29/03/2026

Governo brasileiro teme proliferação nuclear e Israel expansionista na esteira do conflito no Irã

Por Patrícia Campos Mello/Folhapress em 29/03/2026 às 17:33

EPA/George Ivanchenko
EPA/George Ivanchenko

Para além dos impactos imediatos da guerra no Irã sobre preços de combustíveis e fertilizantes, o governo brasileiro se preocupa com as possíveis implicações de longo prazo: um ambiente propício para a proliferação nuclear e um Israel expansionista.

Segundo autoridades do Itamaraty e do Planalto ouvidas pela Folha, o conflito no Irã pode levar países a buscarem capacidade própria de dissuasão. Depois da Europa, agora são os países do Golfo que reavaliam o guarda-chuva de segurança oferecido pelos EUA.

Países como Arábia Saudita e Emirados Árabes se opunham aos ataques de Israel e EUA contra o Irã, antevendo que a maior parte da retaliação seria direcionada a eles. Apesar de serem aliados de Washington, eles não foram consultados sobre a ofensiva e tiveram suas ressalvas ignoradas.

Após gestões de Trump, o líder saudita, Mohammed bin Salman, que tem fortes laços econômicos com os EUA e a família Trump, passou a apoiar os ataques americanos. Para a Arábia Saudita e os Emirados, pior do que ter iniciado a guerra é sair dela deixando no poder um regime hostil.

Ainda assim, na avaliação do governo brasileiro, isso pode levar países da região a investir mais em armamentos e até mesmo em opções nucleares, caso se mantenha no poder no Irã uma gestão linha-dura. Os sauditas são aliados do Paquistão, país que detém armamentos nucleares.

Isso também pode consolidar a percepção no Irã da necessidade de manter armamentos de dissuasão, um retrocesso para as iniciativas que tentam impedir a proliferação nuclear no mundo.

Esse cenário se daria caso a guerra se encerrasse com o regime iraniano enfraquecido econômica e militarmente, mas ainda sobrevivendo, o que deve fortalecer lideranças linha-dura e o nacionalismo no país.

Já no caso de um regime islâmico derrotado, isso poderia estimular uma atuação mais exapansiva de Israel na região, na avaliação do governo brasileiro. Além de manter a ocupação no Líbano e fazer avanços na Cisjordânia, o governo de Binyamin Netanyahu poderia empreender ações para enfraquecer a Turquia. Parte do governo Netanyahu defende uma “Grande Israel”, com fronteiras fluidas expandidas, zonas de amortecimento e enfraquecimento de rivais na região.

Para o governo brasileiro, a ocupação do território libanês pode se transformar em uma ocupação de longo prazo, com Israel se mantendo no país árabe mesmo após uma retirada dos EUA do conflito contra o Irã.

O Brasil também vê riscos de Israel manter ataques contra o Irã mesmo após uma saída dos EUA. Logo após os ataques iniciais de 28 de fevereiro, Netanyahu comemorou, dizendo que a aliança com os EUA “nos permite fazer o que queríamos fazer nos últimos 40 anos”.

A maioria do público doméstico israelense apoia a guerra contra o Irã e será difícil para Netanyahu justificar uma saída no curto prazo. E o regime islâmico, embora abalado após milhares de bombardeios israelenses e americanos, continua de pé, sem contestações populares ostensivas.

Também na avaliação de autoridades brasileiras, estão cada vez mais claras as divergências de objetivos entre Netanyahu e Trump para a guerra no Irã.

Para Israel, a meta é enfraquecer ao máximo Teerã. Netanyahu é menos sensível a pressões econômicas causadas pela crise no mercado energético. Já o governo Trump está mais vulnerável à desestabilização da economia internacional e o estremecimento da relação com os países do Golfo.

Na seara doméstica, os ataques contra o Irã e a influência israelense na política externa americana já causam rachaduras na base MAGA de Trump. Figuras como Tucker Carlson tem sido vocais contra o conflito. Joe Kent, diretor do centro de contraterrorismo dos EUA e fiel seguidor de Trump, pediu demissão afirmando que o Irã não representava “uma ameaça iminente” aos americanos e que o governo “iniciou a guerra por causa da pressão de Israel e seu poderoso lobby nos EUA”.

Ao contrário do público israelense, os eleitores americanos desaprovam fortemente a guerra. Segundo pesquisa AP-NORC divulgada nesta semana, 59% dos americanos acreditam que as ações americanas no Irã têm sido excessivas. E 45% estão “muito” ou “extremamente” preocupados com o preço da gasolina nos próximos meses, um salto diante dos 30% que tinham a mesma opinião logo após Trump vencer a eleição prometendo melhorar a situação econômica e reduzir o custo de vida —o preço médio da gasolina nos EUA subiu 30% em março.

As autoridades brasileiras fazem a ressalva de que é muito difícil fazer avaliações neste momento de incerteza no conflito, com os EUA dizendo que estão próximos de resultados positivos em negociações, e o Irã demonstrando o oposto.

Na primeira, condenou os ataques ocorridos “em meio a um processo de negociação entre as partes”. E fez um apelo a todoso os envolvidos pedindo que respeitassem o Direito Internacional e exercessem “máxima contenção, de maneira a evitar a escalada de hostilidades e a assegurar a proteção de civis e da infraestrutura civil.” Na segunda, condenou os ataques retaliatórios do Irã contra Arábia Saudita, Bahrein, Qatar, Emirados Árabes Unidos, Iraque, Kuwait e Jordânia.

Ainda no âmbito diplomático, o Brasil não foi um dos 140 países a patrocinar a resolução 2817 do Conselho de Segurança da ONU —o texto condena as ações retaliatórias do Irã contra os países do Golfo, mas não rechaça os ataques de Israel e EUA ao país persa.

A China, membro permanente, absteve-se, afirmando que a resolução “não retrata a causa original e o cenário completo do conflito de uma maneira equilibrada”. O representante da Rússia, que também não apoiou o texto, disse que ele “adota um tom enviesado”.

Independentemente do desfecho do conflito, o governo brasileiro já prevê uma fragilização ainda maior da ordem internacional.

Já com a intervenção americana na Venezuela para capturar o ditador Nicolás Maduro e instalar no lugar um governo mais dócil, desenhava-se um cenário geopolítico em que uma superpotência ignora sistematicamente as regras internacionais.

Com a guerra no Irã, isso se reforça. O governo brasileiro receia que, com o governo americano cada vez mais enrolado no Irã, Trump busque fatores diversionistas para tirar o foco do Oriente Médio. Seguindo a “Doutrina Donroe” de hegemonia no Hemisfério Ocidental, Trump poderia embarcar em uma operação de troca de regime em Cuba -o que teria repercussões muito negativas no Brasil.

O governo brasileiro mantém sua representação diplomática em Teerã, com o embaixador e dois diplomatas presentes no país.

Logo após os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, e Itamaraty divulgou duas notas diplomáticas.

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