Nem Milan, nem Europa, Hugo Souza escolhe ser 'maloqueiro e sofredor'
Por Fabio Lázaro - UOL/Folhapress em 11/02/2026 às 11:57
Hugo Souza não fala apenas como jogador do Corinthians, mas como alguém que se reconheceu no clube e passou a enxergá-lo como uma extensão da própria vida.
Em entrevista à reportagem, o goleiro detalhou a identificação profunda com o Corinthians, construída ao longo de um ano e sete meses, e a reconstrução pessoal que culminou em uma verdadeira declaração de amor ao clube.
“Com certeza eu virei corintiano”, ele diz.
CASAMENTO PERFEITO RESULTADO DE UMA PROFECIA
Natural do Rio de Janeiro, Hugo Souza não nasceu torcedor do Corinthians, mas sempre teve simpatia pelo clube alvinegro -algo que, hoje, ele interpreta como um presságio do que estava por vir em sua carreira. Revelado pelo Flamengo, o goleiro admite que, ainda no início da trajetória pelo clube carioca, já verbalizava a possibilidade de um dia defender o Corinthians.
“Eu já falei um dia, um tempo atrás, quando eu estava no Flamengo, que só jogaria no Flamengo e no Corinthians no Brasil. Mas eu falava isso sem nem ter ideia do que aconteceria no futuro. Eu era moleque, ainda estava no Flamengo, tinha sonho de ir para fora, e a carreira teve os seus altos e baixos. Passaram alguns anos e hoje estou aqui, fazendo história. E espero que venha muito mais”, diz Hugo.
Para ele, o encontro com o Corinthians representou um “casamento perfeito”, especialmente pela identificação com o lema que define o torcedor corintiano -algo que ele associa diretamente à própria trajetória de vida.
“A sina do torcedor corintiano foi o que eu vivi a minha vida toda: maloqueiro e sofredor. Ele não tem nada, mas faz de tudo pelo clube. Tira de casa para comprar ingresso, uma passagem para acompanhar o Corinthians, dá o jeito dele para ter. Na minha vida, as coisas também não foram fáceis, e foi onde eu tive que me virar com o que tinha para realizar meu sonho. Meu sonho é como se fosse o Corinthians, e o torcedor como se fosse eu. A gente entrega tudo por aquilo ali. Eu entreguei tudo pelo meu sonho, assim como o torcedor entrega tudo pelo Corinthians. Isso foi uma das coisas que fez me identificar tão rápido com essa torcida”, afirma Hugo.
Segundo ele, a forma como é visto e tratado no Corinthians é determinante para que essa relação seja fortalecida diariamente.
“A forma que você é olhado por alguém diz muito sobre como você se sente. Não é a opinião dos outros que me define. Aprendi a lidar com a opinião contrária, seja boa ou ruim. Não é porque eu recebi elogio que sou o melhor do mundo, nem porque recebi crítica que sou o pior. Continuo sendo o Hugo, independentemente do erro, do acerto, da falha ou do pênalti defendido. Independentemente de título ou não, continuo sendo o Hugo. Aprendi isso. É bom estar em um ambiente onde as pessoas te olham e te respeitam pelo que você é. Isso é algo que faz me apaixonar todos os dias pelo que vivo nesse clube. Sinto que as pessoas olham para mim com respeito”, relata Hugo
LOCAL DE RENASCIMENTO
A chegada ao Corinthians aconteceu em um momento decisivo da carreira de Hugo Souza, após uma temporada na Europa defendendo o modesto Chaves, de Portugal. Antes disso, o goleiro viveu uma ascensão meteórica no Flamengo, em 2020, seguida por uma queda brusca de rendimento, que resultou na perda de espaço.
À reportagem, Hugo admitiu que o impacto das facilidades encontradas no início da carreira contribuiu para que ele perdesse o foco dentro de campo.
“Deslumbra, claro, porque eu não tinha nada. Tinha que deixar de comer no almoço para comer na janta. Vivia uma vida difícil. Tinha dias que não tinha arroz, mas tinha ovo; em outros não tinha ovo, mas tinha arroz. Tinha dia que não tinha nada, mas Deus dava um jeito e provia. E, de um dia para o outro, você passa a ter as coisas. Isso mexe com a sua cabeça. Você vê que tem tudo, pode fazer tudo, tem facilidade para tudo, e aí foi o erro: não saber dar limite a essas coisas. Isso fez com que a minha prioridade não fosse ser o melhor dentro do campo”, conta o jogador.
Apesar de ter realizado o sonho de atuar no futebol europeu, a experiência foi bem diferente da idealizada. Em um clube de menor expressão, Hugo encarou a passagem por Portugal como um período de sobrevivência e aprendizado, inclusive mental.
“Fiquei uma temporada em Portugal, mas é muito diferente. Quando se fala de futebol europeu, você pensa nos grandes times, no luxo, em Champions League. Eu jogo em um dos maiores clubes do mundo, mesmo não estando lá fora. Fui de um extremo muito grande para um bem menor. Estrutura, dia a dia, tudo muda. São dois, três passos para trás para tentar dar um para frente. Se você não se adapta, não consegue voltar. Foi um período de aprendizado, principalmente mental. Quase pifei. Não pensei em largar, mas achei que seria muito difícil retomar a carreira, voltar para um time grande, disputar títulos. Mas Deus foi muito bom comigo. Tudo o que vivi lá me ensinou bastante”, compartilha o goleiro.
PROPOSTA DO MILAN E FOCO NO CORINTHIANS
O renascimento no Corinthians recolocou Hugo Souza no radar do futebol europeu. No fim da última temporada, o goleiro recusou uma proposta do Milan, decisão que, segundo ele, foi tomada com convicção.
“Mexe, porque você vê que seu trabalho está indo para um bom caminho, que atrai o olhar de grandes clubes como o Milan. Um clube que a gente cresceu assistindo, onde ídolos como Ronaldinho, Kaká e Ronaldo jogaram. Mas estou focado no Corinthians. Amo meu dia a dia aqui, a forma como eu vivo esse clube, as pessoas. Vou trabalhar feliz, vou para casa feliz”, ele diz.
ENTRE CONSELHOS E PORRADAS
Figura experiente no elenco, Hugo Souza costuma aconselhar os jogadores mais jovens, inclusive em questões fora de campo.
“A gente dá um toque, fala algo, até em questão que a gente tem que se meter, a gente se mete. Ganhou uma premiação, a gente pergunta o que vai fazer com o dinheiro. ‘Vou comprar um carro?’ Calma, não. Segura a onda, dá uma moral para sua mãe, compra um apartamento. Passei por muita coisa lá atrás. Posso passar o que vivi para eles não fazerem igual ao que eu fazia antes”, diz Hugo.
Com bom humor, o goleiro também contou que não deixa passar algumas situações do dia a dia. A ausência de três jovens atletas -André, Dieguinho e Gui Negão- na comemoração de seu aniversário rendeu até ameaça de “castigo”.
“Eu dei bronca. Fiz aniversário, foi o time inteiro, só não foram o Gui Negão, o Dieguinho e o André. Falei: ‘vocês têm uma semana para dar um presente, senão vão apanhar’. E eu bato mesmo. Eles trouxeram presente, vou diminuir a pancada”, brinca o goleiro.
SELEÇÃO E COPA DO MUNDO
Convocado com regularidade pelo técnico Carlo Ancelotti, Hugo Souza tem recebido elogios do treinador italiano, que já revelou a intenção de levar à Copa do Mundo um goleiro especialista em pênaltis — característica associada ao corintiano. O goleiro trata o assunto com naturalidade e gratidão.
“Estamos aí. Se precisar, vamos embora. Seja para pegar pênalti, ajudar no treino, pegar água, jogar truco, qualquer coisa. É um privilégio estar lá”, afirma Hugo.
No Corinthians, Hugo Souza encontrou mais do que um clube para defender: achou um ambiente de pertencimento, respeito e reconstrução. Entre erros, aprendizados e escolhas, o goleiro transformou uma trajetória marcada por altos e baixos em uma história de identificação profunda, que vai além das quatro linhas. Para ele, o Corinthians não é apenas o presente da carreira, mas parte de quem ele se tornou.