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Vastas vozes

Eu disse que, se me fosse permitida a graça de falar diante do papa, de um rei ou de um príncipe que me ouvisse, diria muitas coisas e, se depois me matassem, não me incomodaria.

Domenico Scandella, o moleiro Menocchio, queimado pela Inquisição em 1599

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Jeanice Ferreira, sábia bailarina, me chamou a atenção há algumas semanas para um poema chinês escrito durante a dinastia Tang (618-906):


CROMO ANTIGO

Atrai-se                se atrai

Quebra-luz

Bordado

Tensão                 Hora da lua

                               Passos

                               Porta

                               Hora do ouvido

                        Silêncio grande

Tesoura cai

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O poema (costurado por Jeanice na imagem acima para seu Adelinezine) faz parte da seção Poetas da Dinastia Tang (618-906), do livro 31 poetas 214 poemas, uma antologia de poemas traduzidos por Décio Pignatari. A seção reúne sete nomes, seis dos quais homens, e a pessoa que escreveu Cromo Antigo, um “anônimo”, na edição em português. Pelo tema, o bordado, mas também por uma sensibilidade diversa da dos demais, Jeanice me sugeriu: - Não seria uma anônima?

I A súplica
No romance Carta à Rainha louca (2019), de Maria Valéria Rezende, a protagonista é uma mulher que escreve, Isabel das Santas Virgens. E o que lemos no livro é justamente uma carta que Isabel redige entre 1789 e 1792 endereçada à rainha de Portugal, Maria I, a quem nunca identifica (digamos que o o epíteto de Maria I – Rainha Louca – na capa do livro seja uma piscadela para o leitor, já que cartas não chegam com título). Ela escreve desde seu claustro no convento de Olinda, onde aguarda para ser levada para Portugal a ser julgada pela acusação de fundar um convento de freiras clandestino no interior do que seria hoje Minas Gerais.

Isabel conta à rainha sua história de mulher branca desvalida e de Blandina, filha da Casa Grande, irmã de criação e para quem foi escolhida para ser dama de companhia por terem quase a mesma idade. Isabel faz uma súplica à rainha, para que interceda a seu favor e para que conheça as “vilanias” que são cometidas em seu nome na Colônia.

"Há já longo tempo me trouxeram para cá, com o fim de aguardar alguma nau de carreira que me levasse a Lisboa, para ser julgada pelas Cortes por um crime eu me foi assacado, mas aqui me esqueceram. É para que me recordem que agora Vos escrevo, Senhora, pois que em Vós se juntam duas cousas que de raro se podem reunir: o serdes rainha de cetro e coroa, capaz de ordenar e fazer o bom e o justo, acima de todos e quaisquer súditos, de qualquer sexo, que habitem as Vossas terras, e o serdes mulher, capaz de saber o que sofre outra mulher que clama por justiça."

A súplica em forma literária tem já uma longa história. A Ilíada de Homero está cheia delas, sendo uma das mais importantes a que a mãe de Aquiles, a divindade Tétis, faz a Zeus, logo no início do poema épico, para que seu filho, mesmo que morra, vença a guerra de Troia e tenha o nome lembrado para toda a História.

Para ser atendida, a súplica deve convencer. Na Grécia arcaica, fazia parte do convencimento o gesto de tocar as mãos nos joelhos. É o que faz Tétis:

"Sentou-se junto dele e com a mão esquerda lhe agarrou
os joelhos, enquanto com a direita o segurava sob o queixo.
Em tom de súplica dirigiu a palavra a Zeus Crônida soberano:
'Zeus pai, se entre os imortais alguma vez te auxiliei
com palavras ou atos, faz que se cumpra esta minha prece:
honra o meu filho, aquele que acima de todos os outros
está destinado a ter vida curta...'” 

II O convencimento
Enclausurada, não podendo tocar os joelhos da rainha, cabe a Isabel dominar a escrita. Uma de suas estratégias é dosar os comentários, rasurando frases e parágrafos inteiros. Para nós, leitores de Maria Valéria Rezende, estas rasuras são indicadas por trechos em que as palavras do livro estão impressas da forma tachada, com uma linha no meio do texto selecionado, efeito gráfico que nos permite ler o texto “rasurado”. Um deles diz o seguinte:
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As estratégias textuais de Isabel tem origem na educação que recebe desde menina. Criada entre a Casa Grande e a Senzala, relativamente livre – e também sozinha – Isabel logo percebe na aprendizagem da leitura e da escrita um meio de sobrevivência e também de libertação. Acompanhante de Blandina, acaba indiretamente recebendo as lições destinadas à filha da Casa Grande e, com o tempo, passa a receber a atenção do sacerdote responsável pelas lições: “Mal sabia ele o tesouro e a salvação que me concedia e o quanto me haveria de servir esse saber”.

III O enfrentamento
Saber ler deu “régua e compasso” a um personagem real, o Menocchio da epígrafe do texto de hoje. Quem nos conta sua história é Carlo Ginzburg em O queijo e os vermes (1976). O historiador italiano teve acesso ao processo instalado contra Menocchio por heresia na década de 1570. Seu objetivo, como avisa o subtítulo do livro, é mostrar "o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição". Em meio ao impacto da reforma luterana, ideias iluministas e o surgimento da imprensa (Ginzburg consegue apurar até uma lista de livros lidos por Menocchio), esse homem singular, fora da curva, decide propagar suas próprias ideias sobre a natureza do universo – um grande queijo, daí o título do livro – e da manifestação do Espírito Santo no mundo.

"A imprensa lhe permitiu confrontar os livros com a tradição oral em que havia crescido e lhe forneceu as palavras para organizar o amontoado de ideias e fantasias que nele conviviam. A Reforma lhe deu audácia para comunicar o que pensava ao padre do vilarejo, conterrâneos, inquisidores – mesmo não tendo conseguido dizer tudo diante do papa, dos cardeais e dos príncipes, como queria".

Na seção em que trata das leituras de Mennochio, Ginzburg consegue resgatar a sociabilidade da vila de Montereale por meio da circulação de livros, uma “rede de leitores que superam o obstáculo dos recursos exíguos” em uma “aldeia tão pequena”: um livro que recebeu de presente de Tomaso Mero da Malmins, outro emprestado por Anna de Cecho, outro ainda emprestado por um tio, uma Bíblia em vulgar (o latim já se italianizando); um empréstimo do capelão, todos identificados, além de vários indícios de outras leituras que o pesquisador não conseguiu precisar.

Na ficção ou na vida real, Isabel e Menocchio obedecem a um impulso do conhecimento. Querem que seus pensamentos e histórias sejam conhecidos. Sabem os dois que a palavra escrita não é monopólio dos poderosos. No romance da Maria Valéria Rezende, Isabel – disfarçada de homem, “anônima” na hipótese de Jeanice – aluga seus conhecimentos de escrita e escreve cartas, documentos e petições para sustentar Blandina e a si mesma. Apesar do desfecho do processo pesquisado por Carlo Ginzburg, a voz de Menocchio, assim como a glória de Aquiles, entrou para a História.

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Estante
Maria Valéria Rezende (www.mariavaleriarezende.com).
Carta à Rainha Louca. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2019.
Carlo Ginzburg. O queijo e os vermes: O cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição. Tradução Maria Betânia Amoroso. São Paulo: Companhia das Letras, 2006 (1ª edição 1976). Décio Pignatari (organizador).
31 poetas 214 poemas: do Rig-veda e Safo a Apollinaire. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
Homero. Ilíada. Tradução e prefácio Frederico Lourenço. São Paulo: Penguin Companhia, 2013.

 

 

  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: quinta-feira, 20 fev 2020 10:47Atualizado em: sexta-feira, 13 nov 2020 10:45

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Sobre
Blog de crítica literária. Alessandro Atanes é autor do livro "Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos", também traduz, compõe e toca guitarra. De profissão jornalista, tem mestrado em história social (USP, 2008) e é servidor público municipal de Cubatão desde 1999.