Paixão pelo Corinthians ajudou torcedor mirim a superar crises sensoriais
Por Livia Camillo/Folhapress em 02/04/2025 às 10:45

Jorge tem o mesmo nome do padroeiro do Corinthians, está sempre com uma camisa alvinegra e ama futebol. Prestes a completar 4 anos, no próximo dia 16, a criança que aparece sorridente em várias fotos nas cadeiras da Neo Química Arena evoluiu muito desde a primeira visita ao estádio.
O início da relação entre o pequeno corintiano e a fiel torcida foi difícil. Isso porque uma das principais características do Transtorno do Espectro Autista (TEA) é a dificuldade de processar muitos estímulos pela hipersensibilidade sensorial -sejam ruídos, luzes e até cheiros. O intenso barulho e a multidão da Arena desencadeavam as crises sensoriais em Jorge, que é uma criança autista.
“Quando a gente levou o Jorge pela primeira vez em Itaquera, para assistir a um jogo do Corinthians, foi quando a gente percebeu um dos traços mais marcantes do autismo nele. Ele começou a gritar muito por conta da multidão, do barulho. Ele colocava as mãos sobre os ouvidos, começava a gritar e ficava se batendo. Foi muito difícil e desafiadora a primeira vez dele no estádio”, afirma Dayuri Priolean, mãe de Jorge, ativista e bióloga, à reportagem.
Porém, a primeira experiência não frustrou os pais, Dayuri e Victor, que apostaram no estádio como um local para colaborar no desenvolvimento do filho. A empreitada deu certo, e Jorge criou gosto por acompanhar o Corinthians presencialmente. Inclusive, as idas ao estádio se tornaram pedido recorrente.
“A gente continuou levando mais vezes para que ele se acostumasse com o ambiente. Então, nesta quarta-feira (2) em dia ele está bem mais acostumado, tanto que agora brinca [na Arena] e grita ‘gol do Corinthians'”, diz Dayuri.
Outro ponto fundamental para habituar o menino ao clima de estádio foi a sala sensorial para crianças autistas da Arena. O espaço tem visão para o gramado, brinquedos educativos e vidros que ajudam a abafar o som das arquibancadas, além de protetores auriculares disponíveis.
“A Neo Química Arena é referência em acessibilidade. A gente vê que lá já tem a sala sensorial para as pessoas autistas ficarem, até para evitar algum tipo de crise sensorial. Só que o Jorge também é cadeirante, né? Então, às vezes, a gente encontra alguns obstáculos para passar com ele no meio da multidão ou por conta de algum espaço mais estreito. No geral, lá é um espaço bem adaptado, bem acessível”, afirma Dayuri.
“Nasceu Gavião”
Dayuri é torcedora do Santos, casou com Victor, um corintiano, e não esconde que foi voto vencido com a escolha de Jorge pela equipe alvinegra da capital paulista.
“O pai dele fica todo feliz, né? Eu sou santista, só para deixar isso bem claro, mas o Jorge optou por ser corintiano igual ao pai, então eu acompanho quando ele vai para Itaquera, porque sou uma boa mãe, né?”, conta Dayuri, aos risos.
Aliás, os próprios torcedores dizem que o menino já “nasceu gavião”, pela resiliência que apresentou desde a maternidade. Ao nascer, foi constatado que o pequeno alvinegro tinha mielomeningocele, uma malformação na coluna que faz meninges, nervos e medula se projetarem para fora. Após a cirurgia imediata para correção, ele passou 25 dias na UTI Neonatal lutando para viver.
A história de resistência de Jorge inspirou membros da Gaviões da Fiel, que “abraçou” o torcedor mirim em visita recente à sede da agremiação.
“Lá na quadra da Gaviões, ele ganhou a camiseta do Ernesto [Teixeira, puxador da escola de samba]. Aí colocaram ele no colo e saíram gritando: ‘Nasceu gavião! Nasceu gavião!’. Eu achei aquilo maravilhoso”, diz.
“É um espaço que ele gosta muito de ir, e anda pelo chão da quadra inteira. É um espaço onde a gente se sente muito acolhido, percebe que a torcida tem esse carinho com ele também. E isso é uma coisa que mexe muito com a gente, né? Quando a gente é mãe, olha para uma criança de três anos e vê que ela foi incorporada de uma forma tão grandiosa pela torcida, fica muito feliz.”