Acidente que matou Eduardo Campos completa seis anos sem respostas e indenizaçõesArquivo/#Santaportal

SANTOS - A morte de Eduardo Campos em um trágico acidente aéreo em Santos completa seis anos nesta quinta-feira (13). O falecimento do presidenciável, que disputaria as eleições de 2014 pelo PSB, mudou completamente o cenário político naquele ano. A sua vice, Marina Silva, assumiu como líder da chapa e chegou a liderar as pesquisas de intenção de voto, mas foi superada pela petista Dilma Rousseff – que acabaria sendo reeleita – e pelo tucano Aécio Neves, que foram para a disputa do segundo turno.

Campos era considerado um dos políticos mais promissores de sua geração. Com apenas 49 anos, ele já havia sido governador de Pernambuco e, também, ministro de Ciências e Tecnologia no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Mas a morte do político não deixou marcas apenas no campo político. A queda do jatinho provocou danos estruturais em dez imóveis, deixou 11 feridos e vitimou o candidato e sua equipe. Além disso, 42 famílias tiveram algum tipo de prejuízo em razão do acidente naquela manhã chuvosa.

Uma das pessoas afetadas diretamente pelo acidente foi o empresário Benedito Juarez Câmara, dono da academia Mahatma, na Rua Alexandre Herculano, no bairro Boqueirão. Em entrevista exclusiva ao #Santaportal , Juarez conta que ingressou com dois processos em busca da reparação dos danos sofridos pela queda do avião.

“Entramos com dois processos: um de lucro cessante (prejuízo causado pela interrupção da atividade no local) e o outro de danos materiais e morais contra o PSB e a empresa dona da aeronave. O caso ainda não foi julgado, está em primeira instância. Um perito foi destinado pelo juiz para fazer um levantamento e avaliar uma série de dados que disponibilizamos, mostrando como a academia era antes e como ficou depois do acidente. Quando esse parecer ficar pronto, o juiz vai avaliar, com base nesses documentos, o nosso pedido de indenização”, disse o proprietário da academia.

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Segundo Juarez, ao todo o seu prejuízo chegou a um valor próximo dos R$ 2 milhões. “O prejuízo foi grande, precisamos de um tempo para nos recuperarmos. Depois de quase dois anos conseguimos voltar com (as aulas de) musculação. Faz pouco mais de um ano que conseguimos voltar com a natação. Mas não está como era antes. Ainda mais com a situação da pandemia da Covid-19, complicou a coisa ainda mais”, comentou.

O dono da academia destaca que não foi procurado por nenhuma das partes envolvidas nas ações movidas por ele o procurou para tratar de uma possível indenização. “Não tivemos nenhum suporte, ninguém procurou a gente. Em nenhum momento vieram aqui, nem mesmo quando houve o acidente. Apenas falaram que iriam indenizar todo mundo. O mínimo desejado era isso, mas agora o caso está na Justiça. Esperamos por um final feliz, até porque fomos prejudicados sem ter nada a ver com o que aconteceu. Os processos vão passar por instâncias, mas sabemos que quando envolve política, é tudo mais complicado”, finalizou.

A reportagem do #Santaportal tentou contato com o PSB, mas não obteve um retorno até o fechamento desta edição. No entanto, o espaço fica aberto ao partido para manifestação sobre o assunto e o posicionamento será publicado neste espaço.

O acidente
O avião Cessna 560 XL, prefiro PR-AFA, saiu na manhã daquele 13 de agosto de 2014 do Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, com destino a base aérea de Santos, que fica em Guarujá. Naquele dia, Eduardo Campos tinha três compromissos de campanha na região. Marina também deveria ter embarcado nesse avião, porém mudou de ideia em cima da hora, e acabou pegando mais tarde um avião de carreira junto com assessores. No entanto, a aeronave caiu naquela manhã, no cruzamento das ruas Alexandre Herculano e Vahia de Abreu, no bairro Boqueirão, em Santos.

Ao todo, sete foram as vítimas fatais desse acidente aéreo. Além de Campos, estavam a bordo quatro assessores: Alexandre Severo (fotógrafo oficial da campanha), Marcelo Lyra (cinegrafista), Pedro Valadares (ex-deputado e assessor) e Carlos Percol (assessor de imprensa).

Além do presidenciável, estavam a bordo quatro assessores: Alexandre Severo (fotógrafo oficial da campanha), Marcelo Lyra (cinegrafista), Pedro Valadares (ex-deputado e assessor do candidato) e Carlos Percol (assessor de imprensa). Também morreram o piloto Marcos Martins e o copiloto Geraldo Cunha.

Sem sabotagem
Entre os motivos que inviabilizaram a identificação da causa do acidente aéreo que vitimou o então candidato à Presidência da República Eduardo Campos está o mau funcionamento do gravador VCR. Esse equipamento, que grava vozes e sons da cabine, poderia ter apresentado pistas sobre o que ocorreu com o avião no momento do acidente. A conclusão é do delegado federal Rubens Maleiner, responsável pelo caso. Ele também descartou qualquer possibilidade de sabotagem.

Maleiner pediu o arquivamento do inquérito ante a impossibilidade em se apontar a causa do acidente. Esse resultado, no entanto, poderia ser outro, caso o gravador da cabine estivesse funcionando normalmente.

A hipótese de sabotagem foi “totalmente descartada” pela Polícia Federal. “Ouvimos todos que cuidaram da aeronave nos dias precedentes ao voo, além de termos feito investigações no Aeroporto Santos Dumont e com relação às oficinas de manutenção que lidaram com a aeronave. Todo entendimento que tivemos da mecânica do voo é absolutamente incompatível com qualquer possibilidade de sabotagem imaginada”, argumentou Rubens Maleiner.

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Tânia Rêgo/Arquivo Agência Brasil

Quatro hipóteses
Ante o problema com o gravador e outras dificuldades – como o impacto de alta intensidade, que resultou em uma fragmentação acentuada das peças da aeronave; as características geográficas da região; e as condições climáticas no momento do acidente, com nuvens que inviabilizaram um maior número de testemunhas – o inquérito produzido pela Polícia Federal acabou limitado a apresentar quatro hipóteses possíveis para a ocorrência acidente.

A primeira delas é a de colisão com pássaros, uma vez que foi relatado por uma testemunha a presença de muitos urubus nas proximidades no momento do acidente. Também foram mencionadas como hipóteses a possibilidade de disparo de compensador de profundador; e a de pane com travamento de profundador em posições extremas. Esses equipamentos são peças localizadas nas asas ou na traseira, responsáveis por estabilizar e dar a direção à aeronave.

A quarta hipótese apresentada é a de os pilotos terem passado por alguma desorientação espacial. Esta última hipótese foi apontada em 2016 pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), da Força Aérea.

Em fevereiro do ano passado, o inquérito foi arquivado sem que fossem apontadas as causas da queda da aeronave.

Análise de Aeronáutica
De acordo com o delegado, a análise do gravador ficou exclusivamente a cargo da Aeronáutica. “Tivemos acesso apenas ao produto do gravador, ou seja: às transcrições das gravações, porque quem dispõe da tecnologia para de gravar, ler e traduzir para arquivo de texto ou de áudio o conteúdo da memória do gravador é o Cenipa”, disse o delegado.

Segundo Maleiner, esse tipo de falha não é comum no gravador. De acordo com ele, foram trabalhadas duas hipóteses para seu mau funcionamento. “Ou o aparelho sofreu algum tipo de pane de energização, ou seja, a alimentação do aparelho falhou em algum momento e não foi corrigida; ou o aparelho apresentou algum tipo de problema que não foi sequer previsto pelo fabricante. Coisas da eletrônica, sabe”, afirmou.

“Mas isso não levanta qualquer suspeita porque não tinha como, há um ano e 9 meses antes, alguém suspeitar que esse avião iria transportar essas pessoas”, completou o delegado responsável pelo caso.

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Divulgação/PSB