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Nos passos de Marcel Schwob ou A Cruzada dos Terraplanistas

Sonhei que via nas diligências que entravam e saíam
da usina nuclear de Civitavecchia o rosto de Marcel Schwob.
A visão era fugaz. Um rosto quase translúcido,
com os olhos cansados, apertado de felicidade e de dor.
Roberto Bolaño
 

O conflito político essencial pelo qual estamos passando – civilização versus fascismo – apresenta-se como uma baita oportunidade para a Literatura exercer seu papel de pensar o mundo. Deixo claro, em primeiro lugar, que não me refiro ao engajamento político de autores e autoras (decisão individual que deve ser respeitada), e muito menos a obras panfletárias que, com as devidas exceções, parecem-se mais a panfletos do que obras.


Pensei nisso após ler um miniconto de Cícero Gilmar Lopes sobre a pandemia, tema de um recente edital de instituição financeira para escritores. Em oito linhas narradas em primeira pessoa, um homem negacionista-cloroquinista-terraplanista reflete sobre suas ações após tudo ter passado. Gostei da feitura do texto, mas minha opinião importa pouco, gostaria de destacar o procedimento: Cícero, um homem da civilização, pôs-se a pensar seu contrário, não para torná-lo caricatura, mas para entendê-lo.


Em outras circunstâncias, foi exatamente o que fez Marguerite Yourcenar ao preparar o romance Memórias de Adriano, tema do texto anterior desta Estante, em que o imperador romano, na velhice, traça um panorama de sua vida.

Tanto o miniconto inédito quanto o romance aclamado exploram ficcionalmente um veio que é um verdadeiro campo de batalha literário: as biografias e os relatos pessoais, sucesso mundial com extremos de pura fofoca de um lado e painel social do outro, sempre com um protagonista à frente, verdadeiras odes ao individualismo (ou à individualidade, para não parecer tão crítico), alimentadas pelo interesse enciclopédico da modernidade.


Quem deu começo a essa brincadeira foi o francês citado no título, Marcel Schwob (1867-1905), autor de Vidas Imaginárias, de 1896, ainda no século XIX, em que – mostra-se aí o interesse enciclopédico – se utiliza de relatos e documentos antigos para dar corpo a uma série de biografados, reais ou imaginários. 


Jorge Luis Borges, conhecedor da obra de Schwob e ele mesmo autor de caráter enciclopédico (lembro aqui do Manual de Zoologia Fantástica), usa as mesmas ferramentas para escrever seus primeiros relatos ficcionais, os perfis de piratas, golpistas e foras-da-lei reunidos em História Universal da Infâmia, de 1934.

Borges é autor de um prefácio a A Cruzada das Crianças, também do autor francês, do mesmo ano das vidas imaginárias, em que o autor parte de relatos sobre grupos de crianças alemãs e francesas que formavam colunas em direção a Jerusalém durante as cruzadas. Schwob transforma esse material em uma série de relatos em primeira pessoa para dar luzes distintas ao episódio (que perdura de alguma forma na tradição do Flautista de Hamelin): “Sonhou assim, ser o papa, ser o goliardo, ser as três crianças, ser o clérigo”, diz o prefácio. 

Leitor de Schwob e de Borges (a quem dedica o texto O Bibliotecário Valente), o chileno Roberto Bolaño (1953-2003) publica em 1996 A Literatura Nazista na América, editado há somente dois anos no Brasil, no qual dá um passo além de Borges no caminho inaugurado pelo francês, reunindo perfis fictícios de todo o continente, todos ligados à ultradireita ou simpatizantes do autoritarismo. Bolaño, pessoa de esquerda (chegou a estar detido quando jovem por alguns dias após o golpe militar no Chile), consegue nessa obra nos fazer entender o autoritarismo e a violência política da América Latina por meio da criação imaginativa do outro. Nenhum dos “biografados” é uma caricatura.

O filósofo brasileiro que escreve refutações contra os autores iluministas, por exemplo, tem mais dignidade que o brasileiro autodeclarado filósofo que vive nos Estados Unidos (prontofalei). Já no perfil de Irma Carrasco vemos como a violência contra a mulher é ambidestra no nosso continente. Após defender Franco em um jantar com amigos e visitas, a mexicana católica monarquista apanha do marido comunista. 


Mais do que a caracterização das personagens, é a tensão crescente entre ficção e História que traça um jogo de sombras e luzes (e voltamos novamente ao texto sobre as Memórias de Adriano) que cria conhecimento da forma específica que só a Literatura pode fazer.


Quem hoje escreverá A Cruzada dos Terraplanistas?


Estante

Marcel Schwob. A Cruzada das crianças / Vidas Imaginárias. Tradução Dorothée de Bruchard. Introdução Marcelo Jacques de Moraes. São Paulo: Hedra, 2011.


Marguerite Yourcenar. Memórias de Adriano. Tradução Martha Calderaro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.


Jorge Luis Borges. Marcel Schwob. A Cruzada das crianças. In: Prólogos, com um prólogo de prólogos. Tradução Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. 


Jorge Luis Borges. Historia universal de la infamia. Buenos Aires, Argentina: Emecé, 1954.


Roberto Bolaño. La literatura nazi en América. Barcelona, Espanha: Seix Barral, 2008.


Roberto Bolaño. El bibliotecario valente. In: Entre parêntesis. Ensayos, artículos y discursos (1998-2003). Barcelona, Espanha: Anagrama, 2008 (1ª edição 2004).


Roberto Bolaño. Un paseo por la literatura. In: Tres. Barcelona, Espanha: Acantilado, 2009 (1ª edição 2000).

Escrevi sobre a questão da influência entre os textos de Schwob, Borges e Bolaño em O X da influência.

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Sobre
Blog de crítica literária. Alessandro Atanes é autor do livro "Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos", também traduz, compõe e toca guitarra. De profissão jornalista, tem mestrado em história social (USP, 2008) e é servidor público municipal de Cubatão desde 1999.