11/02/2026

Vacina nonavalente contra HPV ganha indicação para tumores de cabeça e pescoço

Por Laiz Menezes/Folhapress em 11/02/2026 às 10:19

Arquivo/Prefeitura de Santos
Arquivo/Prefeitura de Santos

A bula da vacina nonavalente contra o HPV (papilomavírus humano), disponível apenas na rede privada, foi atualizada e agora prevê também a proteção contra o câncer de orofaringe e outros tumores de cabeça e pescoço associados ao vírus.

O oncologista Marcos André Costa, do Hospital Nove de Julho, explica que o Brasil contava apenas com a vacina quadrivalente contra o HPV, que protege contra os genótipos 6, 11, 16 e 18. Em 2023, foi aprovada no país a vacina nonavalente, que amplia a proteção para outros tipos de risco -31, 33, 45, 52 e 58.

No SUS (Sistema Único de Saúde), a vacina disponível para pessoas de 9 a 14 anos é a quadrivalente, que protege contra quatro tipos de HPV. Pela bula, que não foi atualizada, o imunizante é indicado para prevenção apenas dos cânceres do colo do útero, vulva, vagina e ânus, além de verrugas genitais e infecções causadas pelo papilomavírus humano -doenças também previníveis com a nonavalente.

Apesar disso, tanto a vacina quadrivalente quanto a nonavalente protegem conta o tipo 16 do HPV, que é responsável pela maioria dos casos de câncer de orofaringe e outros de cabeça e pescoço relacionados ao vírus, segundo Rosana Richtmann, consultora em vacinas dos laboratórios da Dasa, maior rede de saúde integrada do Brasil.

“A gente imagina que a proteção da vacina nonavalente e da quadrivalente contra esse tipo de tumor seja muito semelhante”, diz. Segundo a infectologista, além do HPV 16, outros tipos como HPV 18, 31, 33, 45, 52 e 58 também estão associados ao câncer, mas em menor proporção.

André Costa afirma que cerca de 40% dos tumores de cabeça e pescoço estão associados ao HPV e que os cânceres de orofaringe ligados ao vírus atingem mais frequentemente a população masculina.

“A ampliação da recomendação tem potencial de impactar de forma significativa esse grupo”, diz. “A redução da infecção crônica pelo vírus na orofaringe diminui a exposição prolongada do tecido aos genótipos mais agressivos e, consequentemente, a ocorrência desses tumores”, acrescenta.

Na rede privada, a vacina nonavalente contra o HPV pode ser aplicada em pessoas de 9 a 45 anos, segundo recomendação da bula. Pode custar R$ 940 a 1ª dose, R$ 1.786 duas doses e R$ 2.679 as três doses. Segundo o Ministério da Saúde, não há pedido para incorporação da nonavalente no SUS.

Os tumores de cabeça e pescoço englobam os cânceres que podem surgir na cavidade oral, faringe, laringe, cavidade nasal, seios paranasais, tireoide e glândulas salivares.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou a atualização da bula da vacina nonavalente em dezembro. Segundo Richtmann, a ampliação acontece após estudos de vida real -feitos com pacientes em situações do dia a dia, fora do ambiente controlado dos ensaios clínicos tradicionais- mostrarem a importância da vacina na prevenção desses tumores.

“A nova indicação é fundamentada na prevenção da infecção persistente pelos tipos de HPV oncogênicos, 16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58, reconhecidos como principais agentes etiológicos desses cânceres, bem como na demonstração de resposta imunológica robusta contra esses tipos virais”, informou o órgão sanitário em nota.

Um dos estudos que embasa a atualização da bula da nonavalente foi realizado no Brasil e avaliou a prevalência de infecção oral pelo HPV em mais de 5.000 mil mulheres e homens de 16 a 25 anos, de todas as capitais do país, cita Richtmann. Entre as mulheres vacinadas, a prevalência de infecção oral pelo HPV foi significativamente menor (0,43%) quando comparada às não vacinadas (1,65%).

“Essa indicação ganha ainda mais relevância porque não existe rastreamento padronizado para o câncer de orofaringe, diferentemente do câncer de colo do útero. Nesse cenário, a vacinação se consolida como a principal ferramenta de prevenção disponível”, afirma.

Rosane Orth Argenta, sócia-fundadora e CEO da Saúde Livre Vacinas, rede especialista em imunização, diz que a maioria das infecções por HPV é eliminada naturalmente pelo sistema imunológico, mas, quando o organismo não consegue combater o vírus, especialmente os tipos mais agressivos, ele pode permanecer nas células e provocar câncer.

Segundo a médica, os estudos apontaram uma redução importante dos tumores de cabeça e pescoço com a vacina contra o HPV tanto em homens quanto em mulheres, mas o impacto foi especialmente expressivo entre os homens, com prevalência até quatro vezes menor de cânceres de orofaringe associados ao HPV entre os vacinados.

A especialista destaca que, apesar de menos comentados, esses cânceres podem ter consequências graves, com tratamentos mutiladores, que podem levar à perda de partes da mandíbula, da face ou da língua.

A recomendação de iniciar a vacinação aos 9 anos, de acordo com Argenta, não tem relação com o início da vida sexual, mas sim com a resposta imunológica. Nessa idade, o organismo produz maior quantidade de anticorpos, com resposta mais duradoura. Por isso, a vacinação precoce é considerada mais eficaz.

De acordo com o Ministério da Saúde, cerca de 76% dos casos de câncer de cabeça e pescoço são diagnosticados em estágio avançado, o que aumenta o número de óbitos.

Entre 2017 e 2020, a taxa de mortalidade no Brasil caiu de 5,69 para 5,12 óbitos por 100 mil habitantes. Entre os homens, o índice passou de 9,20 para 8,21 óbitos por 100 mil no período. Já entre as mulheres, a taxa recuou de 2,34 para 2,17 óbitos por 100 mil.

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