmo de movimentos contínuos sobre um banco de musculação. Seria esse o novo normal?

Na seleção pandêmica do É Tudo Verdade, talvez a obra que mais se assemelhe ao que vemos nos telejornais seja "2020", de Hernán Zin. Sua equipe foi a única a entrar em hospitais e ambulâncias da Espanha, nos primeiros meses de pandemia. O documentário, no entanto, também busca outras faces da crise, mostrando desde UTIs até fábricas de caixões e abrigos para cães, lotados de companheiros de vítimas da Covid-19.
"Para mim, era importante criar um documento histórico a partir de todos os ângulos possíveis", diz Zin. "Eu queria ver aquela realidade de perspectivas diferentes, ser o mais rico possível como narrador."

Ele e sua equipe então precisaram ficar frente a frente com contaminados e desafiar autoridades que não queriam câmeras nos hospitais -Zin credita isso a um suposto medo de expor que o continente europeu também tem suas mazelas. "Foi o trabalho mais difícil que já tive", diz o ex-correspondente de guerra.

"Meu objetivo era humanizar os números da doença, porque eles não tinham nome, rosto ou história. Eu espero que o filme nos ajude a digerir essa experiência traumática e a evitar uma próxima."

Médicos e pacientes também são onipresentes em "Sob Total Controle", mas não estão em destaque -servem como contexto para uma discussão muito mais política do que sanitária. No longa, Alex Gibney, vencedor do Oscar, se junta a Ophelia Harutyunyan e Suzanne Hillinger na direção para analisar como o governo de Donald Trump contribuiu para o agravamento da pandemia nos Estados Unidos.

O nome, "Sob Total Controle", remete à frase que o ex-presiente repetia à exaustão nos primeiros meses de 2020 para passar a falsa ideia de que, bom, tudo estava sob controle. Falta de planejamento, falhas de comunicação e ego político são apontados como os pecados de sua gestão.

"Enquanto cineasta, se você está vivendo algo de dimensões tão grandes, existe uma urgência em documentar aquilo. Nesse caso, nós achávamos que era importante entender o que estava acontecendo a portas fechadas e pareceu injusto o público não ter acesso a isso", diz Harutyunyan, que chama os documentários dessa onda pandêmica de cápsulas do tempo.

Também faz parte da seleção Covid do É Tudo Verdade um filme que pode passar despercebido por quem está em busca de relatos sobre a pandemia. "Paraíso" é o que o diretor Sérgio Tréfaut chama de um tributo a uma geração dizimada pela doença.

Nascido no Brasil, Tréfaut se mudou para Portugal na adolescência, fugido da ditadura. Sua ideia original para o filme era revisitar a terra natal, tendo a música como guia. "Paraíso" acompanha encontros entre idosos que se reúnem nos jardins do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, para cantar antigas canções de amor.

As gravações, no entanto, foram interrompidas pela Covid-19, que mirava especialmente a terceira idade em suas primeiras incursões em solo brasileiro. Era impossível não absorver a doença.

"Eu encontrei naqueles jardins o que restava de um outro Brasil. Montei o filme com o material que consegui captar em homenagem a uma geração e a um país sepultados pela modernidade e pelo governo. É o retrato de um Brasil que se apaga, e a pandemia faz com que isso aconteça de forma mais radical. Ela e a atitude governamental são decisivas para um extermínio dessa geração", afirma Tréfaut.

Mesmo que esteja presente de forma sutil em "Paraíso", o coronavírus parece estar sempre à espreita. Não à toa, vitimou um dos principais personagens do longa, Rubinho, um tocador de bandolim.

Esses documentários pandêmicos que chegam ao público pelo É Tudo Verdade foram gravados no ano passado e têm, no final, um gostinho de esperança, de que o pior já passou. Os diretores não esperavam que, em países com o Brasil, em 2021, a situação estaria até mesmo mais grave do que no ano passado. Agora eles esperam que a estreia dos filmes ajude na batalha contra o vírus.
*
PROGRAMAÇÃO

"E14" (Programa de Curtas Internacionais 1)
Exibido no dia 17 de abril, às 13h, no Looke

"2020"
Exibido de 11 a 18 de abril, no Spcine Play

"Sob Total Controle"
Exibido no dia 10 de abril, às 19h, no Looke

"Paraíso"
Exibido no dia 16 de abril, às 19h, no Looke

Confira a programação completa do É Tudo Verdade, gratuita, que vai de 8 a 18 de abril, no site etudoverdade.com.br