Monitor cívico-militar pode receber até R$ 1.000 a mais que professor; Baixada tem três escolas

Por Lucas Almeida/Folhapress em 05/02/2026 às 05:00

Reprodução/Flávio Florido Educação SP
Reprodução/Flávio Florido Educação SP

Com três unidades na Baixada Santista, policiais militares que atuam como monitores de escolas cívico-militares podem receber, em um mês padrão, mais do que um professor da rede estadual. A diferença chega a cerca de R$ 1.000, a depender do número de dias trabalhados. Esta semana, a função foi notícia após um monitor em Caçapava (SP) escrever “descançar” e “continêcia” na lousa durante uma aula.

O pagamento do monitor é feito por diária. O edital de contratação mais recente da Secretaria da Educação de São Paulo, publicado em junho de 2025, prevê R$ 301,70 por jornada diária de oito horas para policiais militares da reserva que atuam como monitores em escolas cívico-militares.

Em um mês com 21 dias de trabalho, o valor mensal ultrapassa R$ 6.300. Considerando 21 diárias completas, o total chega a R$ 6.335,70, sem contar eventual acréscimo de 10% previsto para monitores-chefes, conforme o mesmo edital.

O valor supera o salário inicial de professores da rede estadual. Em 2026, o piso nacional do magistério para 40 horas semanais gira em torno de R$ 5.100, enquanto o vencimento inicial da nova carreira docente paulista fica pouco acima desse patamar, cerca de R$ 5.300.

O sistema de ensino cívico-militar iniciou na segunda-feira (2) em três unidades da Baixada Santista e em outras 97 escolas do estado de São Paulo. As unidades na região estão em Bertioga, a Escola Archimedes Bava, no bairro Jardim Santa Tereza em Cubatão, a escola Lincoln Feliciano, na Vila Nova e, em Itanhaém, a escola Dagoberto Nogueira da Fonseca, no Suarão.

Regime de contratação é diferente

Os regimes de contratação para monitores e professores, porém, são diferentes. O monitor atua por prestação de tarefa e por tempo determinado, com contratos temporários e sem vínculo de carreira, enquanto o professor ingressa por concurso público e tem estabilidade após o estágio probatório.

O pagamento do monitor não inclui benefícios adicionais. Segundo o edital, a diária não tem caráter indenizatório, sofre incidência de Imposto de Renda e não dá direito a auxílios como alimentação, ajuda de custo ou adicionais previstos para servidores ativos.

A atuação também não é considerada função docente. Os monitores não exercem atividades pedagógicas e não se enquadram no magistério, o que significa que o piso nacional dos professores não se aplica a esse cargo.

No curto prazo, o ganho mensal pode ser maior para o monitor -no longo prazo, porém, a lógica se inverte. A soma das diárias faz com que o valor mensal supere o salário inicial de professores em início de carreira. A progressão salarial, os adicionais por tempo de serviço e a estabilidade tendem a tornar a carreira docente financeiramente mais vantajosa ao longo dos anos.

PM monitor de escola cívico-militar escreve ‘descançar’ e ‘continência’

O monitor de uma escola cívico-militar em Caçapava (SP) escreveu “descançar” e “continêcia” na lousa durante a aula inaugural na unidade. Enquanto ele escrevia, outro monitor ensinava aos alunos como prestar continência. Os funcionários são policiais militares reformados. A cena foi gravada pela TV Vanguarda, afiliada da Globo no Vale do Paraíba.

As imagens mostram que, após ele escrever na lousa, uma mulher que estava na sala de aula o chamou. Ele volta ao quadro e corrige a primeira palavra para “descansar”. Ela o alerta novamente e ele ajusta a última para “continência”.

Procurado, o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) disse que os monitores serão avaliados semestralmente. O desempenho dos policiais militares será analisado, segundo o estado, para verificar “adaptação e permanência em cada unidade escolar”. A Secretaria de Educação disse ainda que os PMs reformados têm recebido orientações sobre as atividades. “Todo o conteúdo pedagógico é elaborado e aplicado pelos docentes da escola”, diz a pasta em nota enviada à reportagem.

As unidades do modelo foram anunciadas após voto da comunidade escolar. De acordo com o governo paulista, os militares são responsáveis por dar apoio no dia a dia escolar e nas atividades ligadas a disciplina, respeito e civismo -eles também vão ofertar uma disciplina no contraturno. O conteúdo pedagógico continua com a direção escolar tradicional.

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