Missões à Lua impulsionaram ciência e computação no século 20
Por Salvador Nogueira/Folhapress em 20/02/2026 às 11:25
As missões Apollo à Lua foram realizadas entre 1968 e 1972. Mais de cinco décadas depois, não é difícil perceber seu impacto na hoje pujante indústria da computação. E, no que diz respeito à ciência, elas continuam a contribuir em pesquisas de alto impacto.
Dos mais de 400 quilos de rochas e poeira trazidos pelas seis alunissagens, uma boa parte segue intocada e preservada em uma instalação construída especialmente para elas, no Centro Espacial Johnson, da Nasa, em Houston, Texas. Vez por outra, algumas delas são emprestadas a cientistas espalhados pelo mundo para novas pesquisas.
A mais importante descoberta trazida por sua análise foi a corroboração da hipótese de que a Lua nasceu da colisão de um protoplaneta que colidiu com a Terra nos primórdios da formação do Sistema Solar, há 4,5 bilhões de anos. A composição das rochas lunares conta não apenas a história da evolução da Lua, mas também de Theia, esse hipotético protoplaneta.
Em geral, as rochas superficiais lunares lembram muito a composição das terrestres, indicando uma origem comum. Imagina-se que as mais profundas tenham um vínculo maior com Theia, mas essa é uma pesquisa ainda em andamento.
O impacto científico das missões, contudo, vai muito além do que se aprendeu sobre a própria Lua. É mensurável o estímulo que as jornadas tiveram sobre crianças e adolescentes nos anos 1960, motivando-os a perseguir uma carreira nas mais diversas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, o que se costuma hoje referir pela sigla inglesa Stem. Essa “geração Apollo” ajudou a construir a supremacia científica e tecnológica dos EUA na segunda metade do século 20. E, claro, a Nasa espera atingir efeito semelhante sobre a “geração Artemis”, no século 21.
Parindo a computação
Andamos hoje com poderosos computadores equipados com inteligência artificial em nossos bolsos. Mas nos anos 1960, a computação era algo experimental e caro, destinado a grandes centros de pesquisa. Um computador, naquela época, ocupava uma sala inteira e tinha capacidade de processamento não muito diferente de uma calculadora de mão.
Para o programa Apollo, a Nasa precisava fazer caber essa tecnologia toda em uma nave espacial de porte modesto, capaz de uma viagem de ida e volta à Lua. O módulo lunar contou com um computador de bordo cuja memória de trabalho (RAM) tinha apenas 64 kilobytes. É menos que uma foto de baixa resolução!
Ocorre que, não fosse isso, não haveria um grande impulso no desenvolvimento e miniaturização de computadores. “Nossa realizações no espaço nasceram de duas fontes principais”, disse, em 1964, James Webb, então administrador da Nasa, apresentando o programa Apollo. “A primeira, é claro, é o foguete moderno; a segunda -cuja importância não pode ser esquecida- é a eletrônica moderna. Essa combinação nos deu uma ferramenta cujos limites são essencialmente ilimitados, exceto pela imaginação finita dos usuários.”
A jovem Nasa então se tornou a maior consumidora da nascente indústria eletrônica dos Estados Unidos e ajudou a derrubar o preço dos circuitos integrados para que eles encontrassem seu caminho numa economia de mercado. Segundo estimativas, já em 1963, durante sua fase inicial de desenvolvimento, o programa Apollo estava consumindo 60% de toda a produção de circuitos integrados americana. Eles iam não só nos foguetes e nas naves, mas em todos os sistemas de monitoramento das missões.
Claro, computadores se mostrariam úteis e revolucionários em tantas áreas que é difícil imaginar que, cedo ou tarde, não tivessem atingido o alcance que têm hoje. Mas não teria sido tão depressa. E há uma certa circularidade virtuosa no processo: as primeiras viagens lunares pariram a indústria da computação moderna, que pariu os empreendedores que desenvolveriam a geração seguinte de foguetes e naves para as viagens lunares seguintes.
Há uma expectativa óbvia, por parte de todos os países envolvidos nessa nova corrida para a Lua, que o esforço para estabelecer esse programa, dessa vez ambicionando estadias mais longas na superfície, inspirará uma nova geração de cientistas e trará muitas inovações tecnológicas.
Uma coleção de produtos
A Nasa costuma catalogar as tecnologias que, nascidas de programas de pesquisa e desenvolvimento espaciais, acabaram se tornando produtos e serviços úteis aqui na Terra, incrementando a indústria e promovendo crescimento econômico. Só os ligados ao programa Apollo, são mais de 1.800 produtos.
Alguns exemplos:
- sistemas de resfriamento de trajes desenvolvidos para as caminhadas lunares hoje são usados por pilotos, técnicos de reatores nucleares, funcionários de estaleiros e pessoas com esclerose múltipla;
- máquinas de diálise se beneficiam de um processo químico desenvolvido pela Nasa para filtrar resíduos tóxicos que as torna mais econômicas;
- equipamentos para manter os astronautas em forma no espaço ganharam hoje as academias;
- sistemas de filtragem de água das naves foram parar em filtros domésticos;
- comida desidratada e congelada hoje existe nas prateleiras dos supermercados;
- tecidos resistentes ao fogo usados hoje por bombeiros nasceram das chamas do incêndio da Apollo 1;
- tintas usadas em automóveis;
- lubrificantes para tubulações;
- materiais de isolamento térmico criados para espaçonaves hoje revestem casas;
E assim por diante, a lista é interminável.
Quando alguém pergunta por que fomos à Lua, e por que iremos novamente, essas seriam algumas das respostas mais práticas e convincentes -mas talvez não as mais verdadeiras.
A verdade é que o desejo por exploração está impregnado no DNA humano e remonta às primeiras tribos que deixaram a África há dezenas de milhares de anos, ou mesmo aos nossos ancestrais de milhões de anos atrás. E, sempre que empreendemos um esforço de exploração, saímos sabendo mais e podendo mais do que antes. O que talvez explique nosso desejo instintivo de sempre buscar o próximo horizonte. A geração Artemis vem aí.