Inflação é a maior para maio em 5 anos e ultrapassa teto da meta em 12 meses
Por Folha Press em 12/06/2026 às 16:35
A inflação oficial do Brasil desacelerou a 0,58% em maio, após marcar 0,67% em abril, apontam dados do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) divulgados nesta sexta (12) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Mesmo com a trégua em relação ao mês anterior, a taxa de 0,58% é a maior para maio em cinco anos, desde 2021 (0,83%). Houve pressão da carestia de parte dos alimentos e da energia elétrica.
A variação de 0,58% também ficou acima da mediana das previsões do mercado financeiro, que era de 0,53%, conforme a agência Bloomberg.
Com os novos dados, o IPCA acelerou a 4,72% no acumulado de 12 meses até maio, depois de marcar 4,39% até abril.
Assim, o índice ultrapassou o teto de 4,5% da meta de inflação perseguida pelo BC (Banco Central). Isso não ocorria desde outubro do ano passado.
Possível reflexos nos juros
A meta é a base para a condução da política de juros do BC. A instituição passou a cortar a taxa Selic em março, mas as recentes pressões sobre a inflação e a piora das expectativas acenderam alerta.
O temor é de que o cenário interrompa o ciclo de queda dos juros antes do esperado inicialmente. A Selic está em 14,5% ao ano.
O Copom (Comitê de Política Monetária) do BC volta a se reunir na próxima semana para definir o patamar da taxa. A decisão sai na quarta (17).
“Nossa avaliação é de que o Banco Central deve seguir com mais um corte de 0,25 ponto [percentual], mas consideramos plausível que a autoridade monetária avalie uma pausa imediata, dado o quadro bastante complicado da inflação”, diz o economista Carlos Lopes, do banco BV.
O economista-chefe da consultoria MB Associados, Sergio Vale, vê espaço para duas novas reduções de 0,25 ponto percentual, com a Selic fechando o ano em 14%.
Ele afirma que o IPCA foi pressionado pelos efeitos da guerra no Irã e diz que a inflação carrega a ameaça do fenômeno climático El Niño para o segundo semestre.
“Você junta esses elementos e vê que o Banco Central tem um trabalho muito difícil pela frente”, aponta Vale. Ele projeta IPCA de 5,4% no acumulado de 2026.
“Isso começa a trazer preocupação para 2027, porque contamina preços administrados, como aqueles do começo de ano”, acrescenta o economista, em uma referência a reajustes baseados na inflação de períodos anteriores.
Alimentos pressionam IPCA
Entre os nove grupos de bens e serviços que compõem o IPCA, o destaque do lado dos aumentos mais uma vez veio de alimentação e bebidas.
Conforme o IBGE, o segmento teve a maior alta de preços em maio: 1,33%. O resultado gerou impacto de 0,29 ponto percentual no índice. Isso significa que o ramo respondeu por metade do IPCA mensal.
Dentro do grupo, a alimentação no domicílio registrou alta de 1,65%. É a maior taxa para meses de maio em 18 anos, desde 2008 (2,27%).
Houve efeito dos aumentos de produtos como batata-inglesa (44,69%), tomate (20,62%), cebola (16,8%) e carnes (1,39%).
“O aumento nestes itens se deve a questões de menor oferta e também há influência do valor do frete por conta da alta dos combustíveis”, disse o gerente do IPCA, Fernando Gonçalves.
Parte da fala do pesquisador é uma referência aos impactos da guerra no Irã, iniciada em 28 de fevereiro. O conflito pressionou as cotações do petróleo e os preços dos fertilizantes.
Um dos primeiros reflexos no Brasil foi a alta dos combustíveis, incluindo o óleo diesel, que afeta o transporte nas rodovias.
O diesel até caiu em maio (-2,34%), mas não compensou totalmente os avanços após o início da guerra. O combustível subiu 13,9% em março e 4,46% em abril.
Um movimento semelhante aconteceu com a gasolina, que baixou em maio (-1,46%). O produto, contudo, vem de altas de 4,59% em março e de 1,86% em abril.
A gasolina é o subitem com o maior peso na cesta do IPCA. Assim, gerou a principal contribuição entre as quedas no índice de maio (-0,08 p.p.). Em outras palavras, impediu uma inflação ainda maior no mês.
O governo Lula (PT) adotou medidas de subvenção a combustíveis como o diesel em uma tentativa de mitigar os efeitos da guerra no ano eleitoral. Lula deve tentar a reeleição em outubro.
Segundo Gonçalves, as ações do governo podem ter aliviado os preços dos combustíveis em maio.
O técnico do IBGE também indicou que a queda do etanol (-6,2%) pode ter ajudado a baixar o custo da gasolina.
Conta de luz fica mais cara
Além dos alimentos, outra pressão sobre o IPCA de maio veio da energia elétrica, que registrou inflação de 3,67%.
A conta de luz gerou um impacto de +0,15 p.p. no índice geral de preços. Foi a principal contribuição individual do lado das altas.
Conforme o IBGE, a energia ficou mais cara com os reajustes de tarifas em áreas da pesquisa e a vigência em maio da bandeira amarela, que causou cobrança extra na conta.
El ninõ ameaça 2º semestre
O horizonte do segundo semestre tem o desafio adicional do fenômeno climático El Niño, que altera a distribuição de chuvas.
Previsões indicam risco de um evento com forte intensidade. A situação pode atrapalhar a produção agropecuária, com eventuais repasses para os preços dos alimentos até o final do ano.
Como mostrou a Folha de S.Paulo, economistas revisaram para cima as suas estimativas para a inflação da alimentação no domicílio em 2026.
Eles passaram a projetar alta de 7% ou mais para o acumulado desse componente.
A variação prevista para os alimentos está acima das estimativas para a inflação em termos gerais.
Na mediana, o mercado espera IPCA de 5,11% nos 12 meses até dezembro, conforme a edição mais recente do boletim Focus, publicada pelo BC na segunda (8). A projeção está em alta há 13 semanas consecutivas.
A meta perseguida pelo BC tem centro de 3% e intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Isso significa teto de 4,5% e piso de 1,5% para o acumulado de 12 meses.
A meta é considerada descumprida quando o IPCA permanece por seis meses seguidos de divulgação fora do intervalo de tolerância no acumulado.
A consultoria 4intelligence prevê inflação de 5,4% neste ano e fala em desdobramentos “muito relevantes” da guerra na precificação de uma “enorme cadeia de bens e serviços”. A casa também cita a ameaça do El Niño.
O economista Luiz Otávio Leal, da G5 Partners, diz que a sensação é de que o processo inflacionário no Brasil piorou em relação ao início do ano. Ele prevê IPCA de 5,2% em 2026 e vê pouco espaço para a Selic cair além de 14% até dezembro.
Por ora, o economista-chefe da Integral Group, Daniel Miraglia, projeta IPCA de 5% para o acumulado deste ano.
Ele, contudo, aponta um viés de baixa na estimativa, para a faixa de 4,7%. Para Miraglia, o pico de inflação gerado pela guerra pode ter ficado para trás.
IPCA de maio nos últimos 5 anos
Em %
- 2021 – 0,83
- 2022 – 0,47
- 2023 – 0,23
- 2024 – 0,46
- 2025 – 0,26
- 2026 – 0,58
Fonte: IBGE.