Acervo da Estante Acervo da Estante

De Penélope e Ulisses a Meg Ryan e Tom Hanks

Você não quer estar apaixonado.
Você quer estar apaixonado em um filme.
Sintonia de amor
__________________________

Sabe-se pouco sobre Cáriton de Afrodísias, que deve ter escrito Quéreas & Calírroe no século I. O “deve” acima deve-se a que não há certeza sobre a data exata de sua composição. A tradutora da obra, Adriane da Silva Duarte, conta que 100 anos atrás os estudiosos consideravam ter sido o livro publicado entre os séculos IV e V depois de Cristo.

I Presente
A mudança se deve a uma “reviravolta” ocasionada pela “descoberta de papiros, estudos de fragmentos de obras perdidas e o avanço na análise das relações intertextuais entre os romances gregos” produzidos nesse intervalo de cerca de 400 anos. “Alguns estudiosos, com destaque para Tilg, consideram Cáriton o ‘inventor’ do romance romântico (ideal Love novel) e Quéreas e Calírroe, o texto arquitípico dessa produção. Stefan Tilg, explica a tradutora em nota, publica em 2010 o estudo Cáriton de Afrodisías e a Invenção do Romance Grego de Amor”.

Mas o que isso interessa? Esse deslocamento aponta para a formação de um gênero literário, o romance, que chegaria à posição hegemônica somente na modernidade, em especial com o Realismo e o Naturalismo do século XIX. Será que sem Cáriton não haveria Flaubert, Jane Austen e Machado de Assis?

Aqui talvez caiba a diferenciação que Eric Auerbach faz entre o romance antigo e o romance moderno: enquanto este trata de forma “séria, problemática e trágica” qualquer personagem não importando sua condição social (por exemplo, Os irmãos Karamazov de Dostoiévski), naquele isso é “totalmente impossível”. Auerbach se refere especificamente ao registro cômico do banquete de Trimalcião de Petrônio, mas serve também, no registro oposto, à história de amor entre jovens de famílias nobres do romance de Cáriton.

blog20212213720192.jpg

II Futuro
Cáriton, talvez nem mesmo seja esse seu nome. A tradutora Adriane da Silva Duarte destaca que o nome deriva do grego "charis" (graça, beleza, encanto) e apresenta "Senhor encantador da cidade do amor" como significado do pseudônimo. Numa paráfrase: Gracinha Afrodisíaca.

Porém, a diferença que Auerbach aponta entre o romance antigo e o romance moderno só pode ser medida pelo que os dois subgêneros mantém em comum.

Acompanhamos em Quéreas & Calírroe as peripécias de um jovem casal apaixonado. Praticamente dá para imaginar William Shakespeare lendo o romance e imaginando, na chave cômica ou na trágica, as peripécias de casais em Romeu e Julieta, Othelo, Muito Barulho por Nada, A Comédia dos Erros, desventuras e reviravoltas que, bem mais recentemente, ecoam nas comédias românticas de todo tipo.

III Passado
Por outro lado, ainda que obra primeira de um novo gênero, Quéreas & Calírroe é construída sobre a grande tradição da poesia épica grega. Assim como define um caminho para o futuro, é também herdeira do que veio antes, principalmente Homero.

Isso é facilmente perceptível na tradução de Adriane da Silva Duarte. A oralidade de poesia grega e sua linguagem elevada estão ali. E a edição da Editora 34 localiza uma série de citações diretas à obra de Homero e outros já clássicos por meio do uso do itálico ou mesmo com a frase destacada entre parágrafos (ver imagem), sempre seguidas de notas indicando o original.

blog20212213844517.jpg
O caso aqui destacado ocorre quando Quéreas, após já uma série de desventuras, ouve de um concorrente, digamos assim, indiretas sobre os reais sentimentos de Calírroe (Iago de Othelo, não é?) e suas possíveis bodas com outro homem, episódio que repete a cena do Canto XV da Odisseia, em que o mesmo se diz de Penélope, cortejada por muitos enquanto aguarda o retorno de Ulisses.

“Sabes o coração que bate na mulher:
só quer enriquecer a casa do consorte,
não lembra nem procura os filhos das primeiras
núpcias, já olvidada de seu ex, defunto”.

Os livros conversam entre si, como li em Umberto Eco citando Jorge Luis Borges.

Estante
Cáriton de Afrodísias. Quéreas & Calírroe. Tradução, apresentação e posfácio Adriane da Silva Duarte. São Paulo: Editora 34, 2020.

Homero. Odisseia. Edição bilíngue. Tradução, posfácio e notas de Trajano vieira. São Paulo: Editora 34, 2014.

Eric Auerbach. Fortunata. In: Mimesis: a Representação da realidade na literatura ocidental. São Paulo: Perspectiva, 2007 (1ª edição 1946).

#quéreas&calírroe
#romancegrego
#editora34
#adrianedasilvaduarte
#homero
#odisseia
#ericauerbach

 

 

Leia Mais
     
Sobre
Blog de crítica literária. Alessandro Atanes é autor do livro "Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos", também traduz, compõe e toca guitarra. De profissão jornalista, tem mestrado em história social (USP, 2008) e é servidor público municipal de Cubatão desde 1999.