Cubatão homenageia famílias vitimadas no incêndio da Vila Socó em ato ecumênico
Por Santa Portal em 26/02/2025 às 06:00
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O segundo mês do ano 1984 está registrado nas páginas da história da cidade de Cubatão de forma inimaginável, com cenas que ainda estão gravadas nas mentes de quem escapou ou testemunhou a virada da noite de 24 para o dia 25 de fevereiro, o que gerou repercussão gigantesca no Brasil e no mundo inteiro, quando 93 pessoas foram vitimadas pelo incêndio que atingiu a Vila Socó.
E lá se vão 41 anos do lamentável episódio. Como forma de não deixar cair no esquecimento, a Prefeitura de Cubatão e a ‘Comissão da Verdade’ da OAB da cidade realizaram nesta terça-feira (25), na Vila São José, um ato ecumênico em homenagens às famílias atingidas pelo incidente. Na oportunidade, também foi descerrada uma nova placa com os nomes das vítimas, uma maneira de resgatar a lembrança dessas pessoas.
O evento contou com presença de autoridades políticas e religiosas, estas envolvendo as igrejas católica e evangélica, além de lideranças comunitárias e do movimento artístico ‘Coletivo 302.
“Estamos aqui para expressar que este triste episódio da nossa história nunca seja esquecido. Relembrar o passado serve para reforçar o presente para que no futuro não ocorram fatos assim. Sobre esse assunto e tendo como parâmetro a Agenda 2030 da ONU, temos que focar um novo horizonte para que Cubatão continue sendo cidade símbolo de recuperação ambiental” disse a vice-prefeita Andrea Castro, que no ato representou o prefeito César Nascimento.
Andrea, que também é secretaria de Habitação, reforçou a importância do evento como uma forma de respeito às famílias das vítimas, servindo ainda como um resgate da história para que sirva de termômetro para que todos reflitam.
Discernir entre a história e a realidade incompleta dos fatos
O presidente de OAB – Cubatão André Simões Louro, representando também a Comissão da Verdade (constituída em 2014), relembrou o trabalho social e jurídico dos membros instituição e da Comissão, afirmando que a luta em busca de elementos que possam comprovar a quantidade real de pessoas vitimadas pelo trágico episódio ainda continua.
“Lembrar é sempre importante, mas precisamos entender a história que é contada e o que aconteceu de fato. Nós devemos isso às vítimas ainda não contabilizadas, que não entraram nos números oficiais até agora. Elas tinham uma certidão de nascimento, elas existiram. É isso que precisamos descobrir: quantas mais foram e quem eram elas. Quem sabe um dia ainda descobriremos a realidade dos fatos. Por isso, o nosso trabalho e nossa luta não podem parar”, disse o advogado.
O pastor Vitor Roberto, da Igreja Assembleia de Deus, foi enfático e direto ao dizer que “se uma alma vale mais que o mundo inteiro, como diz a Bíblia, então, pode-se dizer que aqui se perderam vários mundos. Isso significa que não podemos mais perder vidas dessa forma. Fica a reflexão para as empresas, poder público e todo nós”, recomendou o pastor.
Já o padre Oscar Vasconcelos, representando o padre Enoque da Igreja São Francisco, seguindo a linha de reflexão cristã, leu alguns versículos bíblicos que versaram sobre o enfrentamento às dificuldades e às dores por que passam os seres humanos, principalmente quando advém de momentos tão indesejados e trágicos como os da Vila Socó.
O secretário de Comunicação Claudio Barazal, a diretora de eventos da Sociedade de Melhoramento da Vila São José, a pastora Clara Henrique, e o vereador Ronaldo da Comissão, que representou o poder Legislativo cubatense, também deixaram suas mensagens no evento, que foi ainda prestigiado pelos secretários Elmo Ferreira (Manutenção Urbana e Serviços Públicos), Fabrício Lopes (Indústria, Porto, Emprego e Empreendedorismo), Renata Almeida (Gabinete do Prefeito), Omar Bermedo (Cultura), Ricardo Alcaraz (Comandante da GCM), entre outras autoridades.
Breve histórico do Incêndio da Vila Socó
O incêndio teve início na noite do dia 24 de fevereiro, invadindo a madrugada e o todo o dia 25 de fevereiro do ano de 1984, quando houve vazamento de gasolina sobre o mangue na favela da Vila Socó, núcleo habitacional entre a via Anchieta (do KM 56 ao 59) e Av. Tancredo Neves.
O histórico e repercussão dessa tragédia deixaram ensinamentos absorvidos pela Municipalidade sobre o acontecimento, referindo-se, em especial, à proteção da vida humana e à preservação do meio ambiente, uma vez que as medidas tomadas após o incêndio entrelaçam-se com as ações assumidas em prol da recuperação ambiental do município que culminou no reconhecimento mundial de Cubatão como Cidade Símbolo de Recuperação Ambiental, em evento da Conferência das Nações Unidas (ONU) pelo meio ambiente, que ocorreu no Rio de Janeiro, em 1992, a chamada Eco -92.
Cabe ressaltar que a responsabilidade pelo desenvolvimento econômico e progresso industrial, feito em harmonia com o meio ambiente e protegendo a comunidade, ficou compartilhada pelo poder público e indústrias em geral.
Após o incidente, toda a área da Vila Socó, posteriormente denominada Vila São José, foi aterrada, culminando no consequente aterro da tubulação, além de controle rigoroso da tubulação por meio de sofisticados equipamentos que monitoram a pressão e a resistência dos tubos de maneira diária, incluindo as condições climáticas, além da ampla sinalização da área.
Segundo especialistas, a tragédia foi um marco para a área de emergência na época. De acordo com a Secretaria Municipal de Segurança Pública e Cidadania (SSPC), a partir do incidente, foram intensificados sistemas de apoio para respostas mais rápidas e eficientes envolvendo todas as indústrias do Parque Industrial.
Embora existisse desde 1978, só passou a funcionar efetivamente na década de 80, tornando-se referência regional, e mantem um sistema de combate a acidentes de qualquer natureza que possam colocar em risco vidas, meio ambiente, patrimônio público ou privado no Polo e na Baixada Santista.
Outra medida relevante foi Plano de Contingência envolvendo todas as secretarias da Prefeitura de Cubatão no sentido de prepará-las para responder eventuais emergências do tipo. Sobreviventes da tragédia da Vila Socó foram indenizados e passaram a habitar o local que foi totalmente urbanizado, recebendo escola, creche, posto de saúde, infraestrutura urbana e calçamento.
Atualidade
A partir de 2017, o bairro passou por processo de regularização fundiária e, de 2019 em diante, 400 famílias iniciaram o processo de recebimento das escrituras definitivas de seus imóveis, tornando-se oficialmente proprietárias do terreno. Conforme o Censo do IBGE de 2010, a Vila São José possui cerca de 5 mil moradores.
No entanto, segundo levantamento socioeconômico realizado pela Prefeitura e divulgado em outubro de 2021, o bairro contém 3.826 unidades, ocupadas por 3.613 famílias, que correspondem a 9.037 moradores. O estudo apontou ainda dos 2.027 pets, sendo 919 gatos e 1.008 cachorros.