China bate recordes exportando, mas sofre para fazer os próprios cidadãos gastarem
Por Victoria Damasceno - Folhapress em 14/03/2026 às 13:44
As exportações da China dispararam no início de 2026. O país, já acostumado com altas nesse indicador, registrou crescimento de 21,8% entre janeiro e fevereiro deste ano em comparação com 2025 – quando bateu o recorde histórico. O outro lado desta história é que, embora o regime chinês seja exemplar em transformar o país na fábrica do mundo, ainda não encontrou uma fórmula para fazer os próprios cidadãos gastarem.
O problema impede o país de atingir o objetivo propagado há anos de transformar o consumo em uma engrenagem importante da economia. E, embora longe de ser novidade, segue tomando a cabeça da chefia do Partido Comunista Chinês.
No início deste mês, durante a abertura da reunião anual do Congresso, as Duas Sessões, o primeiro-ministro Li Qiang reconheceu o problema, chamando atenção para o desequilíbrio entre demanda e oferta, além da dificuldade da população de ter emprego e ganhar mais.
“No plano doméstico, a economia permaneceu em meio a uma transformação profunda, problemas estruturais arraigados tornaram-se mais pronunciados, e consumo e investimento careceram de impulso suficiente de crescimento”, disse, referindo-se aos últimos cinco anos.
Mesmo Xi Jinping assumiu o entrave quando foi alçado à chefia do país e do partido. Em 2013, disse que o regime mantinha “clara consciência dos problemas e desafios trazidos pela queda da demanda”. Declarou ainda que a economia chinesa estava passando de “um modelo excessivamente dependente de investimento e exportações para um mais apoiado na demanda doméstica” – algo que ainda não se concretizou.
Segundo relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o consumo na China segue contido, em parte, porque a população guarda dinheiro como precaução.
A questão é vista como um problema estrutural no país, com raízes em diversas frentes, como a política do filho único, o modelo de industrialização, e o declínio da renda em relação ao PIB (Produto Interno Bruto)que foi parcialmente recuperado.
Estudo do FMI (Fundo Monetário Internacional) publicado em 2007 já apontava que a alta taxa de poupança estava no centro do desequilíbrio entre demanda e oferta.
“A poupança elevada e crescente das famílias resultou principalmente das mudanças demográficas induzidas pela política do filho único e do enfraquecimento da rede de proteção social durante a transição de uma economia planejada para uma economia de mercado”, diz o documento.
Apesar do alto investimento do país em seguridade social, com aumento da cobertura previdenciária, do acesso à saúde pública, do crédito ao consumidor e da educação, o que supostamente seria um motor de segurança, as famílias chinesas seguem poupando.
O Banco Mundial afirmou, em junho do ano passado, que o comportamento cauteloso reflete a confiança enfraquecida, em razão do efeito riqueza negativo gerado pela queda dos preços dos imóveis, do crescimento mais lento da renda em relação ao período pré-pandemia e das perspectivas incertas para o emprego.
Steven Alan Barnett, professor na Escola de Negócios da Universidade de Hong Kong e pesquisador do consumo das famílias, afirma que a questão se resume ao crescimento do PIB em relação ao consumo.
Ambos cresceram nas últimas décadas, com o primeiro apresentando alta superior, o que desbalanceou a equação. A forma de corrigir isso, diz o docente, é reduzindo a taxa de poupança, que é mais elevada no país do que em outras economias.
“Um desafio central é elevar de forma duradoura a proporção entre consumo e PIB. Em termos mecânicos, isso significará alcançar um período sustentado em que o consumo das famílias cresça mais rápido do que o PIB”, declara.
Para fazer as famílias gastarem mais, o regime chinês adota uma série de medidas, como subsídios para compras, aposta em gastos sociais, auxílios para a criação de filhos e investimento em serviços para gerar empregos e estimular o consumo, entre outros.
O governo também discute um aperfeiçoamento tributário que poderia modificar as alíquotas cobradas sobre os trabalhadores. O imposto de renda sobre salário e remuneração por serviços varia de 3% a 45%.
“Um corte grande e permanente traria muitos benefícios. Primeiro, elevaria a renda das famílias, o que aumentaria imediatamente o consumo. Além disso, como os impostos sobre a folha são regressivos, o benefício seria maior para os domicílios de baixa renda, justamente os que têm maior propensão a gastar o dinheiro extra”, afirma Barnett.
Para Alicia García Herrero, economista-chefe para Ásia-Pacífico na Natixis, a China não deve conseguir transformar o consumo doméstico em seu principal motor de crescimento. Segundo ela, o país não dispõe do espaço fiscal necessário para sustentar um fomento robusto, enquanto a crise do setor imobiliário mina a confiança das famílias.
Herrero também argumenta que o elevado nível de poupança deve persistir, tanto por razões culturais quanto pela preocupação com saúde e envelhecimento. “Portanto, não espere um avanço maior do consumo. O país não consegue subsidiar o consumo o suficiente.”