BAIXADA SANTISTA - O farmacêutico Yasuo Nakano, de 77 anos, morador de Santos, é um dos casos de morte suspeita por Covid-19 na região. A declaração de óbito (foto abaixo) dele aponta que a morte foi causada pelo novo coronavírus, porém o resultado da contraprova ainda está sendo processado pelo Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo. O laudo conclusivo ainda não foi divulgado, causando apreensão e revolta na família do farmacêutico.

De acordo com o neto da vítima, o advogado Paulo Augusto Tadeu Nakano Nogueira, de 31 anos, seu avô começou a sentir febre e dores pelo corpo há 15 dias. Yasuo foi ao médico, que o diagnosticou com gripe comum. Depois disso, ele voltou às suas atividades normais de trabalho em Praia Grande, até que um dia ele se sentiu mal e quase desmaiou.

“Os sintomas diminuíram e ele estava somente em repouso em casa, até que na sexta-feira (dia 20) o meu irmão me ligou dizendo que ele estava com dores no estômago e vomitando. Foi o dia em que levei meu avô ao médico, no Pronto-Socorro da Zona Leste. Chegando lá, diagnosticaram que ele estava com a saturação baixa e ele ficou a madrugada em observação. Meu avô foi enviado para realizar um raio-X pela manhã, na qual constatou que o pulmão estava bastante comprometido, fazendo com que realizassem a internação. Ali foi o início da suspeita do Covid-19”, explicou Paulo Augusto ao #Santaportal .

O advogado lembra que no PS da Zona Leste foram colhidas amostras para exames comprobatórios da Covid-19. Yasuo, que era hipertenso, diabético e tinha apenas um dos rins, pois perdeu o outro ainda na adolescência, em virtude de uma tuberculose renal, apresentou uma leve melhora nas primeiras horas do dia 21. Porém, ainda naquele sábado ele precisou ser encaminhado com urgência para o Hospital Emílio Ribas, em Guarujá.

“Fui levar as roupas para ele no sábado (21), por volta das 14h, e ele me disse que estava melhor. Aparentemente ele havia melhorado. No entanto, nesse mesmo dia, ele teve que ser removido às pressas ao Hospital Emílio Ribas, no Guarujá, já entubado, pois a saturação e respiração baixaram novamente”, contou.

O neto da vítima destaca que, após a internação do avô no Emílio Ribas, a família passou a ter informações sobre o seu quadro clínico diariamente, sempre às 18h. “A resposta era sempre a mesma, de que o resultado da contraprova não havia chegado e que o estado dele era estável. Mas no dia 25 nos informaram que ele havia apresentado uma piora considerável nos pulmões e falência renal”, disse.

Yasuo morreu na noite da última quarta-feira (25). De acordo com a família, o óbito foi informado na manhã do dia seguinte. “No dia 26, às 6h30 me ligaram pedindo para comparecer ao hospital e lá me informaram que ele havia falecido no dia 25 mesmo, às 22h13”, afirmou.

Com a declaração de óbito apontando a morte por decorrência de coronavírus, mas sem o resultado da contraprova em mãos, a família teve que seguir os protocolos de segurança da saúde para o sepultamento do farmacêutico. “O caixão teve que ser fechado. O velório durou somente uma hora e foi restrito a seis pessoas por vez. E somente foi permitida a entrada de 10 pessoas para o sepultamento, fazendo com que alguns parentes ficassem do lado de fora”, relembrou.

noticia20203293345868.jpg
Reprodução/Arquivo Pessoal


Sobrinha de Yasuo, a também advogada Rita de Cassia Klein Daneluz Nakano, de 44 anos, aponta outra preocupação da família: a saúde de Marina Anna Luz Nakano, de 85 anos, viúva do farmacêutico. “Estamos aguardando esse resultado da contraprova, embora esteja mais que evidente a causa morte dele. O maior problema nesse momento é que minha tia tem 85 anos. Está extremamente fragilizada pelo falecimento do meu tio e precisa ficar no isolamento, sem contato com os filhos e netos. Não fizeram o teste (para Covid-19) nela, muito embora tenha sido requerido pela família”, declarou Rita, em entrevista ao #Santaportal .

A família não descarta entrar na Justiça para ter acesso ao laudo sobre a morte de Yasuo. “Tanto eu como o neto dele (Paulo Augusto) somos advogados e pediremos judicialmente a cópia do prontuário, se preciso for”, garantiu a sobrinha do farmacêutico.

Paulo Augusto reforça que toda a família está preocupada com Marina, que pela sua faixa etária integra o grupo de risco da doença. “(Ela) está isolada em casa, mas o medo é constante, pois ela teve contato diário com o meu avô. Vamos pedir o exame novamente, mas até por isso temos a necessidade da entrega do resultado (da contraprova) do meu avô. Porque se for positivo, teremos que exigir que seja realizado o exame nela também”, salientou.

O neto do casal cobra também uma maior atenção da Vigilência Epidemiológica de Santos, que segundo ele deveria acompanhar mais de perto a situação de sua avó. De acordo com Paulo Augusto, Marina chegou a apresentar dores no corpo dias atrás, mas sem febre. “É um descaso, meu avô faleceu sem saber o resultado do exame. Além disso, ninguém da Prefeitura entrou em contato conosco para saber como a minha avó está”, comentou.

Prefeitura e Estado se posicionam
Procurada pela reportagem, a Prefeitura de Santos informa por meio de nota que o “óbito segue em investigação pela equipe de Vigilância Epidemiológica”. Sobre a realização de exames na viúva do farmacêutico, a Secretaria de Saúde de Santos (SMS) esclarece que, por orientação estadual diante da transmissão comunitária do novo coronavírus, desde o início da semana passada é colhida amostra de exame apenas em pacientes internados. “As pessoas próximas aos suspeitos da doença devem fazer isolamento domiciliar por 14 dias para evitar que transmitam o vírus caso o tenham contraído. Se desenvolver sintomas leves, deve tratá-los em casa. No caso de aparecimento de falta de ar, deve procurar atendimento médico”, completa o comunicado.

O #Santaportal também ouviu a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo sobre o caso de Yasuo.

Veja a nota da Secretaria de Saúde do Estado:
Conforme orientação do Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo, a Secretaria de Estado da Saúde está ampliando a rede de diagnóstico e adquirindo insumos extras para a detecção de COVID-19. A pasta estadual já adquiriu 60 mil testes extras para suporte do Instituto Adolfo Lutz, importados dos Estados Unidos. Também está prevista a chegada de mil kits enviados pelo Ministério da Saúde.

Diariamente, o Lutz recebe cerca de 1.200 amostras, processando prioritariamente os casos graves e óbitos, conforme definido pelo Centro de Contingência de SP. Os resultados são enviados ao serviço que solicitou a análise, para notificação ao município de referência.

No momento, o Lutz está estudando a aquisição de mais insumos, para abastecer a rede e dar mais agilidade nos diagnósticos do novo coronavírus.

O Instituto Butantan já instalou, na quarta-feira (25), um novo laboratório para essa finalidade, que agora passa por processo de validação. A previsão é que, ainda na primeira quinzena de abril, comecem as análises de amostras, com capacidade para até duas mil por dia.

A rede de 17 laboratórios já está integrada a 5 núcleos de centros de referência para a coleta de material. A realização de testes foi iniciada e será ampliada com a aquisição de insumos

Habilitação de outros laboratórios
Além disso, publicou portaria no dia 11 de março, para comunicar aos laboratórios de SP, públicos ou privados, que estão abertas as inscrições para habilitação para realizarem o exame de RT-PCR em tempo real para o vírus SARS-CoV-2. O laboratório precisa ter os devidos registros e alvarás, e deverá respeitar normas técnicas previstas pelo Lutz. As propostas e documentações serão avaliadas pela diretoria do Instituto para autorização, se tudo estiver em conformidade.


noticia20203292457258.jpg
Reprodução/Arquivo Pessoal

noticia2020329258539.jpg
Reprodução/Arquivo Pessoal