Mesmo após emagrecimento, células de defesa 'lembram' obesidade por anos
Por Folhapress em 08/05/2026 às 12:21
Um estudo publicado na Embo Reports indica que certas células do sistema imunológico podem manter uma “memória” da obesidade por anos mesmo após a perda de peso.
Pesquisadores observaram que células T auxiliares (um tipo de célula de defesa) carregam marcas químicas no DNA associadas ao período em que a pessoa esteve obesa. Essas marcas, chamadas de metilação do DNA, mudam a atividade dos genes sem alterar a sequência do DNA e podem sustentar um estado inflamatório por muito tempo.
O trabalho sugere que emagrecer no curto prazo não zera automaticamente alguns riscos ligados à obesidade. “As descobertas sugerem que a perda de peso de curto prazo pode não reduzir imediatamente o risco de algumas condições de doença associadas à obesidade, incluindo diabetes tipo 2 e alguns cânceres”, afirmou Claudio Mauro, imunologista da Universidade de Birmingham (Reino Unido).
Para os autores, a “memória” tende a diminuir com manutenção do peso ao longo do tempo. “A manutenção contínua do peso após a perda fará com que a ‘memória da obesidade’ desapareça lentamente”, disse Mauro.
Estudo estima que a reversão completa desse efeito pode levar anos, mas ressalta que ainda há incerteza. “Isso pode levar vários anos de manutenção sustentada da perda de peso, provavelmente de cinco a dez anos, embora isso exija mais estudo, para reverter totalmente os efeitos da obesidade nas células T”, completou o pesquisador.
Como os cientistas chegaram á essa conclusão
Equipe analisou células imunes de diferentes grupos, incluindo pessoas com obesidade que fizeram exercício quatro vezes por semana por dez semanas ou que receberam semaglutida para emagrecer. Os dados foram comparados com grupos de controle.
Pesquisadores também estudaram amostras de pessoas com síndrome de Alström, condição genética rara frequentemente associada à obesidade na infância, além de pares saudáveis pareados. Para entender mecanismos, eles ainda avaliaram células imunes de camundongos alimentados com dietas ricas em gordura e amostras de sangue de voluntários.
Segundo Belinda Nedjai, autora sênior do estudo, as mudanças observadas são do tipo epigenética, ou seja, regulam o “liga e desliga” de genes. “Nossas descobertas mostram que a obesidade está associada a modificações epigenéticas duráveis que influenciam o comportamento das células imunes”, afirmou a epidemiologista molecular da Queen Mary University London.
Limitações e próximos passos
Estudo reúne evidências de diferentes frentes (humanos, camundongos e análises de laboratório), mas não prova sozinho que essas marcas no DNA sejam a causa direta do reganho de peso ou de doenças. Parte dos resultados também vem de intervenções de curto prazo, como dez semanas de exercício, o que limita conclusões sobre o que acontece no longo prazo.
Autores defendem que acompanhar pessoas por mais tempo pode esclarecer quanto a “memória” diminui e quais fatores aceleram esse processo. “Isso sugere que o sistema imunológico retém um registro molecular de exposições metabólicas passadas, o que pode ter implicações para o risco de doença a longo prazo e a recuperação”, disse Nedjai.
Grupo também aponta caminhos para pesquisas de tratamento que ajudem a reduzir inflamação e “rejuvenescer” células imunes afetadas. “Nosso estudo sugere oportunidades terapêuticas potenciais para acelerar esse processo, como reaproveitar medicamentos como os inibidores de SGLT2, que mostraram promessa em reduzir a inflamação e promover a eliminação mediada pelo sistema imune de células senescentes na obesidade”, afirmou Mauro.