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Lusitana melodia: uma conversa entre Sophia Breyner e Ribeiro Couto

Para Jeanice, também Sophia,
Flávio Viegas Amoreira e Gustavo Klein

"Não terá sido a morte o primeiro navegador?
Muito antes que os vivos se confiassem eles próprios às águas, não terão colocado o ataúde no mar, na torrente? O ataúde, nesta hipótese mitológica, não seria a “última barca”. Seria a 'primeira' barca. A morte não seria a última viagem. Seria a primeira viagem. Ela será, para alguns sonhadores profundos, a primeira viagem verdadeira."
Gaston Bachelard


Ao longo das décadas de 1970 e 1980, a poeta Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) reúne poesias de oito países de língua portuguesa com o objetivo de apresentá-las ao público infantil e adolescente. A reunião acaba sendo publicada em 1991 com o apoio do Ministério da Educação de Portugal sob o título Primeiro Livro de Poesia, com ilustrações de Júlio Resende.

Entre autores e autoras, Sophia, nascida na cidade do Porto, escolheu de Rui Ribeiro Couto (1898-1963) os poemas Café e Santos (imagem abaixo), sobre o seu, como chama em um poema, “porto natal”. Do Porto ao porto de Santos, a Estante de hoje navega pelo Atlântico dos poemas dele e dela.
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I
Sophia Breyner, leitora de Ribeiro Couto
Soube que Sophia conhecia a obra de Ribeiro Couto por meio da jornalista Daniela Aragão, colega da Unisantos há um par de anos com a família em Portugal. Em uma conversa sobre poetas de Santos no grupo da turma de 1995, a jornalista conta que, já em Portugal, a filha, aos 12 anos, teve que estudar um poema do livro para fazer uma apresentação na escola e escolheu com orgulho falar sobre um poeta e um poema de sua cidade natal. Foi uma forma poética de adaptar-se ao novo país.

O mero caso por si só justifica qualquer coisa a se falar sobre a importância da poesia na vida de todos, porém levo mais longe o diálogo entre a poeta do Porto e o poeta de Santos.

As navegações surgem como um primeiro tema em comum. Em Litania das Rachonas Nortenhas, Couto fala das “solidões marinhas” percorridas pelos filhos de Portugal, um eco do desbravamento dos mares pelas naus, “Em tábuas estreitas / Como sepulturas”. Sophia responde com os versos finais do poema Homens à beira-mar: “Só encontram o longe que se afasta, / O apelo do silêncio que os arrasta, / As aves estrangeiras que os trespassam, / E o seu corpo é só um nó de frio / Em busca de mais mar e mais vazio.”

Couto elege Camões como a figura central da língua portuguesa em Camonocórdia num cais de Lisboa, de onde a lusitana melodia, “Língua de continentes, marinheira”, espalhou-se pelo mundo para séculos depois ser recoletada por Sophia em seu livro para crianças e adolescentes. É dela um poema chamado Goa, cidade da Índia onde acomodou-se o português, bem como na chinesa Macau ou lá no Timor.

Couto associa Lisboa ao autor dos Lusíadas. Sophia, por sua vez, ainda que tenha escrito um Soneto à maneira de Camões, vê pelas ruas da capital portuguesa a “sombra” de Fernando Pessoa no poema “Fernando Pessoa” ou “Poeta em Lisboa”. Imagens cotidianas da cidade dividem-se entre poemas dele e dela.  Ao despedir-se de Lisboa em Adeus à rua Castilho, Ribeiro Couto canta o Rio Tejo e o casario da cidade: “Não verá mais o Tejo nem as cores / Que remoçam ao sol, o casario. / Em breve, pelas terras onde fores, / Terás saudades do entre o mar e o rio.”

Se o Tejo de Couto é o da despedida melancólica, o de Sophia marca a alegria do reencontro diário com o rio. É o que lemos em Tejo:

“Aqui e além em Lisboa – quando vamos
Com pressa ou distraídos pelas ruas
Ao virar da esquina de súbito avistamos
Irisado o Tejo:
Então se tornam
Leve o nosso corpo e a alma alada”

Ele, descendente de portugueses, soa mais melancólico que a própria portuguesa. Digamos que a melancolia de Sophia é ativa, de quem se espalhou pelo mundo, enquanto a dele, herdeiro de fados, é amplificada pela imigração, como se fosse uma melancolia ao quadrado.

O tom menor de Couto, quase soturno, repete-se em outros dois fragmentos sobre Lisboa. Ainda em Adeus à Rua Castilho, ele afirma que na “pedra antiga de Lisboa”:

“Fica este não-sei-quê de firme e obscuro
Que vem de longe e no teu peito passa,
Passado que é presente e que é futuro”

No poema Lisboa, Sophia fala da cidade em tom maior, altivo, ainda que para tratar do encontro da capital portuguesa com seu fado navegante: “Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata / Lisboa oscilando como uma grande barca / Lisboa cruelmente construída ao longo de sua própria ausência”.

A mesma velha cidade, lírica na voz dele, épica na dela.

II
Sentimento Atlântico do Mundo
A poesia dos dois está permeada pelo “sentimento atlântico do mundo”, expressão que conheci por meio de outro poeta de Santos, o contemporâneo Flávio Viegas Amoreira, ele mesmo autor de livros com título tais como Maralto, A Biblioteca Submergia ou Escorbuto Cantos da Costa.

Qualquer seleta de Couto ou de Sophia basta para nos revelar o poder do Atlântico. Do lado de cá do oceano, ele invoca a força das ressacas: “Oh! Ressaca dos dias bravos / O mar a investir contra o cais / E as ondas rebentando no alto!” (O mar e o cais).

Sophia repercute a amplidão oceânica em Mar sonoro:

“Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Serem um milagre criado só para mim.”

Noturno da praia deserta, de Couto, é outra fonte de imagens atlânticas na qual o mar e a noite se fundem: “Mistura de corpos e de hálitos, / Não se sabe se é mar, se é noite”. A estrofe central da peça é formada por epítetos para essa união. O poema segue na íntegra:

“Janela aberta para a sombra,
Vento que chega e traz meiguice,
Onda que canta nos rochedos,
Noite lavada de salitre,
Cheirosa de matos e espumas.

Repouso de todas as dúvidas,
Acalanto dos conformados,
Mãos esquecidas noutras mãos,
Matéria pura e sem memória,
Ausente do ocioso mistério.

Mistura de corpos e de hálitos,
Não se sabe se é mar, se é noite,
Apenas gosto, ritmo e cheiro,
A viagem que não tem nome
E o naufrágio na gratidão.”

Novamente notaremos a diferença de tons, mas as imagens e elementos repetem-se em Mar, de Sophia:

“I
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

II
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.”

Os elementos se repetem. O cheiro da vegetação misturado ao do mar em “noite lavada de salitre” e “a selvagem exalação das ondas”; o “grito puro” das ondas e a “onda que canta nos rochedos”; a união entre água e éter (“não se sabe se é mar, se é noite” e “subindo para os astros...”).

Talvez os dois poemas respondam à indagação de Marcel Proust feita em setembro de 1892 em Os prazeres e os dias: “O céu está escuro na Terra Negra, ainda brilha pouco, não se sabe por que mistério, por que brilhante relíquia do dia enterrada sob as ondas. O que é isso?”

III
A vida portuária
A ambiência telúrica do oceano tem como complemento os episódios prosaicos da vida portuária. Em Café do Porto, Couto descreve cenas de um café à beira do cais comandado por uma mulher refratária às investidas masculinas: “Beber, bebam: embebedem-se;/ Podem rebentar de cheios, / Dançar de roda, cantar na sala. / Não queiram é tocar-lhe os seios, / Que a dona do café do porto, / Ninguém poderá tocá-la.”

Em Nocturno da Graça, Sophia vê o movimento deste bairro de Lisboa: “Brilha a cidade dos anúncios luminosos / Com espiritismo bares cinemas / Com torvas janelas e seus torvos gozos / Brilha a cidade alheira.”

Novamente a diferença de tons ou, pensando em imagens, de enquadramentos cinematográficos: o close do pequeno espaço entre mesas de um café em Couto; o bairro visto de forma panorâmica em Sophia.

Ainda assim, os poemas chegam às estrofes finais cada um com um chamado de volta à amplidão do mar e da noite: “Já no cais o navio chama. / Bêbedos vão capitães, grumetes... / Era o último porto da escala.” (Couto) e “Comigo / Sobre o cais sobre o bordel e sobre a rua / Límpido e aceso / O silêncio dos astros continua.” (Sophia).

Epílogo
O cais é um lugar propício à reflexão, talvez mesmo por marcar essa divisa entre o território citadino e o mar telúrico; de um lado, a vida mundana de cafés, comércio e bordéis, do outro o chamado para a aventura e o mito. E aí retomo a epígrafe de Gaston Bachelard, tomada de A água e os sonhos:

“Não terá sido a morte o primeiro navegador?

Muito antes que os vivos se confiassem eles próprios às águas, não terão colocado o ataúde no mar, na torrente? O ataúde, nesta hipótese mitológica, não seria a ‘última barca’. Seria a 'primeira' barca. A morte não seria a última viagem. Seria a primeira viagem. Ela será, para alguns sonhadores profundos, a primeira viagem verdadeira.”

Pergunta que ele responde com a hipótese:

“Em todo caso, sobre o problema que nos ocupa, meditando um pouco a respeito, parece que a 'utilidade de navegar' não é bastante clara para determinar o homem pré-histórico a escavar uma canoa. Nenhuma utilidade pode legitimar o risco imenso de partir sobre as ondas. Para enfrentar a navegação, é preciso que haja interesses poderosos. Ora, os verdadeiros interesses poderosos são os interesses quiméricos. São os interesses que sonhamos, e não os que calculamos. São os interesses fabulosos. O herói do mar é um herói da morte. O primeiro marujo é o primeiro homem vivo que foi tão corajoso como um morto.”

No poema Náufrago, Sophia dá um corpo a esse herói:

“Agora morto oscilas
Ao sabor das correntes
Com medusas em vez de pupilas.

Agora reinas entre imagens puras
Em países transparentes e de vidros.
Sem coração e sem memória
Em todas as presenças diluído.

Agora liberto moras
Na pausa branca dos poemas.
Teu corpo sobre e cai em cada vaga,
Sem nome e sem destino
Na limpidez da água.”

Sobre essa primeira que é a última viagem, Couto escreveu Invocação do porto natal:

“O porto em que nasci! Era eu menino
Quando uma vez me viste, olhos no mar,
Pedir ao mar incerto o meu destino.

O mar ouviu-me. Meu destino é errar.
Por onde eu vá, seguindo esse destino,
Entre eu e minha mãe existe o mar.

Enfim, se o barco em que eu voltar um dia
Deva ir ao fundo, que suceda tal
Em frente ao porto a que eu tão bem queria.

E que meu corpo inerte, no balanço
Da onda encontrando o embalo maternal,
Possa no mesmo porto achar descanso.”

Esse morrer no porto natal de Rui Ribeiro Couto remete à concepção cíclica da vida que acompanhou a humanidade desde seus primórdios e que, na Modernidade, parece permanecer apenas (ou sobretudo) no fazer poético e na realização artística. Sophia de Mello Breyner Andresen fala desse Quando cíclico, poema com que se fecha a Estante:

“Quando meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.
Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.
Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.”

Estante

Sophia de Mello Breyner Andresen. Coral e outros poemas. Seleção e apresentação Eucanaã Ferraz. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

Sophia de Mello Breyner Andresen. Quando. In: Dia do Mar, 1974. Enviado por Daniela Aragão.

Ribeiro Couto. Melhores Poemas. Seleção José Almino. São Paulo, Global, 2002.

Gaston Bachelard. A água e os sonhos. Ensaio sobre a imaginação da matéria. Tradução Antonio de Pádua Danesi. São Paulo, Martins Fontes, 2002.

Marcel Proust. Os prazeres e os dias. Citado por Valérie Drechsler-Kayser em postagem compartilhada por Rodrigo Lucheta. (https://www.facebook.com/rodrigo.lucheta.1/posts/3783999444962234).

Sobre o poema Santos, de Rui Ribeiro Couto:
Alessandro Atanes. Uma infância em torno do porto. Portogente, 6 de agosto de 2006.
Alessandro Atanes. Ribeiro Couto: A infância em um poema. Revista Pausa, 29 de junho de 2012.

Sophia de Mello Breyner Andresen - O Nome das Coisas, documentário produzido e realizado pela Panavideo para a RTP 2.

 

 

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Sobre
Blog de crítica literária. Alessandro Atanes é autor do livro "Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos", também traduz, compõe e toca guitarra. De profissão jornalista, tem mestrado em história social (USP, 2008) e é servidor público municipal de Cubatão desde 1999.