Arquivo da Estante Arquivo da Estante

Sombras sobre Santos

Porque a razão dorme. Ela exige um esforço áspero de vigília,
enquanto à noite, o obscuro, o monstruoso, nascem naturalmente.
O homem é assediado pelas trevas.
Jorge Coli

I
A cidade de Santos é atacada por monstros dignos ou aparentados a Godzilla. Um lagarto chega pela praia e avança sobre o Gonzaga destruindo a Praça das Bandeiras; um polvo enfia seus tentáculos por entre os vãos da mureta da Ponta da Praia e as arranca facilmente, destruindo nosso símbolo preferido; uma tartaruga emerge do Estuário, destói um navio e cospe fogo sobre o cais. Esse é o marco inicial de Monstros! (2012), narrativa visual de Gustavo Duarte.

Chamo narrativa visual porque o autor não usa sequer uma palavra além do título pra contar sua história, até mesmo os balões nos fortuitos diálogos estão preenchidos pelos monstros que as palavras descrevem. Uma de suas estratégias é a utilização de sombras para anunciar seus monstros: o quadrinho imediatamente anterior à duas das três aparições é tomado pela escuridão, que contrasta com a suave monocromia das imagens. Abaixo, três miniaturas com a chegada do lagarto ao Gonzaga:

blog2020642025561.jpgblog2020642624816.jpgblog202064274547.jpg

Gigantescas como o mais recente Godzilla do cinema, as três criaturas são precedidas pelas sombras que as anunciam (o filme também se utiliza da sombra, mas sem contraste, a película é toda marcada por uma fotografia sombria, confira abaixo). As duas histórias exploram o arquétipo do assédio da humanidade pelas trevas.

II
O título de hoje é tomado emprestado de Sombras sobre Santos: o longo caminho de volta, livro-reportagem de Ricardo Marques da Silva e Carlos Mauri Alexandrino publicado em 1988, que conta a história política da cidade entre o golpe civil-militar de 1964 e a reconquista da autonomia política em 1984 com a posse do prefeito eleito Osvaldo Justo.

No livro, o período da ditadura é tratado como uma sombra sobre a cidade, ideia magistralmente ilustrada na fotografia de Rafael Dias Herrera escolhida para abrir o capítulo Tempos Sombrios: uma imagem de quepes militares que cobrem - fazem sombra - a mesa do salão nobre da Prefeitura no dia da posse do interventor imposto.

blog2020644032508.jpg

Projetando todo o período, o livro traz o episódio do navio pintado de preto. o Raul Soares, despojado de suas funções de comunicação de porto em porto para transformar-se em um presídio fundeado no meio do canal do Estuário (esse mesmo pelo qual a tartaruga invade a cidade):

"... na manhã de 24 de abril de 1964, outro navio apontou sua proa em direção ao canal do estuário, arrastado por dois rebocadores. A não ser pelo casco pintado de preto, parecia um navio como outro qualquer. Porém, em vez de permancecer em um ponto do longo cais, ele fundeou sobre um banco de areia no meio do canal, perto da Ilha Barnabé, e ali mesmo ficou."


III
Voltando à invenção literária, quem tratou de forma poética a presença dessa sombra no cais foi Lídia Maria de Melo, em poemas de 1982 inseridos em seu livro Raul Soares: um navio tatuado em nós. O livro traz um relato jornalístico sobre as trajetórias de alguns dos prisioneiros; já os poemas são feitos a partir da perspectiva da menina que teve o pai sindicalista preso no local.

O poema Apenas um navio, como já tive a oportunidade de escrever em outra ocasião, carrega no próprio título toda a singularidade do episódio, um texto que evoca a infância à beira do cais como muito comum, por exemplo, nos versos de Ribeiro Couto, mas uma infância marcada pela incerteza do Estado de Exceção após o golpe.

Apenas um navio

"No ano de meia quatro,
no meio do estuário
em frente ao porto de Santos,
o porto de minha infância,
Das barcas e das catraias,
dos navios e rebocadores,
Dos trens e dos armazéns,
onde os botos,
às cinco e meia da tarde,
viraram cambalhotas
enquanto as gaivotas
fisgavam peixes no mar,
avistava-se um navio
velho, preto,
ancorado
próximo à Ilha Barnabé,
que os menos informados
confundiam com um navio comum.
Mas eu e muitas crianças,
que ansiavam
para verem os pais
(confinados),
sabíamos que ele era bem mais
que um navio qualquer
e o culpávamos
pela ausência paterna
nos almoços de domingo,
pela angústia disfarçada nos olhos de nossas mães,
pela melancolia que abraçava
todas nossas brincadeiras,
pela vontade de chorar
sem saber bem o porquê.
Nós já sentíamos tudo
e éramos tão crianças!
Só o que não entendíamos
é que o Raul Soares
era apenas um navio
e não tinha culpa de nada.
Não tinha culpa de ter virado
instrumento repressivo
no ano de meia quatro."

Mais para o final do livro, ao narrar a retomada da vida comum (???) do pai, Iradil, após a anistia em 1980, que lhe propiciou voltar a trabalhar, Lídia ergue um brinde em sua homenagem com um poema cujos três versos finais são assim:

"Até parece piada.
Te arrebentaram...
Te matar não conseguiram."

Versos que conversam com outras citação de Jorge Coli: "Afastar o obscuro - eis o desejo primordial".

Epílogo
Além da capacidade de narrar visualmente, Monstros! também faz uma viagem pelo tempo e mostra uma Santos, a julgar pelos carros nas ruas e programas de TV que as personagens assistem, da primeira metade da década de 1980, quando assistíamos a seriados japoneses como Spectreman, tanto que o livro é dedicado ao Dr. Gori, o arqui-inimigo do protagonista.

Mas o livro não traz referências apenas à cultura pop japonesa: logo no início, antes do "Gonzaguizila" (invenção minha esse nome) surgir do oceano, a superfície da água vai turbilhonando-se e o agito produz uma onda que é praticamente uma citação da famosa A Grande Onda de Kanagawa (1830-1831), xilogravura de Katsushika Hokusai.

blog2020644640206.jpg

Seu Pinô, dono de um bar que vai enfrentar os monstros, tem todo um jeitão de um Merlin do Macuco que prepara poções mágicas em um caldeirão sobre o balcão de seu estabelecimento. Na Ponta da Praia, um pouco antes de enfrentar o polvo, Pinô retira do local um senhorzinho bem míope que estava pescando por ali e que acaba indo embora em uma lambreta italiana.


E isso para não falar da estante de Pinô na cena final, repleta de troféus conquistados em aventuras anteriores. Para citar apenas dois: estão ali a Jules Rimet e Excalibur.

Estante
Gustavo Duarte. Monstros!. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Ricardo Marques da Silva & Mauri Alexandrino. Sombras sobre Santos: o longo caminho de volta. Santos: Secretaria Municipal de Cultura, 1988.

Lídia Maria de Melo. Raul Soares, um navio tatuado em nós. São Paulo/ Santos: Pioneira/ Universidade Santa Cecília dos Bandeirantes, 1995.

Jorge Coli. "Da luz e da sombra". In.: O corpo da liberdade. Reflexões sobre a pintura do século XIX. São Paulo: Cosac Naify,  2010. 


 

 

Leia Mais
Arquivo da Estante Arquivo da Estante

Nos passos de Marcel Schwob ou A Cruzada dos Terraplanistas

Sonhei que via nas diligências que entravam e saíam
da usina nuclear de Civitavecchia o rosto de Marcel Schwob.
A visão era fugaz. Um rosto quase translúcido,
com os olhos cansados, apertado de felicidade e de dor.
Roberto Bolaño
 

O conflito político essencial pelo qual estamos passando – civilização versus fascismo – apresenta-se como uma baita oportunidade para a Literatura exercer seu papel de pensar o mundo. Deixo claro, em primeiro lugar, que não me refiro ao engajamento político de autores e autoras (decisão individual que deve ser respeitada), e muito menos a obras panfletárias que, com as devidas exceções, parecem-se mais a panfletos do que obras.


Pensei nisso após ler um miniconto de Cícero Gilmar Lopes sobre a pandemia, tema de um recente edital de instituição financeira para escritores. Em oito linhas narradas em primeira pessoa, um homem negacionista-cloroquinista-terraplanista reflete sobre suas ações após tudo ter passado. Gostei da feitura do texto, mas minha opinião importa pouco, gostaria de destacar o procedimento: Cícero, um homem da civilização, pôs-se a pensar seu contrário, não para torná-lo caricatura, mas para entendê-lo.


Em outras circunstâncias, foi exatamente o que fez Marguerite Yourcenar ao preparar o romance Memórias de Adriano, tema do texto anterior desta Estante, em que o imperador romano, na velhice, traça um panorama de sua vida.

Tanto o miniconto inédito quanto o romance aclamado exploram ficcionalmente um veio que é um verdadeiro campo de batalha literário: as biografias e os relatos pessoais, sucesso mundial com extremos de pura fofoca de um lado e painel social do outro, sempre com um protagonista à frente, verdadeiras odes ao individualismo (ou à individualidade, para não parecer tão crítico), alimentadas pelo interesse enciclopédico da modernidade.


Quem deu começo a essa brincadeira foi o francês citado no título, Marcel Schwob (1867-1905), autor de Vidas Imaginárias, de 1896, ainda no século XIX, em que – mostra-se aí o interesse enciclopédico – se utiliza de relatos e documentos antigos para dar corpo a uma série de biografados, reais ou imaginários. 


Jorge Luis Borges, conhecedor da obra de Schwob e ele mesmo autor de caráter enciclopédico (lembro aqui do Manual de Zoologia Fantástica), usa as mesmas ferramentas para escrever seus primeiros relatos ficcionais, os perfis de piratas, golpistas e foras-da-lei reunidos em História Universal da Infâmia, de 1934.

Borges é autor de um prefácio a A Cruzada das Crianças, também do autor francês, do mesmo ano das vidas imaginárias, em que o autor parte de relatos sobre grupos de crianças alemãs e francesas que formavam colunas em direção a Jerusalém durante as cruzadas. Schwob transforma esse material em uma série de relatos em primeira pessoa para dar luzes distintas ao episódio (que perdura de alguma forma na tradição do Flautista de Hamelin): “Sonhou assim, ser o papa, ser o goliardo, ser as três crianças, ser o clérigo”, diz o prefácio. 

Leitor de Schwob e de Borges (a quem dedica o texto O Bibliotecário Valente), o chileno Roberto Bolaño (1953-2003) publica em 1996 A Literatura Nazista na América, editado há somente dois anos no Brasil, no qual dá um passo além de Borges no caminho inaugurado pelo francês, reunindo perfis fictícios de todo o continente, todos ligados à ultradireita ou simpatizantes do autoritarismo. Bolaño, pessoa de esquerda (chegou a estar detido quando jovem por alguns dias após o golpe militar no Chile), consegue nessa obra nos fazer entender o autoritarismo e a violência política da América Latina por meio da criação imaginativa do outro. Nenhum dos “biografados” é uma caricatura.

O filósofo brasileiro que escreve refutações contra os autores iluministas, por exemplo, tem mais dignidade que o brasileiro autodeclarado filósofo que vive nos Estados Unidos (prontofalei). Já no perfil de Irma Carrasco vemos como a violência contra a mulher é ambidestra no nosso continente. Após defender Franco em um jantar com amigos e visitas, a mexicana católica monarquista apanha do marido comunista. 


Mais do que a caracterização das personagens, é a tensão crescente entre ficção e História que traça um jogo de sombras e luzes (e voltamos novamente ao texto sobre as Memórias de Adriano) que cria conhecimento da forma específica que só a Literatura pode fazer.


Quem hoje escreverá A Cruzada dos Terraplanistas?


Estante

Marcel Schwob. A Cruzada das crianças / Vidas Imaginárias. Tradução Dorothée de Bruchard. Introdução Marcelo Jacques de Moraes. São Paulo: Hedra, 2011.


Marguerite Yourcenar. Memórias de Adriano. Tradução Martha Calderaro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.


Jorge Luis Borges. Marcel Schwob. A Cruzada das crianças. In: Prólogos, com um prólogo de prólogos. Tradução Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. 


Jorge Luis Borges. Historia universal de la infamia. Buenos Aires, Argentina: Emecé, 1954.


Roberto Bolaño. La literatura nazi en América. Barcelona, Espanha: Seix Barral, 2008.


Roberto Bolaño. El bibliotecario valente. In: Entre parêntesis. Ensayos, artículos y discursos (1998-2003). Barcelona, Espanha: Anagrama, 2008 (1ª edição 2004).


Roberto Bolaño. Un paseo por la literatura. In: Tres. Barcelona, Espanha: Acantilado, 2009 (1ª edição 2000).

Escrevi sobre a questão da influência entre os textos de Schwob, Borges e Bolaño em O X da influência.

blog20205284213653.jpgblog20205284226498.jpg

 

 

Leia Mais
REPRODUÇÃO REPRODUÇÃO

Novas luzes dão novas sombras

Para Jeanice

Os gregos contam que Teseu recebeu de presente de Ariadne um fio.
Com esse fio Teseu se orientou no labirinto, encontrou o Minotauro
e o matou. Dos rastros que Teseu deixou ao vagar pelo labirinto,
o mito não fala.
Carlo Ginzburg

A frase é simples: “Deitei-me sobre um leito depois de me haver despojado do manto e da túnica”. Quem a profere é Adriano, imperador romano, na carta-testamento endereçada a Marco Aurélio, seu sucessor. Isso ocorre no romance Memórias de Adriano (1951), de Marguerite Yourcenar, em que a autora belga reconstrói a vida dessa figura histórica por meio do relato ficcional em primeira pessoa.

No final de sua vida, aos 60 anos, doente, Adriano decide contar sua trajetória, decisões e contingências ao amigo que iria substituí-lo, senão como guia, ao menos como reflexão. A frase está no primeiro parágrafo do livro, logo após o “Meu caro Marco”, sinal claríssimo de que nos encontramos com uma carta. Nesse ato de despojar-se do manto e da túnica para realizar um exame médico, vemos a transformação do imperador em homem, que Yourcenar busca conhecer.

O simbolismo da túnica, do manto – bem como dos tapetes – e suas cores é corrente na Antiguidade. No ensaio Apolo Trágico, Yourcenar lembra do tapete púrpura que Clitemnestra estende a seu marido Agamênon, líder dos gregos, após retornar vitorioso de 10 anos da Guerra de Troia. Travestido de homenagem, o tapete leva a uma armadilha na qual a rainha e seu amante assassinam o rei como vingança por ter sacrificado a filha Ifigênia, antes mesmo da guerra, para conseguir bons ventos que levasse as naus contra o inimigo.

“No alto, no banheiro do palácio, os amantes adúteros afiam seus punhais como hospedeiros decididos a sangrar o estrangeiro, pois depois de dez anos de guerra, glória e ausência, Agamênon é apenas um estrangeiro para o coração de Clitemnestra”.

O próprio gesto de despojar-se do manto e da túnica, claramente visível em nossas mentes, é também uma operação textual. Com essa frase, Yourcenar também nos avisa: “Caro leitor, cara leitora, aqui eu despojo Adriano do manto e da túnica da História e o deixo nu, nu apenas como a Literatura pode fazer”. Essa triangulação entre imperador, homem e personagem tece o fio pelo qual a autora se orientou pelo labirinto da ficção.

É aí que quero me deter, no caminho que ela trilhou. Para despojar-se da História, Yourcenar teve que conhecê-la a fundo, saber de tudo sobre a Antiguidade que fosse útil para a construção de seu monumento. Foi um trabalho que durou décadas e que reúne árdua pesquisa, achados, acasos, reflexões e momentos de desespero, uma metáfora para a pesquisa científica, principalmente a não utilitária, que descobre mundos, que vislumbra e transforma, um paralelo que ouso julgar útil nesses nossos tempos anticientíficos.

Ela mesma conta essa história no Caderno de Notas que acompanha o livro, uma espécie de arqueologia de sua própria escrita. A primeira nota dá o tom do rigor com que Yourcenar trata o próprio trabalho: “Esse livro foi concebido, depois escrito, no todo e em parte, sob diversas formas, entre 1924 e 1929, dos vinte aos vinte e cinco anos. Todos esses manuscritos foram destruídos, e mereciam sê-lo”.

Nesses primeiros anos, porém, Yourcenar já havia encontrado o motivo de sua busca, um trecho de uma carta de Flaubert sublinhado por ela em 1927: “’Os deuses, não existindo mais, e o Cristo não existindo ainda, houve, de Cícero a Marco Aurélio, um momento único em que só existiu o homem’. Grande parte de minha vida ia passar-se tentando definir, depois descrever, esse homem sozinho e, no entanto, ligado a tudo”.

O projeto é retomado entre 1934 e 1937. Desse período, uma frase apenas permaneceu: “Começo a discernir o perfil de minha morte”. É quando ela encontra o “ponto de vista do livro”. A passagem da visita ao médico, remanejado, vem dessa época. Até 1939, o trabalho pouco avança. Durante a II Guerra e até 1948, talvez reflexos desses anos, ela vê o projeto com “indiferença” e “desânimo”. E a nota seguinte: “Mergulho no desespero de um escritor que não escreve”.

Mas, para ficarmos com a metáfora, a pesquisa continua porque a vida continua: em 1941, Yourcenar encontra por acaso gravuras de Piranesi, entre as quais Vila Adriana (abaixo), de 1768. Novas luzes dão novas sombras: ela passa os anos seguintes contemplando diariamente a obra, apenas por gosto, sem dedicar-se a vinculá-la ao projeto: “Tais são os curiosos desvios daquilo a que chamamos esquecimento”. Também nunca deixou de ler autores da Antiguidade.

blog20201113154484.jpg

Escreve em 1943 o ensaio Mitologia grega e mitologia da Grécia em que, entre outros nomes, retrata Adriano como um mecenas que também buscava na Grécia um passado para sua Roma. No trecho a seguir desse texto, Yourcenar faz um breve histórico das relações entre a Grécia real e as Grécias imaginárias:

“... tal transfiguração já se produzira nos próprios gregos, o coro de Édipo em Colono, onde Sófocles contribui para a criação de uma Atenas lendária; na frisa do Partenon, onde os magistrados e recrutas quase não se distinguem dos deuses; no discurso que Tucídides empresta a Péricles e que faz de Atenas um lugar tão ideal quanto A República de Platão. Dessa Grécia de lenda, Pausânias será o turista, Plutarco o cronista, Adriano o mecenas benévolo”.

Em 1948, ela recebe de volta uma mala que havia deixado em depósito durante a guerra repleta de papéis de família e cartas velhas. Entre a correspondência com nomes que não mais importavam, ela encontra quatro ou cinco amareladas folhas datilografadas “Meu caro Marco...”. É o gatilho para retomar o texto: “Desde aquele momento, a questão era reescrever o livro, custasse o que custasse”.

Mais do que metáfora, talvez a literatura seja um espelho para a pesquisa científica. Dois caminhos em busca da verdade. É Marguerite Yourcenar mesmo que define:

“Refazer por dentro aquilo que os arqueólogos do século XIX fizeram por fora”.

blog20205812805.jpg

Pós Escrito
A fala em que Clitemnestra convida Agamênon a entrar no palácio (armadilha?) está na tragédia Agamemnon, de Ésquilo. O rei está reticente, não quer a homenagem, mas é convencido pela rainha:

“Não baste o muito que sofremos! Nada
de inveja! Agora, caro amigo, desce
do carro, sem pousar o pé no chão,
funesto à Tróia. Ó rei! O que esperais,
ancilas? Não mandei forrar a trilha
de seu percurso com alfombras rútilas?
Que a sua senda tinja-se de púrpura,
E Dike, a Justa, o leve ao lar sonhado!
Hipnos não dobra a mente que ao destino
Conduz o resta, reta. E o nume anui.”

Estante
Marguerite Yourcenar. Memórias de Adriano. Tradução Martha Calderaro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

Marguerite Yourcenar. Mitologia grega e mitologia da Grécia. In: Peregrina e estrangeira. Ensaios. Tradução Myriam Campello. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.

Ésquilo. Agamemnon. Tradução, introdução e nota Trajano Vieira. São Paulo, Editora Perspectiva, 2007.

 

 

Leia Mais
  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: sexta-feira, 08 mai 2020 18:59Atualizado em: sexta-feira, 13 nov 2020 11:15
REPRODUÇÃO REPRODUÇÃO

Corujinha Bubu e Umberto Eco: Falso, mentira e invenção

No fundo, o primeiro dever da pessoa de cultura
é o de manter-se alerta para reescrever a cada dia a enciclopédia.
Umberto Eco
                                               

Quem gosta de documentários sobre vida selvagem já deve ter visto imagens de pássaros pousados tranquilamente dentro de escancaradas bocarras de crocodilos. Estão ali se alimentando de restos de comida presos entre os dentes dos répteis que, em troca da higiene bucal, nada fazem contra as aves.


I
No episódio Operação Resgate da série de animação infantil Bubu e as Corujinhas, Bubu, uma coruja criança passeando na mata com seu irmão e sua irmã, chega à margem de um rio e depara-se com um crocodilo de boca aberta com um passarinho ali dentro.

Bubu, que deve nunca ter visto um documentário sobre vida selvagem, chega à conclusão de que o pássaro está em perigo e convence os irmãos a participar de um plano de resgate, daí o título do episódio. A aflição de Bubu é tanta que, além dos irmãos (sua irmãzinha é tão pequena que ainda está com a casca de ovo entre as pernas como uma fralda) envolve também o macaco, a girafa e outros bichos na operação.

Ao final, a corujinha acaba aprendendo que o que parece às vezes não é. É a mãe de Bubu que dá a lição: “Corujinhas, a intenção de vocês foi boa, mas é preciso muito cuidado para não espalhar alarmes falsos. Vocês poderiam ter assustado muitos animais. Nunca devemos contar algo sem termos certeza de que é uma verdade”.

A fala acima parece ter sido escrita para alertar as crianças desde bem pequenas a não repassar notícias falsas ou boatos. Não é à toa que o episódio, da temporada de 2018, concorreu naquele ano a melhor curta de animação no Festival Internacional de Animação Ajayu, realizado em Puno, Peru.

II
Em A Força do Falso, Umberto Eco discorre sobre os motivos que forjaram tal força. Talvez o principal seja o erro, “motor de muitos eventos da história”, como no caso de Bubu ou no “descobrimento” da América por Colombo quando buscava as Índias navegando para o Ocidente. Mas o que ocorre quando a falsa mensagem é fruto da elaboração intencional?

Não faltam falsos inventados, como as Memórias para servir à história do jacobinismo, escritas entre 1797 e 1798, em que o abade Barruel, ao invés de tratar a Revolução Francesa como resposta ao Ancién Regime, inventa como causa um complô dos Templários envolvendo Voltaire, Turgot, Condorcet, Diderot e d’Alambert (os caras da Enciclopédia), confundindo iluministas com iluminatti.  Já no século XIX, esse manuscrito seria usado pelo romancista Eugène Sue em Os mistérios do povo (1849), em que o mesmo complô ganha nova dimensão, com os jesuítas no lugar dos iluministas e o clero como alvo da revolução. Alguns anos depois, em 1864, Maurice Joly publica Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu, no qual, ainda conforme Eco, o conspirador principal passa a ser Napoleão III. Esse é o momento dos libelos caluniosos ou mesmo fantasiosos, e o público meio que consegue se equilibrar com um pé na canoa da fantasia e outro na canoa do complô.

A coisa começa a se complicar quando os libelos passam a ser tomados por crônicas de fatos reais. E isso passa a ocorrer nas últimas décadas do século XIX, momento de ascensão do antissemitismo em que os conspiradores passam a ser identificados como judeus (para lembrar, era a época do icônico caso das falsas acusações do caso Dreyfus). Na Rússia, Pëter Ivanovich Rakovsky, um revolucionário ligado ao terrorismo de extrema-direita, reescreve o diálogo para acusar Elie de Cyon, inimigo político de seu protetor, e pronto: a conspiração judia está pronta.

Eco considera como o texto de Rakovsky é provavelmente a principal matéria-prima dos Protocolos dos Sábios Anciões do Sion, recheados também de romances populares franceses, mas que foi levado a sério e publicado por Serguei Nilus, um monge “obcecado pela ideia do Anticristo”. O resto é história: “Depois disso o texto viaja através da Europa até chegar às mãos de Hitler...”.

Em outro texto, o intelectual italiano alerta que mais perigoso do que figuras como Rakovsky ou Nilus é o fato de que se acredita neles: “Que um aventureiro ou aventureira teçam intrigas, ora sendo desmascarados, ora obtendo vantagens, é normal. Mas que uma pessoa presumivelmente de inteligência mediana, com deveres políticos e religiosos, se deixe convencer por tais intrigas, fascinada, obnubilada, e consiga passar à história como monumento de imbecilidade, isso não cessa de preocupar-nos”.

Quando a inteligência mediana sucumbe, temos o fascismo. Em O fascismo eterno (Ur-fascismo), originalmente uma conferência de 1995, Eco é claro: “O Ur-fascismo provém da frustração individual ou social. O que explica porque uma das características típicas dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. Em nosso tempo, em que os velhos “proletários” estão se transformando em pequena burguesia (e o lumpesinato autoexclui-se da cena política), o fascismo encontrará nessa nova maioria o seu auditório”.

Auditório creio ser mesmo a palavra mais adequada para o contínuo deslocamento do discurso do líder fascista, pois “os inimigos são, ao mesmo tempo, fortes demais e fracos demais”. Exemplo disso é como o presidente do Brasil trata a pandemia de COVID-19, ora uma gripezinha, ora uma doença que necessita de um canhão químico como a cloroquina. E mesmo a solução do canhão, ainda que aponte para essa esquizofrenia do discurso, ela mesma deriva do “pensamento mágico” (expressão usada pela historiadora Lilia Schwarcz em entrevista sobre a doença) de que há uma solução simplista anunciada pelo grande líder.

Voltando a Eco: “Em nosso futuro desenha-se um populismo qualitativo TV ou internet, no qual a resposta emocional de um grupo selecionado de cidadãos pode ser apresentada e aceita como a ‘voz do povo’”.

III
Perpassa por praticamente todos os textos ensaísticos de Eco a ideia de Literatura como uma chave de compreensão do mundo. Nesse cenário de multiplicação do falso e do engano por meio do rebaixamento da inteligência mediana, a Literatura torna-se também antídoto. Ao conhecer ou pelo menos ter contato com os mecanismos narrativos da invenção, criamos em nossos cérebros anticorpos retóricos capazes de identificar ou pelo menos suspeitar de falsas promessas, falsas notícias e falsas esperanças, bem como falsos apocalipses.

“A função dos contos ‘imodificáveis’ é precisamente esta: contra qualquer desejo de mudar o destino, eles nos fazem tocar com os dedos a impossibilidade de mudá-lo. E assim fazendo, qualquer que seja a história que estejam contando, contam também a nossa, e por isso nós os lemos e os amamos. Temos necessidade de sua severa lição ‘repressiva’. A narrativa hipertextual pode nos educar para a liberdade e para a criatividade. É bom, mas não é tudo”. Os contos ‘já feitos’ nos ensinam também a morrer.”

“Creio que esta educação ao Fado e à morte é uma das funções principais da literatura. Talvez existam outras, mas não me vêm à mente agora”.

Estante
Umberto Eco. A força do falso & Sobre algumas funções da literatura. In: Sobre a literatura. Tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Record, 2003.

Umberto Eco. Entre a mentira e a ironia. Tradução Eliana Aguiar.Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2003.

Umberto Eco. O fascismo eterno. In: Cinco escritos morais. Tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2003.

100 dias que mudaram o mundo. Entrevista com a historiadora Lilia Schwarcz
https://www.uol.com.br/universa/reportagens-especiais/coronavirus-100-dias-que-mudaram-o-mundo/#100-dias-que-mudaram-o-mundo

Operação Resgate. Episódio de Bubu e as Corujinhas
https://www.youtube.com/watch?v=gHNT7yKgik0

 

 

Leia Mais
  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: segunda-feira, 13 abr 2020 14:16Atualizado em: sexta-feira, 13 nov 2020 11:20
REPRODUÇÃO REPRODUÇÃO

Não negociamos vidas, capitão!

Morrer bem jovem é um erro. Morrer bem velho, também. Em geral, morrer é sempre um erro. O mal é que se poderia dizer o mesmo a respeito de viver
                                                                                                                       Joan Fuster

O título da Estante desta semana veio do filme Vingadores – Guerra Infinita. É uma fala de Visão dirigida ao Capitão América. Visão, ferido e afastado da luta pelo líder dos Vingadores, volta ao combate a tempo de salvá-lo de um golpe mortal desferido por Thanos (Thanatos é morte em grego). No filme, a fala demonstra o esforço do cuidado recíproco; aqui na Estante, uma interjeição contra aqueles que afirmam que há mortes aceitáveis para que a economia continue andando.

I
Escrevi já algumas vezes sobre Gonçalo Tavares, escritor português nascido em Angola em 1970 e que já esteve duas vezes por aqui a participar do Festival Tarrafa Literária. Autor já de dezenas de livros apesar da pouca idade, é dele a série O Reino, de títulos como Aprender a Rezar na Era da Técnica ou A Máquina do Senhor Walser, romances em que personagens arquetípicos são afetados pelo totalitarismo técnico e político, pela ditadura e a guerra civil em um incerto país europeu em uma incerta data, ainda que atual.

Essa série se desenvolve em um ambiente literário que lembra um pouco Franz Kafka e um pouco Robert Musil, autor de O Homem sem Qualidades. Em Aprender a Rezar na Era da Técnica, por exemplo, um médico busca controlar o país com a precisão cirúrgica de seu punho, uma metáfora da técnica macabra que define como se dão as relações sociais no mundo administrado.

II
Se em O Reino nos deparamos com metáforas incertas, o punhal literário de Tavares torna-se mais contundente para os tempos de hoje em Os velhos Também Querem Viver, adaptação da peça Alceste, de Eurípedes. Nessa novela-poema, o incerto país ganha corpo: a trama se desenrola em Saravejo, capital da Bósnia, durante o cerco à cidade, quando Admeto, o protagonista, recebe um tiro na cabeça. Protegido pelo deus Apolo, Admeto ganha a chance de sobreviver se outra pessoa se dispuser a morrer em seu lugar. E é Alceste, sua esposa, que se oferece, daí o título da peça original.

Na adaptação do português, o peso da história – sua moral –, como indica o título, é inclinado em direção àqueles que não se sujeitam ao sacrifício, os próprios pais de Admeto. E a justificativa é mesmo uma apunhalada literária:

“Se os novos gostam de viver, os velhos também.
E por que razão a vida de um velho valeria menos
do que a vida de alguém que agora começa?
Que cálculos absurdos são esses?
E por que não o contrário?
Por que não proteger a sabedoria dos muitos anos,
em vez da excitação do jovem que ainda quer conhecer?”

III
Para encerrar, dois poemas de Gonçalo Tavares do livro 1 que servem de reflexão sobre os dias:

OS MORTOS

Não há mortos que morram tanto como os nossos.
Se um daqueles que nos pertencem morre sete
ou setenta vezes no coração,
de quem apenas ouvimos falar morre uma vez, na sua data,
e os que sempre viveram longe
morrem-nos metade ou um oitavo. E metade
de uma morte é quase nada, são casas
decimais no sofrimento. (Que digo? Milésimas, milésimas!)

OS GRUPOS

Mas é estranho isto, e receio o que a vida vai
Fazendo de mim sem a minha autorização.
Com 18 anos adorava mesas grandes, divertia-me,
Via no grupo movimentos e excitações que
Não chegava sozinho. Como se a alegria entre
Vinte pessoas fosse uma língua que um ser vivo
Isolado não conseguisse formular.
Não morrerei ignorando essa língua, mas agora
Fujo dela: cinco pessoas numa mesa me assustam
Como um assalto: dá-me!, sinto que dizem,
E a expectativa dos outros em relação à frase,
Ao silêncio ou à minha imobilidade,
Encosta o frio à camisa que trago,
Como o punhal discreto de um bom assaltante.
Não gosto de grupos, de aglomerações intermédias
Entre a amizade e o exército. A amizade faz-se de um
Para um, por vezes de dois para um; em matéria de sinceridade
O número quatro assusta-me.

Estante
Gonçalo M. Tavares. Aprender a rezar na era da técnica. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

Gonçalo M. Tavares. Os velhos também querem viver. Rio de Janeiro: Editora Foz, 2014.

Gonçalo M. Tavares. 1 – Poemas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005. 

 

 

Leia Mais
  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: sexta-feira, 03 abr 2020 18:06Atualizado em: sexta-feira, 13 nov 2020 11:23
<< Página Anterior       Página Posterior >>
Sobre
Blog de crítica literária. Alessandro Atanes é autor do livro "Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos", também traduz, compõe e toca guitarra. De profissão jornalista, tem mestrado em história social (USP, 2008) e é servidor público municipal de Cubatão desde 1999.