22/01/2026

Dinamarca rejeita perder controle da Groenlândia para os EUA

Por Igor Gielow/Folhapress em 22/01/2026 às 09:34

Reprodução
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A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, disse nesta quinta-feira (22) que vai negociar a questão da segurança da Groenlândia com os Estados Unidos e a Otan, mas rejeitou qualquer perda de soberania do território autônomo do país nórdico para Donald Trump.

Na véspera, o presidente havia reiterado que não abriria mão do controle sobre a ilha, mas rejeitou o uso da força e, depois de uma conversa com o chefe da aliança militar ocidental, suspendeu as tarifas que havia aplicado a Copenhague e sete aliados europeus que haviam enviado uma pequena força militar à Groenlândia em apoio aos dinamarqueses.

Tudo isso aconteceu em Davos, na Suíça, onde os líderes se encontram no Fórum Econômico Mundial.

“O Reino da Dinamarca deseja continuar engajado em um diálogo construtivo sobre como podemos aumentar a segurança no Ártico, incluindo o Domo Dourado dos EUA, desde que isso seja feito com respeito à nossa integridade territorial”, disse Frederiksen.

Ela se referia ao escudo antimísseis planejado por Trump. Hoje, uma das principais bases americanas de rastreio de ataques nucleares vindos da Rússia e da China fica em Pituffik, na Groenlândia, ilha estratégica por sua posição no Ártico e rica em recursos minerais.

Também em Davos, o secretário-geral da Otan, o holandês Mark Rutte, buscou tirar o bode do controle territorial da ilha da sala. Ele disse que isso não foi discutido na véspera com Trump e que a negociação será entre EUA, Dinamarca e a aliança.

Segundo ele, como aumentar a presença militar na ilha será uma decisão de comandantes do clube de 32 nações, 30 delas europeias incluindo os dinamarqueses. “Não tenho dúvida que podemos fazer isso rapidamente. Certamente eu tenho esperança disso para 2026”, afirmou, ressaltando que a preocupação é defender o Ártico da Rússia e da China.

O tom dos europeus é cautelosamente otimista, dada a incisividade de Trump em seu discurso, apesar do recuo de última hora, uma característica de seu estilo negociador de fazer demandas impossíveis para obter vantagens.

A mais imediata foi, ao suspender as tarifas de importação de 10%, evitar uma retaliação comercial da União Europeia que seria discutida nesta quinta.

Resta aqui saber se é disso que se tratou a sua incendiária campanha, que colocou a Europa contra a parede e levantou dúvidas acerca da integridade da aliança fundada pelos EUA para conter Moscou em 1949.

A iniciativa, na esteira da bem-sucedida operação militar para capturar Nicolás Maduro em Caracas no começo do mês, também serviu para escamotear a escalada de forças no Oriente Médio, que sugerem uma ação futura contra o Irã ou mais pressão sobre a teocracia acossada por protestos.

Seja como for, os europeus mantiveram um otimismo cauteloso. “Apesar de toda a frustração e raiva dos meses recentes, não sejamos muito rápidos em descartar a parceria transatlântica”, afirmou o premiê alemão, Friedrich Merz, em sua fala no fórum nesta quinta.

O foco na questão da segurança já havia sido adotado por Trump em seu discurso. Ele rejeitou interesse nos recursos da ilha, que incluem 66% das reservas de terras raras específicas para a indústria de defesa e alta tecnologia do planeta fora da rival China.

Rutte disse o mesmo nesta quinta, afirmando que o tema não foi debatido no encontro da véspera. Ele reiterou a importância de não perder de vista a questão da Guerra da Ucrânia, o maior conflito em solo europeu desde 1945.

“Segurança no Ártico é uma questão de toda a Otan”, afirmou Frederiksen, que vinha tentando mostrar com os parceiros que seria possível elevar a presença militar na Groenlândia com um exercício montado às pressas.

Os EUA já têm instrumentos para fazer isso, se quiserem. Após ocupar militarmente a ilha após os nazistas tomarem a Dinamarca, para evitar a presença alemã perto de sua costa, os americanos tentaram comprar a Groenlândia em 1946.

Copenhague rejeito a proposta, mas em 1951 assinou um tratado com Washington permitindo a instalação de bases militares e acesso a recursos minerais. Ao longo da Guerra Fria, devido à sua posição na rota de mísseis nucleares e no caminho de submarinos e belonaves soviéticas baseadas no Ártico, havia milhares de soldados e diversas instalações.

Ao longo dos anos, em especial após o colapso do império comunista em 1991, tudo isso foi reduzido. Hoje há apenas Pituffik e um efetivo que varia de 150 a 200 pessoas, operando os vitais radares e satélites de alerta antecipado.

Uma hipótese para satisfazer Trump seria a abertura de mais bases americanas, talvez com apoio de parceiros da Otan. Outra, levantada por negociadores americanos que conversaram na quinta com o New York Times, seria adotar o modelo de Chipre para esses locais.

Na ilha mediterrânea, os britânicos têm bases que são consideradas seus territórios, de forma análoga a embaixadas. Mas isso vai contra ao que Frederiksen disse nesta quinta defender, o que sugere que ainda haverá muita negociação pela frente.

Dona de uma história colonial pouco edificante na ilha, a Dinamarca ainda corre o risco de sofrer críticas do governo local. “A Otan não tem de forma alguma um mandato para negociar qualquer coisa sem nós da Groenlândia”, disse nesta quinta Aaja Chemnitz, membro do Parlamento groenlandês.

Na primeira tentativa de negociar com o governo Trump, a Dinamarca enviou seu chanceler e a homóloga da ilha para Washington, só para ouvir que os EUA não cederiam. Agora, nem Frederiksen, nem Rutte citaram o ilhéus.

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