Carente de reconhecimento, Eder Jofre celebra 60 anos de título mundialReprodução
BRASIL - O Brasil recebeu Eder Jofre acaloradamente após sua vitória sobre o mexicano Eloy Sanchez, em luta realizada em Los Angeles, em 18 de novembro de 1960. Abraçado por populares, ele desfilou em carro aberto até sua casa no Parque Peruche, zona norte de São Paulo, em uma festa que teve cumprimentos de políticos importantes e batucada de escola de samba.

Hoje, todo aquele carnaval parece uma memória ainda mais distante do que sugerem as seis décadas que transcorreram de lá para cá. Não que o Galinho de Ouro tenha sido esquecido ou apagado da história, mas parece ao tricampeão e a seus familiares que a lembrança foi ficando turva para os mais velhos e quase inexistente para os mais novos.

"Acho, sim, que tem pouco reconhecimento. Pela grandeza dos feitos, pelas coisas que ele realizou, acho que é pouco. Nós batalhamos muito para não deixar o nome dele cair no esquecimento. Os feitos têm que permanecer vivos, para toda a nação brasileira, porque as conquistas foram para o Brasil", afirmou o genro de Eder, Antonio Oliveira.

Oliveira e sua mulher, Andrea Jofre, têm se esforçado para manter viva essa trajetória. Eles lutam também para reavivar a memória do próprio ex-atleta, que sofre de uma encefalopatia traumática crônica e, aos 84 anos, tem dificuldades para recordar alguns de seus grandes momentos nos ringues.

Um desses momentos ocorreu há 60 anos, no Olympic Auditorium de Los Angeles. Após uma duríssima vitória sobre o mexicano José Medel, o brasileiro ganhou o direito de enfrentar Eloy Sanchez pelo título mundial dos galos na Associação Mundial de Boxe (WBA), então chamada de Associação Nacional de Boxe (NBA), e o derrubou no sexto assalto.

Ele parecia em dificuldade naquele momento, porém reagiu com golpes pesados e assegurou o cinturão. "Jofrinho parece mal diante dos ataques do mexicano, mas, quando menos se espera, contragolpeia vigorosamente com um cruzado de direita e manda Sanchez à lona", relatou a Folha em 1960.
O campeão, que já havia levado o adversário ao chão no quarto assalto, elogiou o esforço dele para voltar à luta: "É um dos homens mais valentes que já vi na minha vida". O mexicano devolveu a gentileza e descreveu com humildade o soco que finalizou o combate: "O último golpe da luta foi o mais poderoso que já recebi".

Esse respeito ainda existia meio século depois, nas comemorações dos 50 anos do confronto. Sanchez viajou ao Brasil em 2010 e visitou o velho algoz, em um encontro promovido pela TV Globo. Eles voltaram a trocar reverências, após um longo abraço, e se divertiram ao rever trechos do duelo.

Naquele momento, apesar da visita cordial e das homenagens ligadas ao cinquentenário do título mundial, Jofre já demonstrava alguma tristeza por se ver pouco lembrado. "Até dói. Fui bicampeão, e as pessoas não sabem quem eu sou. Ninguém é obrigado a reconhecer, mas ser bicampeão em um país onde só se fala em futebol não é pouco", afirmou.

Essa queixa foi repetida nos anos seguintes, enquanto ele ainda concedia entrevistas com alguma regularidade. Hoje, por causa dos problemas de saúde, Eder não tem falado com jornalistas, deixando com os familiares a tarefa de brigar pela valorização de uma carreira extremamente vitoriosa.

Campeão em 1960, ele manteve o título dos galos da NBA/WBA até 1965. Após uma pausa nas lutas, voltou a competir entre os penas e jamais perdeu nessa categoria, conquistando o cinturão do Conselho Mundial de Boxe (WBC) em 1973. No ano passado, o WBC o reconheceu também como o campeão dos galos pela associação, em 1963, o que fez dele tricampeão mundial.

Todo o cartel profissional de Jofre, em um total de 81 combates, tem apenas duas derrotas, as contestadas vitórias por pontos do japonês Masahiko "Fighting" Harada, em 1965 e 1966. Em 1996, a respeitada revista norte-americana The Ring o colocou em nono lugar em um ranking dos melhores pugilistas dos 50 anos anteriores, à frente de nomes como Mike Tyson.

As glórias internacionais do paulistano incluem ainda sua presença no mais prestigiado Hall da Fama do esporte, localizado em Canatosta, perto de Nova York. Em março do próximo ano, ele passará a fazer parte também do Hall da Fama da Califórnia, nova coroa de louros para uma trajetória cheia delas.

Apesar dos galardões em território estrangeiro, os parentes de Eder entendem que ele não vem recebendo no Brasil o devido crédito. Eles citam o São Paulo, clube defendido pelo boxeador, e o Conselho Nacional de Boxe como notórias exceções, porém entendem que o reconhecimento poderia ser diferente.

O aniversário de 60 anos da luta histórica contra Sanchez é uma boa oportunidade para reclamar essa atenção. Antonio Oliveira agendou com o São Paulo uma sessão de fotos no memorial do Morumbi, que guarda alguns dos objetos pessoais de Jofre, para não deixar a data passar em branco, e se mostrou surpreso ao tomar conhecimento desta reportagem.

"Não vivenciamos os momentos de quando o Eder foi campeão pela primeira vez, mas é uma satisfação muito grande quando existe o reconhecimento. É legal quando os mais velhos, inclusive outros campeões mundiais, exaltam a importância de ele ter aberto as portas do Brasil para o mundo em relação ao boxe. É um pioneiro de feitos maravilhosos", disse Oliveira.

Alguns desses feitos foram lembrados no filme "10 Segundos para Vencer" (2018), de José Alvarenga Jr., no qual o ator Daniel de Oliveira interpreta o campeão. Em 1986, a trajetória daquele que já foi eleito o melhor peso-galo de todos os tempos já havia sido contada no documentário "Quebrando a Cara", de Ugo Giorgetti.

O reconhecimento, como se vê, existe e vai se renovando, porém o ex-pugilista e sua família mantêm a sensação de que o tratamento não é o destinado aos grandes ídolos do esporte nacional. E não há dúvida de que Eder Jofre se enquadre nessa categoria, como mostrou sua recepção após a conquista de 1960.

Milhares acompanharam o trajeto do aeroporto de Congonhas até o Peruche, com uma parada no Palácio dos Campos Elíseos para o cumprimento do governador Carvalho Pinto. O político "riu gostosamente", como descreveu a Folha, ao ver "um popular fantasiado de Eloy Sanchez, vestido como lutador de boxe e tendo o rosto coberto por tiras de esparadrapo e falsas equimoses".

Aquela surra no mexicano está na lista das mais marcantes do paulistano, mas não é apontada por ele como uma das mais difíceis. A vitória anterior sobre Medel, sim, sempre foi mencionada por Jofre como uma das mais complicadas.

O triunfo que rendeu a Eder o direito de lutar pelo título mundial, em uma espécie de semifinal pelo cinturão vago, foi lembrada pelo presidente da CBBoxe (Confederação Brasileira de Boxe), Mauro Silva, em carta enviada à Folha de S.Paulo para celebrar os 60 anos do título.
"No nono round, Eder Jofre sentiu um fortíssimo golpe na região do fígado, que eliminou suas forças. A partir daí, recebeu uma saraivada de golpes, sem mal conseguir se defender. Um deles quebrou seu nariz. Ao soar do gongo, com dificuldade para respirar e cambaleante, sentou-se no córner e disse a seu pai e treinador, Kid Jofre, que não conseguiria seguir na luta", recordou Silva.

"Kid Jofre sabiamente disse: 'A sua mãe está assistindo. O Brasil está assistindo. Não desista, você pode vencer'. Eder reuniu forças e, com muita garra, lutou como um campeão, vencendo no décimo round por nocaute. Contra Eloy Sanchez, Eder já sabia que era um campeão", acrescentou o dirigente da confederação.

Para Silva, o Galinho de Ouro "representa a dedicação, a superação, o talento e, acima de tudo, a alma de um campeão". Um campeão que já não tem o vigor que o fez ser escolhido pela revista The Ring o maior boxeador dos anos 1960, à frente de Muhammad Ali, mas ainda um campeão que gosta de ser lembrado por seus triunfos.

"O Eder, graças a Deus, está bem. Todos sabem que ele tem alguns problemas de saúde, já não é aquela pessoa dos tempos áureos. Está com alguma debilitação física, mas a parte clínica está boa. Com fé em Deus, ele ainda vai perdurar aqui por muito mais tempo", disse o genro Oliveira. "Vida longa ao nosso campeão."