Hezbollah entra na guerra; conflito se espalha pelo Oriente Médio
Por Igor Gielow/ Folha Press em 02/03/2026 às 19:05
A entrada do Hezbollah ampliou o caráter regional da guerra movida por Estados Unidos e Israel contra o Irã desde o sábado (28). Nesta segunda-feira (2), Tel Aviv prometeu “ir até o fim até remover a ameaça existencial”, manteve ataques ao Líbano e reforçou sua fronteira norte, além de jurar de morte o líder do grupo extremista libanês.
A violência escalou em todas as frentes da guerra. Houve renovados bombardeios ao Irã, que já conta 555 mortes, o Kuwait foi alvo de ataques intensos de Teerã, uma refinaria saudita teve de fechar após pegar fogo ao ser atingida e um drone iraniano atingiu uma distante base britânica no Mediterrâneo.
O presidente Donald Trump e o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, lançaram o ataque mirando a derrubada do regime em Teerã, sob a alegação de que as negociações para evitar que os aiatolás desenvolvessem a bomba nuclear não chegaram a lugar algum.
O agravamento da guerra foi marcado pelo ataque promovido nesta madrugada (noite de domingo, 1º), pelo Hezbollah. Foram lançados foguetes e drones contar o norte de Israel, que reagiu com um amplo bombardeio em todo o território libanês, que deixou ao menos 52 mortos.
Nesta manhã, o Exército de Israel anunciou o envio de forças ao norte, mas disse descartar uma nova invasão terrestre. O país ocupou pela última vez o sul do vizinho na guerra com o Hezbollah, que apoiava outro aliado do Irã, o grupo terrorista palestino Hamas, na esteira do atentado de 7 de outubro de 2023 ao Estado judeu.
O ministro Israel Katz (Defesa) disse que a nova ação do Hezbollah, que está severamente enfraquecido pelo conflito anterior, fez seu líder, Naim Qassem, “marcado para ser eliminado”. Já o porta-voz militar Effie Defrin disse que a guerra contra os rivais “vai durar o quanto tiver de durar”.
No domingo, Trump sugeriu que o conflito pode durar quatro semanas se o Irã não se render. A teocracia, por sua vez, adotou uma posição de endurecimento e começou a promover a sucessão de seu líder supremo, Ali Khamenei, que foi morto no primeiro dia dos ataques com boa parte da cúpula militar do país.
Israel afirmou nesta segunda que seus ataques mataram o chefe de inteligência do Hezbollah, Hussein Makled, em Beirute. O país também alertou aos moradores da capital para saírem de perto de agências do banco Al-Qard al-Hassan, ligado ao grupo, indicando que elas serão atacadas.
O Estado judeu mobilizou 110 mil reservistas até aqui, ante o efetivo usual de 169.500 militares na ativa. Segundo um porta-voz militar, a operação em conjunto com os EUA foi planejada durante meses, e ao mesmo tempo foram “feitas extensivas preparações para desenvolvimentos em múltiplas frentes”.
Ausentes até aqui da equação da guerra estão os houthis do Iêmen, aliados dos iranianos que causaram grande disrupção no tráfego marítimo mundial ao atacar embarcações no mar Vermelho em apoio ao também preposto iraniano Hamas contra Israel no conflito de 2023-2025.
Ações se multiplicam
Enquanto isso, os sinais de que a guerra pode escalar ainda mais se multiplicam. No Kuwait, houve diversos alertas para que moradores fiquem em suas casas, enquanto o governo local relatou um incidente ainda mal explicado no qual caças americanos teriam caído ao tentar pousar no país.
Uma refinaria próxima à capital kuwaitiana for atingida por destroços de um drone iraniano e registrou um incêndio. Ao longo da costa do golfo Pérsico, houve novas explosões relatadas em Doha, Abu Dhabi e Dubai, pérolas das petromonarquias locais.
O Qatar, que apesar de sediar a maior base americana região tinha uma relação boa com Teerã que até lhe valeu um bloqueio por parte dos vizinhos na década passada, ameaçou entrar na guerra nesta segunda.
Segundo nota de sua chancelaria à CNN, “um ataque como esse não pode ficar sem retaliação”, ainda que defenda uma solução negociada para a crise. O país teve sua infraestrutura civil, inclusive o aeroporto internacional, atacada por drones e mísseis.
Na Arábia Saudita, mais importante país árabe da região, o Irã mirou uma das maiores refinarias do Oriente Médio, o complexo de Ras Tanura. Drones foram abatidos antes de atingir o local, mas seus destroços provocaram um incêndio que parou a produção por dia, saem de lá 550 mil barris de petróleo.
O ataque eleva a tensão no mercado energético, que opera com forte alta no preço do barril Brent. No domingo, diversos confrontos navais fecharam na prática o estreito de Hormuz, por onde passa 20% da produção mundial do produto e de gás natural liquefeito.
Por fim, o espraiamento do conflito chegou até Chipre, no Mediterrâneo, onde um drone Shahed-136 iraniano atingiu a base britânica de Akrotiri. Não houve feridos, mas o governo grego mobilizou duas fragatas e aviões de caça, com seu Ministério da Defesa prometendo defender a ilha “com todos os meios disponíveis”.
O Reino Unido, que em 2003 participou da invasão do Iraque, não apoiou a guerra desta vez e vetou o uso de suas bases próximas do Oriente Médio por bombardeiros dos EUA.
Eles agiram do mesmo jeito, com ao menos quatro modelos furtivos ao radar B-2 voando diretamente dos EUA para o Irã no domingo, quando o governo em Londres enfim disse que as unidades poderiam ser usada para ataques “com fins defensivos”. O premiê Keir Starmer foi criticado por Trump por isso e se defendeu dizendo que cuida de seus interesses.
Ainda assim, os britânicos estão na linha de fogo, como em Chipre, e defenderam sua unidade no Qatar com caças Eurofighter Typhoon, que abateram drones.
A guerra, que não teve mandato internacional ou autorização do Congresso americano, tem recebido críticas crescentes. Nesta segunda, tanto o Ministério das Relações Exteriores da França quanto a Agência Internacional de Energia Atômica, ligada à ONU, disseram que o ataque ao Irã deveria ter sido debatido amplamente antes de acontecer.