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Uma usina subterrânea em Cubatão? Que lugar é esse?

Foi nas andanças pela Baixada Santista e com o olhar de jornalista que percebi quantos lugares, sabores, iniciativas, embora nunca negadas em sua existência, ainda se escondiam para muitos… Era como seguir o mesmo caminho na rotina diária para o trabalho e não perceber a originalidade, a extravagância, a raridade e singularidade de tantas coisas. Coisas também essas reveladas pela intensa pesquisa existente no ofício de repórter; o que me despertou a ideia de escrever sobre os tesouros desconhecidos dessa Região e partilhá-los neste blog.

A primeira curiosidade está literalmente escavada em um rochedo gigantesco (ou vários) no coração da Serra do Mar: muitos não sabem, mas existe uma usina subterrânea em Cubatão. Faz parte do complexo Henry Borden de geração de energia. Para chegar até a usina escondida, percorre-se um túnel de quase 200 metros por dentro da pedra, aberto por mãos de operários e explosivos ainda no século passado. Pouco iluminado, o túnel me faz pensar sobre os anos a fio em que esses homens emolduraram o lugar à picareta; o trabalho braçal se justifica pela falta de tecnologia à época. A obra foi iniciada no fim dos anos 20 e inaugurada somente três décadas depois, em 1956.

A guerra e outras pestes forçaram os homens a criarem alternativas para sua sobrevivência e foi este o caso aqui também. Quando construída, o objetivo era uma estratégia militar: se a usina externa (que hoje vemos parte com os tubos gigantes que escorregam serra abaixo) fosse destruída por um bombardeio, o abastecimento elétrico da Capital e do polo industrial continuaria garantido com a usina subterrânea - São Paulo vivia a Revolução Constitucionalista naquele período.

O fato é que o túnel secreto, guardado por portões gigantes de ferro, leva a uma usina com 6 máquinas instaladas produzindo 420 megawatts de energia (maquinário original!). Geradores, cheiro de água e terra misturados, muito barulho, uma sala com painéis de controle da usina subterrânea: quase tudo se encaixa entre a vanguarda e o futurismo. Ouso dizer que poderiam facilmente servir de locação para filmes de ficção científica.

A usina subterrânea possui 120m de comprimento, pouco mais de 20m de largura e 38m de altura. Também é alimentada pela represa Billings, mas em vez de tubos externos, uma adutora foi construída na rocha para trazer a água. Um túnel subterrâneo de 684m de comprimento e 3m de diâmetro vem de dentro da pedra e subdivide-se em 6 subtúneis que alimentam um gerador cada. Se houver um grande blecaute na região Sudeste, será a principal reativadora do sistema na cidade de São Paulo.

A Empresa Metropolitana de Águas e Energia S.A. (EMAE) informa que a Usina Henry Borden – tanto a unidade subterrânea quanto a externa - não é aberta à visitação pública. Somente estudantes do ensino técnico e superior de cursos correlatos à produção energética podem estudar as estruturas e, por conta da pandemia, também estão com visitas suspensas.

Breve história da Usina Henry Borden – Foi uma das peças-chave para o desenvolvimento industrial paulista e tem quase 100 anos. A “The São Paulo Tramway Light and Power Company Limited”, conhecida como Light, foi visionária. Arriscou a construção de uma fonte de energia elétrica na Serra do Mar. Uma ousadia: construir barragens de pequena altura, impedindo que a água seguisse o curso natural do rio - para o interior do Estado - criando, assim, reservatórios ligados ao rio das Pedras, como a represa Billings. Na encosta da Serra, seriam construídos tubos adutores, que levariam a água do reservatório para a usina. Assim, nasceu a primeira, a usina externa, inaugurada em 1926 e, depois, as outras unidades (Elevatórias de Traição e Pedreira) perfazendo a utilização de 8 geradores. Desde outubro de 1992, a operação desse sistema vem atendendo às condições estabelecidas em uma resolução que só permite o bombeamento das águas do Rio Pinheiros para o Reservatório Billing para controle de cheias, reduzindo em 75% a energia produzida na Henry Borden.
Com esse passeio subterrâneo por dentro da rocha, no coração da Serra do Mar, desvendando uma usina de energia, te convido a seguir o próximo roteiro, até então, escondido na Baixada Santista. Até lá!


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  • Publicado por: Morgana Monteiro
  • Postado em: sexta-feira, 07 ago 2020 12:08Atualizado em: segunda-feira, 10 ago 2020 11:18
  • Usina   Subterrânea   Cubatão   
     
Sobre
Blog que pretende mostrar lugares, sabores e personagens de uma Baixada Santista que se escondem no dia a dia. Morgana Monteiro é jornalista e pós-graduada em História, Arte e Cultura (UEPG, 2016). Já percorreu o jornalismo diário (TV Globo, TV Tribuna, rádios) e assessoria de comunicação, lhe garantindo um olhar diferenciado sobre o mundo. Atualmente é servidora pública municipal de Cubatão.