CULTURA DO CANCELAMENTO – Grandes debates sobre o cancelamento virtual vieram à tona com a estreia do reality show Big Brother Brasil, lançado no mês passado. Nos primeiros dias de programa, o elenco, composto por famosos e anônimos, confessaram sobre o medo de serem “cancelados” e relataram as experiências com ataques e xingamentos constantes. Durante uma roda emocionante, combinaram de “cancelar o cancelamento”, o que não aconteceu nos dias posteriores.


Além de dentro da casa, uns cancelarem aos outros diariamente, a audiência passou a cancelar os participantes.


Mas afinal, o cancelamento é justificável em algum momento?


O cancelamento é histórico


Apesar de grandes discussões sobre o tema estarem sendo realizadas nos últimos dias, o cancelamento acontece há muitos e muitos anos. E, ao contrário do que pensam, não começou para excluir pessoas públicas com falas racistas, homofóbicas e preconceituosas.


O jornalista, pesquisador e psicanalista Maycow Montemor relembrou que em 1831, Arthur Schopenhauer escreveu o livro A Arte de ter razão: 38 Estratagemas para Vencer um Debate Sem Precisar Ter Razão .

“O cancelamento começou a ter visibilidade por conta dos movimentos sociais, porque é um assunto jovem. Mas durante toda a história, tentaram calar pessoas com grande potência em sua voz. No livro, ele ensina como vencer uma discussão, como calar o outro, sem necessariamente estar certo. E mais, diz que não é sobre ter consigo a verdade, mas a audiência”, explicou.


A cultura do cancelamento se popularizou. Hoje, falas e atos de pessoas, geralmente, famosas, são usadas como munição para atacar, excluir e punir. Verdadeiramente, apagar e desqualificar qualquer coisa que tenha feito ou vai fazer. Em um exemplo simples, mesmo com mil atitudes boas e uma errada, a errada sempre contará mais.


O ato pode ser temporário ou permanente. Mas em geral, o público não esquece com facilidade. Vale lembrar, no entanto, sobre os danos psicológicos causados ao “cancelado”.

“O linchamento moral, com perseguições e ameaças até mesmo às pessoas próximas, pode ocasionar uma série de distúrbios, tais como sintomas de pânico, sintomas ansiosos e depressivos e, em casos mais graves, ideações suicidas. Além disso, para ser aceito novamente, precisa provar que mudou, trazendo uma despersonalização por fazer de tudo para ser aceitação na sociedade”, disse a psicóloga Geovana Ortiz.


Montemor divulga os trabalhos na internet e já sofreu na pele a crueldade da cultura por algo que sequer aconteceu, com base em fofoca. Pelo medo de que aconteça novamente e também pelo respeito com o público que o segue, o cuidado com as informações passadas é redobrado.

“Tenho medo de ser cancelado por conta da falta de profundidade quando analisam uma fala. A galera mais nova, principalmente, acaba por fomentar esse cancelamento, muitas vezes, pela não compreensão do que é dito, pela falta de capacidade plena e intelectual do que está sendo dito”, declarou.


Para ele, a angustia ao pensar no cancelamento é um fator muito presente na rotina do influenciador digital. Argumenta que o medo é um controlador da existência, e, apesar de bom em alguns momentos, em outros, causa ansiedade.

“O cancelamento é imaturo. E não imaturo por se tratar de jovens, até porque há muitos adultos tão imaturos quanto adolescentes”, disse.


E esse posicionamento é baseado na sua crença do que significa cancelar o outro. “Cancelar é calar. Essa cultura é uma tentativa de calar o diferente. Então se alguém fala algo que não quero ou não preciso ouvir no momento, ou não é moralmente aceito, tento calar. Mas aí precisamos refletir... É como se eu tivesse visto a pessoa errar e não tentar ensinar o correto, apenas mandar calar a boca”.


O jornalista reforça que isso é uma maneira de assediar e que, se aplicado para a vida real, em um ambiente corporativo, por exemplo, poderia ser lido como assédio moral. “A gente vive de assédio em assédio. E nós criticamos esse tipo de comportamento sem perceber que é isso que fazemos”.


Cancelar o cancelamento


“Já acompanhei de perto o cancelamento das pessoas, mas os meus amigos da internet são muito contra o movimento. Já estive muitas vezes em rodas de pessoas justamente tentando refletir o que tinha acontecido para alguém ter sido cancelado. Faço questão de me relacionar com quem procura entender e ajudar, ao invés de depredar”, contou Montemor.


Para ele, o cancelamento não é e nunca será o melhor caminho, pois a atitude faz com que o cancelador se equipareao cancelado, o que acaba criando uma guerra. “Para cancelar o cancelamento, é necessário ter primeiro educação e conhecimento. Depois, caráter e índole, para que a gente não queira engolir quem não tem esse conhecimento e também compartilhe o saber”, opinou.


Para a psicóloga Geovana, a melhor alternativa para não cancelar alguém é sempre a reflexão. Ela reforça a necessidade de analisar o motivo de querer excluir alguém da sociedade para que não haja banalização. Além disso, destaca que o diálogo é sempre bem-vindo e evita com que o cancelador cometa atos piores do que o cancelado.


“Todos somos passíveis ao erro, mas o cancelamento tira a capacidade de aprender com as falhas e ressignificar as opiniões. Quando o cancelamento envolve situações de violência, racismo ou preconceito, as medidas devem ser tomadas através de denúncias em um canal específico, assim há garantia de que a lei será aplicada. Atacar não é a solução”


Ataques virtuais são criminosos


O digital influencer, geralmente, é o que mais sofre com o cancelamento. O advogado Mateus Catalani Pirani atua com direito digital e esclarece que é necessário entender que que a internet potencializa a voz e permite um alcance enorme. Isso pode causar repercussões muito positivas e ao mesmo tempo, muito negativa, por vezes ilícitas e juridicamente danosas.


De acordo com ele, o ambiente e as relações digitais tornaram-se uma inesgotável fonte de informação, conhecimento e, sobretudo, renda. A renda, de acordo com ele, está ligada a comercialização de produtos e serviços, por conta de uma sistemática de mercado até então desconhecida: curtidas; compartilhamento e visualizações.


“Ao praticar esses três atos, o usuário sabe que o digital influencer está sendo mais bem visto por marcas, o que leva a monetização. Então meio que se cria uma “sensação patronal”, ao invés da lógica de fã. Se isso não for dosado corretamente, pode causar esse fenômeno da cultura do cancelamento e seus acessórios: discurso de ódio, desinformação, fomento à violência etc”.


Pirani pontua que a cultura do cancelamento sempre existiu – só não com esse nome -, para se referir a uma fala predatória, que gera uma onda imediata de boicote e repressão, em que o influenciador deixa de receber a mesma quantidade de curtidas, compartilhamentos e visualizações, ao passo que deixa de monetizar, para ser “punido”.


“As coisas acontecem tão rapidamente que não se tem tempo para empatia, apenas críticas. As pessoas precisam entender que, às vezes, quem reproduziu uma fala errada está tropeçando na própria violência interna, com questões mal resolvidas internamente, e se transborda em ignorância e mais violência. E responder na mesma moeda significa perder completamente a função social e educativa do cancelamento. Não se trata de inocentar ninguém, se trata de permitir que erros aconteçam e repará-los”, disse.


O especialista alerta que em uma perspectiva enorme de evolução social, existe muito racismo, homofobia e várias discriminações estruturais na sociedade. Mas independente de falas repletas de desconhecimento, atacar não é a opção, visto que para esses casos existem órgãos competentes para apurar as intenções de quem reproduziu o discurso.


O advogado explica que por se tratar de figura pública, a responsabilidade ao ocupar um local de fala é ainda maior. Se teve intuito de diminuir alguém, promover ódio e violência, isso será investigado, muito provavelmente, tornará um processo, em que muito se apurará intenções, dolo, se houve retratação eficaz, se ultrapassou a liberdade de expressão. Dentro da dinâmica do devido processo legal, haverá apuração da responsabilidade com uma sentença ao final.


“O Direito Brasileiro não admite autotutela (justiça com as próprias mãos), existem situações muito pontuais, como a legítima defesa – e ainda assim manda-se que seja rigorosamente moderada. Então em um cenário de violência, a pessoa deve sim se responsabilizar civil e penalmente à medida e alcance de seus atos e consequências. Mas a transgressão não legitima o outro a agir da mesma forma. Ou seja, se o influencer receber ameaças, agressão verbal ou física, também pode ser socorrido pelo Direito em busca de manter sua integridade. E existem legislações específicas, como o Marco Civil da Internet, que oferta ferramentas para buscar e identificar autores dos ataques”, enfatizou.


Assim, o linchamento virtual ou ataques volumétricos são cabíveis de processos judiciais. Tudo que se faz na internet deixa rastros e hoje, existem escritórios especializados em produção de prova técnica digital, e apuração, inclusive para identificar quem age em bando ou sozinho.


“Identificar perfil fake acaba sendo outra tarefa complexa, mas felizmente, com alta tecnologia e processamento de metadados, é possível localizar ataques simultâneos, padronizados, da mesma forma como se localiza perfis voltados à disseminação de fakenews. O próprio provedor de aplicação tem dedicado muito esforço para reduzir os usuários falsos, implementando identificações, como a de dois fatores, para cada vez mais garantir que contas digitais sejam atreladas à usuários reais”.


Para Pirani, é a premissa de sabedoria de Pequeno Príncipe: você inevitavelmente se torna responsável por aquilo que fala, produz, posta, enfim, por todo seu comportamento influenciador. Nesse sentido, por certo, que não se deve tolerar racismo, homofobia, misoginia, discriminação alguma ao corpo ou saúde mental. Ao passo que não se combate violência com mais violência.