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Buraco pestilento: o cruel porto de Santos

A raiz do mal está na apatia da gente do governo;
e pelo que estamos vendo, parece que tudo no Brasil se desorganiza.

I
A epígrafe acima foi retirada do trecho final de um texto sobre a epidemia de febre amarela em Santos publicado em 9 de maio de 1892 no Jornal do Comércio de Liverpool. A versão em português de onde foi tirada é da Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, que traduz o texto em 7 de junho, pouco menos de um mês depois.

A nota começa já desmentindo as notícias de que a febre estava se extinguindo – não é nova a guerra de narrativas, né? – e volta a avisar armadores, carregadores, oficiais e marinheiros que “a febre estabeleceu residência permanente na cidade”.


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Soube do artigo de Liverpool por meio do historiador Bruno Bortoloto do Carmo, do Museu do Café, no texto Santos: “porto maldito” e a epidemia de febre amarela (1889–1895), agora de 5 de junho. “Porto maldito” é, digamos assim, um apelido epidemiológico bastante conhecido de quem já leu alguma coisa sobre o período. Na época, a fama era internacional: o pesquisador nos traz uma variação italiana “città maledetta”, cujo eco chega ao espanhol “Tierra maldita” do poema Santos Revisitado (1927-1967), de Pablo Neruda, no qual o chileno ainda chama a cidade de “axila do Brasil calorento”.

Do inglês, Bortoloto também nos traz a expressão bem barra pesada “white man’s grave” – túmulo do homem branco. Ele cita uma referência de 1931 na revista Tea and Coffee Journal, editada em Nova York, e, em uma conversa pela internet, completa: “white man's grave foi o que mais encontrei. Sempre por causa da febre amarela”. Outra em inglês que Santos compartilhou com outros portos é “pest hole”, que o pesquisador traduz por buraco pestilento.

White man’s grave se refere ao grande número de marinheiros e embarcados de navios europeus que não sobreviviam a Santos, como está no aviso de Liverpool:

“Não há ali meio, nem processo algum de saneamento, pelo menos como os ingleses o entendem; e o clima é sobremaneira insalubre e nocivo aos europeus. Isto dá-se mesmo nas melhores épocas. Porém se o indivíduo é de constituição forte e usando de certas precauções, consegue aclimar-se e resistir às doenças mais mortíferas e insidiosas. Ora, atualmente nem isso vale; e a maior parte dos residentes europeus veem-se na necessidade de fugir todas as tarde em trem de ferro para as montanhas”.

II
Um pouco antes, 1888, em um registro ficcional ainda que realista, Julio Ribeiro publica o romance A Carne, em que uma personagem descreve a cidade de Santos sob o calor de janeiro:

“A vida aqui é uma negação da fisiologia, é um verdadeiro milagre; não há hematose perfeita, as digestões são laboriosas, sua-se como no segundo grau da tísica pulmonar, como na convalescença de febres intermitentes. Eu, se fosse condenado a degredo em Santos, já não digo por toda a vida, mas por um ano ou dois, suicidava-me.”

O clima que amplifica o problema epidemiológico já havia sido anotado décadas antes, quando a febre amarela já havia aparecido na cidade. Quem relata é o médico e viajante alemão Robert Avé-Lallement, que passou pela cidade em 1858:

“Por mais graciosa que seja a paisagem que se desfruta do alto do Monte Serrat, jamais se lhe pode atribuir o conceito de região salubre. Ao contrário, forma uma caldeira com todos os ingredientes com os quais o sol tropical pode guisar uma multidão de matérias infecciosas. E nisso eficazmente cooperam os homens. Do outeiro se avistam, em baixo, em quase todos os pátios e hortas, lugares pantanosos, fossas sujas, poças de águas estagnadas. Mas isso não é nada ou apenas amargamente pouco. A flor da porcaria encontra-se na praia, no cais da cidade. Aqui é realmente de pasmar. Em toda parte imundície, em toda parte fedor, em todos os cantos e recantos matérias pútridas! E ainda se queixa a gente de ser perseguida pela febre!

Que magnífico solo deve encontrar o germe da febre que entra aqui e como deve ser difícil, aqui, que os não aclimados escapem à febre amarela! Como ainda em 1850 assustava desesperadoramente a simples palavra — febre amarela – no Brasil! E hoje, passados apenas sete a oito anos, constrói-se um templo à deusa Febris e conscienciosamente se praticam os seus mistérios na praia imunda de Santos.”

III
Um lamento à deusa Febris está no poema O Navio da Febre, também em inglês, de John Masefield (1878-1967), de Nova York, também marinheiro nos anos 90 do século XIX que viajou para a América do Sul em 1894, com destino ao Chile. A tradução é do poeta Paulo de Toledo, feita de um dia para outro, em ritmo jornalístico, a pedido da Estante. Blue Peter, explica o tradutor, é uma bandeira azul hasteada em navios que estão prestes a zarpar. Terá o autor passado por Santos? Seu poema, uma balada, com certeza:

O NAVIO DA FEBRE

Sem garotas a chorar no cais quando o navio partir,
Nem homens em festa, na balaustrada, todos a rir,
E nenhuma Blue Peter hasteada na proa agora.
Pegamos a Febre Amarela: — Harry morreu faz uma hora.
          É cruel quando a febre vai a bordo!

O Dick sofre tremores, e veja o que eu havia dito
(Arrumei a cama pra ele se proteger do frio maldito):
“Posso pegar um cobertor?”, eu disse, “o Dick vai finar”.
“Ai, meu saco!”, disse o capitão, “deixa o patife deitar!” —
          É cruel quando a febre vai a bordo!

Há um porto cruel em Santos, numa terra árida,
Com várias covas já feitas nas faixas de areia clara,
E o Dick grita pela escotilha, diz que perde a cor,
Seus dentes podres tremem, e o que fazer pra se opor?
          É cruel quando a febre vai a bordo!

Epílogo
Em 1892, data do texto traduzido na Gazeta de Notícias, morreram em Santos 4.173 pessoas, sendo 1.742 por febre amarela e outras 823 por varíola. A cidade não tinha nem 30 mil habitantes. Na última estrofe do poema, Masefield fala de uma linha (row) de covas. O professor de inglês Itamar Alves, amigo como Paulo, traduziu assim o trecho final:

“Um porto cruel, Santos, e uma terra insaciável,
Renque de sepulturas já abertas em faixas de terra alhures
Cadu berrando na escotilha, ele que está azulando
Seus dentes frágeis tremendo, o que pode um homem fazer?
          É cruel quando um joão-ninguém contrai a febre!”

Em Santos, naquele ano, mais de 2 mil pessoas (João-Ninguéns) morreram por doenças infecciosas. Quantas deas devido à apatia?

Quantas delas hoje?

Quantas daqui a duas semanas?

Estante

John Masefield. Fever ship. In(?): Salt-Water Ballads, 1902.
FEVER SHIP
There'll be no weepin' gells ashore when our ship sails,
Nor no crews cheerin' us, standin' at the rails,
'N' no Blue Peter a-foul the royal stay,
For we've the Yellow Fever — Harry died to-day. —
          It's cruel when a fo'c's'le gets the fever!

'N' Dick has got the fever-shakes, 'n' look what I was told
(I went to get a sack for him to keep him from the cold):
"Sir, can I have a sack?" I says, "for Dick 'e's fit to die."
"Oh, sack be shot!" the skipper says, "jest let the rotter lie!" —
          It's cruel when a fo'c's'le gets the fever!

It's a cruel port is Santos, and a hungry land,
With rows o' graves already dug in yonder strip of sand,
'N' Dick is hollerin' up the hatch, 'e says 'e's goin' blue,
His pore teeth are chattering, 'n' what 's a man to do? —
          It's cruel when a fo'c's'le gets the fever!

Bruno Bortoloto do Carmo. Santos: “porto maldito” e a epidemia de febre amarela (1889–1895). Medium, Museu do Café, 6 de junho de 2020. 

Pablo Neruda. Santos Revisitado (1927-1967). In: La Barcarola. Edição e notas Hernán Loyola. Prólogo Maria Gabriela Mizraje. Buanos Aires, Debolsillo, 2004.

Julio Ribeiro. A Carne. São Paulo: Editora Saber, 1975.

Robert Avé-Lallemant. Viagem pelas Províncias do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Editora Itatiaia Limitada, 1980. Leia aqui outros trechos do viajante sobre Santos.


Confira a notícia do jornal de Liverpool no acervo da Biblioteca Nacional.

No vídeo, John Masefield declama Sea fever.

 

 

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Sobre
Blog de crítica literária. Alessandro Atanes é autor do livro "Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos", também traduz, compõe e toca guitarra. De profissão jornalista, tem mestrado em história social (USP, 2008) e é servidor público municipal de Cubatão desde 1999.