"Há uma grande necessidade de se reinventar", Marcelo Teixeira, presidente do Conselho do Santos

Por #Santaportal em 24/04/2020 às 10:15

SANTOS FC – Marcelo Teixeira, presidente do Conselho Deliberativo do Santos, concedeu entrevista ao site Mercado do Futebol falando sobre o passado, o presente e o futuro do Santos Futebol Clube, destacando suas gestões vitoriosas à frente do clube (1992-1993 e 2000-2009).

Também presidente do Sistema Santa Cecília de Comunicação, Marcelo Teixeira falou sobre a precocidade em sua vida para assumir desafios. “Em minha vida, todas as atividades profissionais foram precoces, trabalho desde os 8 anos de idade, com uma trajetória muito intensa. Considero como ideal a união de gerações, pois acredito que seja preponderante a maturidade para exercer as mais diversas funções. Identifico-me com a impetuosidade da juventude, admiro os que estudam e aperfeiçoam seus conhecimentos, assim como aqueles que vão à luta para ocupar seus espaços na sociedade. É extremamente legítima a forma ríspida com que se posicionam, até os inúmeros questionamentos, pois isso demonstra as suas vitalidades e personalidades”, afirma.

Marcelo Teixeira lembrou, inclusive, das palavras de Milton Teixeira, seu pai e que também presidiu o clube, a respeito da experiência. “Meu saudoso pai me dizia: ?Marcelo, os mais velhos devem ser respeitados por seus feitos, você é jovem, tem muita vontade, mas eles têm o que só o tempo lhe dará, a experiência vivida?. Procurei sempre reconhecer o passado. Em várias oportunidades, prestei homenagens aos alvinegros que não estavam esquecidos, mas que jamais poderiam ser apagados de nossa história, nominando dependências inauguradas de novas instalações do Clube, reconhecendo e respeitando aqueles que tanto lutaram desde a fundação da agremiação. É preponderante implantar uma filosofia profissional em todos os setores do clube, com planejamento de seus respectivos gestores, independente de suas idades, é também indispensável que cada qual tenha o seu perfil, atribuindo responsabilidades e metas em suas áreas, para, assim, alcançar os objetivos de acordo com o anseio do quadro associativo alvinegro. Na década de 2000 foi assim, por isso o reconhecimento do sucesso no modelo de gestão conforme as suas próprias citações na pergunta acima, pelas conquistas dentro de campo e os significativos avanços fora das quatro linhas.

Marcelo Teixeira também comentou a respeito das melhoras patrimoniais do clube conseguidas quando foi presidente do Alvinegro. “Tenho orgulho de ter conquistado a área do CT em 1992, anteriormente utilizado pela prefeitura como Conjunto Esportivo Chico Guimarães, no bairro do Jabaquara, de ter feito os maiores investimentos a partir de 2000, sendo referência no País. Fizemos importantes ampliações em uma época em que os clubes não valorizavam os trabalhos fora de campo, tampouco os departamentos específicos de apoio às Comissões Técnicas. Lembro-me, por exemplo, da lista de centenas de atletas brasileiros que solicitavam tratamentos em nosso CEPRAF, vindos de todas as partes do mundo. Os atletas queriam defender o Santos por sua invejável infraestrutura”.

A evolução dos equipamentos para essa estrutura também foi ressaltada por Marcelo Teixeira, assim como as mudanças na Vila Belmiro feitas ao longo de seu período à frente dos destinos do clube. Ele também se mostra favorável a novas alterações, dependendo do projeto e das garantias ao Santos.

“Assumimos o clube com os atletas utilizando vestiários em contêineres e edificamos o maior e mais moderno complexo futebolístico do Brasil. Vale lembrar que a seleção do México o escolheu para preparação e treinamentos para a Copa de 2014, como a sua casa no Brasil. Investimentos também foram feitos, como você enalteceu na pergunta. Criamos o CT Meninos da Vila na entrada da cidade de Santos, um terreno abandonado, com mato alto e muita areia, resolvendo o grave problema da falta de campos para treinamentos das categorias de Base e do Futebol Feminino. Recuperamos a Vila Belmiro em todos os setores internos e externos para oferecer maior beleza e conforto ao torcedor, independente de sua classe social, toda a fachada externa do estádio, instalamos moderno placar eletrônico, reformamos e ampliamos o Ginásio de Esportes Athié Jorge Coury para atividades esportivas, reativamos o Salão de Mármore Vasco José Faé para eventos sociais. Não posso esquecer o nosso lindo Memorial das Conquistas ?Milton Teixeira?, um dos equipamentos turísticos mais visitados do Estado de São Paulo”, explica. “Mesmo com as reformas, a Vila Belmiro serviu de alçapão, um enorme desafio aos adversários. Tivemos, entre 2000 e 2009, grande presença de público, foram as melhores médias em jogos do masculino e feminino. A Vila Belmiro é uma importante fonte de receita. Para o estádio ter sua lotação completa, as administrações devem promover ações, incentivar o ingresso no quadro associativo e manter equipes fortes e identificadas com o torcedor.

O presidente do Conselho Deliberativo do Peixe também falou sobre o motivo de importantes marcas que escolheram a camisa do clube ao longo de suas gestões. “Credibilidade e transparência na gestão, ídolos em campo e títulos na galeria do Memorial, sempre com responsabilidade para não ser imediatista e gastar o que o clube não consiga suportar. Basicamente, estes tópicos nos fizeram selar parcerias unindo fortes marcas durante as temporadas. Contamos com uma dedicada equipe de profissionais que prospectava muito bem no mercado, recordo de parceiros como a Bombril e a Copagaz, fundamentais para o crescimento do futebol masculino e feminino”.

Grupo
Marcelo Teixeira revelou que se propõe a criar um grupo de santistas das mais diversas cidades do País que queiram contribuir na construção de um projeto para reinventar o Santos para os próximos anos. “Independentemente daqueles que venham a presidir ou ocupar cargos diretivos, porque o mais importante será o engajamento das pessoas para a consolidação de um amplo projeto para essa nova década”, completa. “Nunca me omiti, também não deixarei de ajudar pela história de minha família com a entidade, independente dos homens que nela estejam, porque eles passarão, e o Santos FC permanecerá! Depois de minha família, o Complexo Santa Cecília e o Santos, são os amores na minha vida”, emenda.

As eleições presidenciais no clube estão previstas para dezembro deste ano e Marcelo Teixeira aproveitou para recordar como concorreu ao cargo do comando do Conselho. “Considero ter contribuído muito para o engrandecimento do Santos Futebol Clube. Atualmente ocupo o honroso cargo de presidente do Conselho Deliberativo e confesso que a minha candidatura para exercer essa digna função não foi por pretensão própria. Em minha sala, no Complexo Santa Cecília, tinham aproximadamente 60 alvinegros e tentávamos convencer conselheiros para disputar a eleição para a Mesa do Conselho. Apesar dos inúmeros telefonemas e contatos, ninguém queria se arriscar para apresentar uma chapa oposicionista, já que o grupo vencedor para dirigir o Clube tinha escolhido os seus nomes, supostamente possuíam o maior número de conselheiros eleitos pelas chapas. Nunca, em toda a história alvinegra, uma chapa oposicionista venceu a eleição no Conselho Deliberativo contra os nomes indicados pelo grupo da situação. Faltava menos de uma hora para o fim do registro das chapas, um dos presentes começou a puxar o hino do Santos, em sequência os demais também cantaram, e som ecoava para as pessoas que passavam pelas ruas, foi de arrepiar! Quando percebi, colocaram um papel em minha mesa e me deram uma caneta nas mãos, exigindo que assumisse mais aquele compromisso para ser opção na votação em plenário, já que a tendência era ser chapa única. Olhei para o meu filho, Marcelinho Teixeira e, ao vê-lo balançar a cabeça de forma positiva, percebi, no brilho dos seus olhos, que era um novo chamado para eu servir ao Clube. Aceitei esse desafio, não por mim, mas pela causa, pelos meus pares que clamaram por aquela decisão. Quando se assumem compromissos públicos, já não há mais controle sobre as próprias vontades”, recorda.

Marcelo Teixeira falou sobre o atual momento político do Santos. “Os debates já deixaram de ser ideológicos, passaram a ser pessoais, semelhantes ao cenário político no Brasil. Não consigo compreender como pessoas que têm bons propósitos pelo mesmo Clube possam ter sentimentos tão diferentes, alguns fomentando a discórdia e o rancor. A maioria dos associados já perceberam esse ambiente e irão avaliar o perfil dessas pessoas nos próximos processos eleitorais. Ou caminhamos para uma grande coalizão de alvinegros bem intencionados, sem vaidades, ou a tendência é piorar. Divergências são normais, desde que as críticas sejam construtivas e discutidas nos momentos e nos locais apropriados”, explica.

O atual presidente do Conselho Deliberativo santista recomendou que o investimento na base é a chave para amenizar os problemas financeiros. “O que me preocupa bastante é a falta de foco nesse setor, apesar dos esforços dos dirigentes das últimas gestões. A arrecadação dos clubes tem crescido, gradativamente, porém as dívidas também aumentam, às vezes, em proporções até maiores na maioria dos clubes brasileiros, com raras exceções. O futebol vem mudando, criando alternativas de novas receitas, o Santos precisa acompanhar para não ficar para trás de seus adversários. Devemos sempre ser protagonistas, e não apenas figurantes. Ao final de 2009, recusamos todas as propostas de clubes do Brasil e principalmente do exterior direcionadas aos nossos principais jogadores. Se concretizássemos naquele momento, o Clube ficaria com um caixa positivo, talvez nunca visto antes. Entretanto, o nosso idealismo e amor pelo Clube foram mais fortes. Eu não poderia interromper a continuidade de uma geração, que criamos e plantamos desde 2004, apenas por uma questão pessoal de ter deixado o Clube com muito dinheiro em caixa”.

Marcelo Teixeira, inclusive, lembra o legado deixado em dezembro de 2009, após 10 anos de mandato: títulos, contas equilibradas, grandes jogadores e que a gestão seguinte deu sequência, conquistando o Campeonato Paulista, a Copa do Brasil, assim como o tricampeonato da Libertadores, dando o direito de disputar o Mundial de Clubes, mas perdendo na final para o Barcelona, no Japão. “O maior legado foi a filosofia no Departamento de Base, somada à permanência no plantel e aos investimentos no patrimônio, sem sombra de dúvida, as gerações que se tornaram ídolos, como Robinho, Diego, Neymar, Ganso e diversos outros jogadores que brilharam no cenário futebolístico nacional e internacional, renderam títulos, aumento de nossa torcida e recursos financeiros. Até hoje, pela Lei de Solidariedade, valores financeiros significativos entram nos cofres do Clube, mesmo com esses atletas em outros clubes. Gabigol e Rodrygo foram as últimas vendas de atletas formados ainda na nossa gestão”, afirma. “Mesmo com o sucesso de gerações, são muito preocupantes os atuais números do Balanço Patrimonial, há a necessidade de implantar uma nova filosofia para o aumento das receitas e controle das despesas, ainda mais depois desta pandemia”, emenda.

REINVENÇÃO
A propósito, Marcelo Teixeira ratificou a grande necessidade de reinvenção do clube nestes tempos de coronavírus, o que vale para qualquer outra agremiação. “Há uma grande necessidade de se reinventar neste momento, avaliar conceitos, pois, sendo uma crise mundial, todos os clubes sentirão grandes dificuldades. Em janeiro de 2000, quando assumimos o Clube, me recordo bem, contávamos com apenas 14 jogadores no plantel de profissionais. Não tínhamos número mínimo de atletas nem para disputar um coletivo, mas nem por isso ficamos lamentando ou olhando pelo retrovisor, montamos um grupo e, em menos de quatro meses, fomos disputar a final do Campeonato Paulista, que não ocorria há 16 anos”, recoda. “Em 2002, novo desafio, ficamos 4 meses sem atividades esportivas, com a desclassificação precoce do Torneio Rio São Paulo e pela realização da Copa do Mundo. Esse momento exigiu criatividade, eficiência e sacrifício próprio de minha família e de nosso grupo, com medidas e ações para honrar os compromissos do Clube, mantendo as expectativas do quadro associativo. Não basta lamentar, é uma dura realidade, deve ser enfrentada com coragem e com decisões certas e justas”, emenda.

O atual presidente do Conselho Deliberativo do Santos também falou de como é a melhor forma de se manter equilíbrio financeiro e legado histórico no clube, projetando o futuro, em especial a partir do pleito de dezembro. “Já se vão 16 anos sem um título brasileiro. Fomos e sempre seremos o maior clube de futebol do Brasil e um dos mais conhecidos do mundo. Espero da próxima gestão, acima de tudo, um grupo comprometido, experiente, bem intencionado, que tenha uma administração com decisões colegiadas, que interaja de forma harmônica e respeite os poderes e o estatuto do Clube. Ter como referência o sucesso como um bom administrador de seus negócios, ser bem-sucedido em sua área profissional não significa que o dirigente conseguirá o mesmo em um clube de futebol. Já vimos muitos PhDs em seus setores terem diversas dificuldades e não conseguirem alcançar seus objetivos nas agremiações esportivas. Não se pode depender do histórico de pessoas, os currículos servem como parâmetros, mas o trabalho deve ser compartilhado e exigir responsabilidades de todos os membros da diretoria e dos seus profissionais”, explica. “Sou otimista, confio na marca e no potencial do Santos FC. Com um projeto a médio e longo prazos, objetivos a ser alcançados, o clube pode reverter este quadro, tenho essa expectativa e esperança. Essas definições caberão aos postulantes e ao quadro associativo”, finaliza.

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