Unidos da Zona Noroeste denuncia a falsa liberdade e faz manifesto antirracista na avenida
Por Rodrigo Cirilo em 07/02/2026 às 23:39
A Unidos da Zona Noroeste levou à Passarela do Samba Dráuzio da Cruz um dos enredos mais fortes e politicamente contundentes do Santos Carnaval 2026. Com Falsa Abolição – Somos os Netos dos Negros que Vocês Não Conseguiram Matar , a escola do Grupo de Acesso apresentou um desfile-manifesto contra o racismo estrutural e a ilusão de liberdade proclamada após 1888.
A abertura foi direta. A comissão de frente, intitulada “Pele Alvo, Não”, assumiu o papel de denúncia inaugural ao expor a permanência da violência e da vigilância sobre os corpos negros no pós-abolição. Gestos que evidenciavam o corpo como alvo, máscaras brancas e figurinos dourados ressaltaram a contradição entre o discurso de progresso e a continuidade da opressão.
Frases como “somos continuidade”, “ecoamos liberdade”, “o passado não acabou” e “ainda resistimos” surgiram na avenida sob os braços dos 12 integrantes da comissão. O ponto alto veio quando uma das bailarinas, erguida pelos colegas, retirou a máscara durante o trecho do samba-enredo “Um sorriso… um abraço negro” , arrancando aplausos do público.

O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Academia do Samba levou à avenida o punho cerrado, símbolo histórico da luta antirracista. Apesar da beleza da fantasia, a porta-bandeira Thais Helena enfrentou um imprevisto logo na entrada.
O talabarte que sustenta o pavilhão quebrou e precisou ser improvisado com o auxílio de fita. “Se não tiver imprevisto, não é Carnaval. Isso deixa tudo mais emocionante, porque quando a gente chega na dispersão dá aquela sensação de superação, de que no final deu tudo certo”, afirmou Thais Helena.
O mestre-sala Lincoln Orfei explicou que o problema foi resolvido graças à união do grupo. “Antes de entrar na avenida, o talabarte quebrou e a gente precisou usar o da segunda porta-bandeira. Agradeço a diretoria pela confiança e peço desculpa à segunda porta-bandeira, porque acabamos prejudicando ela de certa forma. A Unidos tem cinco casais, algo raro na Baixada, e isso mostra muito o nosso sentimento de comunidade”.

O abre-alas ressignificou a travessia atlântica ao apresentar um navio-palácio sustentado pelas raízes do baobá, árvore sagrada que simboliza vida e ancestralidade. No centro, a Rainha-Mãe representou a ancestralidade imortal, enquanto livros e raízes reforçaram a ideia de que direitos e educação não foram concessões, mas conquistas arrancadas pela luta.
A segunda parte do desfile mergulhou nas consequências da falsa liberdade. Alas como “Liberdade de Mentira” e “Sobrevivendo ao Trabalho” denunciaram o deslocamento forçado e a exclusão do mercado formal. O quilombo apareceu como território de proteção coletiva diante do abandono imposto no pós-abolição.
A bateria Ritmo Perfeito, comandada pelo mestre Mutchacho, representou reis africanos escravizados. Logo atrás, as passistas simbolizaram guerreiras que ocupam e protegem o território, abrindo caminho para os três casais mirins, que emocionaram o público ao reafirmar, com gingado e firmeza, a continuidade da luta entre gerações.

Mãe de um dos mestres-sala mirins, Juliyana Tadeu falou sobre a trajetória de Mateo, de 7 anos, e Jasmine, de 8. “Os dois já participam de projetos sociais ligados ao Carnaval. Este ano foram convidados para representar o futuro da comunidade. É um legado que vem de família, algo que eles gostam e que está tendo continuidade”.
No terceiro setor, a escola apresentou conquistas e novos sentidos de liberdade. A ala em homenagem a Quintino de Lacerda, primeiro vereador negro de Santos, destacou a organização política como ferramenta de reparação histórica.

As baianas, retratadas como Mães de Maio, transformaram o luto pela violência de Estado em denúncia, enquanto alas sobre moradia e formação acadêmica afirmaram direitos historicamente negados como conquistas do povo negro.
O segundo carro alegórico, “Da Memória ao Levante”, reuniu símbolos que reforçaram a ideia de que olhar para o passado é condição para avançar. A Igreja do Rosário dos Homens Pretos, as abayomis, os tambores e o galo negro, símbolo da escola, compuseram a alegoria.
O encerramento teve a ala das Matriarcas, inspirada na Marcha das Mulheres Negras, símbolo do protagonismo feminino negro. A capoeira surgiu como ponte entre passado e presente, preparando o terreno para o segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira, que fechou o desfile representando os orixás Xangô e Iansã.

Resistência é a chave da Unidos da Zona Noroeste?
A Unidos da Zona Noroeste deixou claro que sim. Campeã do Grupo de Acesso em 2023 com o enredo Meu Galo pede respeito e diz não à intolerância e ao preconceito , a escola reafirma sua identidade combativa.
Após o rebaixamento em 2024 e uma penúltima colocação no ano passado, a agremiação aposta novamente na força do discurso para reencontrar o caminho da ascensão. O desfile de 700 componentes, em 12 alas e duas alegorias, encerrou-se em 43 minutos.
O Carnaval 2026, com transmissão multiplataforma do Sistema Santa Cecília de Comunicação, tem o patrocínio do Grupo Yamam, Pedra Baiana (Aparecida) e Sabesp. O apoio da Piso Lessa e Praiamar Shopping.