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Dois nascimentos, duas mortes e um pequeno navio

“A esperança pertence à vida, é a vida mesmo se defendendo”
Julio Cortázar
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Duas personagens: um operário e um médico. Os dois usam as mãos: um, estivador, carrega cargas; o outro, cirurgião, empunha um bisturi. Suas existências ocorrem no vasto terreno da literatura escrita em língua portuguesa, distantes entre si no tempo e no espaço.


O operário é José Severino de Jesus, protagonista do romance Navios Iluminados, de 1937, do escritor sergipano Ranulfo Prata (1896-1942), médico de profissão que conta a história da personagem, um migrante do sertão da Bahia que foge da seca em busca de trabalho no porto de Santos. O próprio autor viveu em Santos de 1927 até sua morte, tendo trabalhado como radiologista da Santa Casa e outros serviços médicos.

O cirurgião é Lenz Buchmann. Ele é o protagonista do romance Aprender a rezar na era da técnica, de 2007, do escritor português Gonçalo M. Tavares, nascido em 1970, também professor, que localiza sua história em uma indeterminada cidade europeia. Em Aprender a rezar... é o protagonista, não o autor, que exerce a medicina. Insatisfeito com tratar individualmente as pessoas, Lenz decide aplicar sua mão precisa de cirurgião na condução da administração pública, entrando para a política. O próprio autor já esteve em Santos por duas vezes como autor convidado do Festival Tarrafa Literária.

I Dois nascimentos
Serem as duas personagens bem diferentes entre si não impediu que suas trajetórias fossem análogas , mesmo com uma diferença de 70 anos entre a publicação dos dois livros. As duas histórias começam com um nascimento simbólico e terminam – não se importe com spoiler – com a morte dos protagonistas.

Na primeira frase do romance de Ranulfo Prata, o nascimento é representado pela ação de abrir os olhos: “José Severino, com o hábito que tinha de madrugar, abriu os olhos ainda com o escuro”. Ele estava há poucos dias em Santos, ainda em busca de emprego e, como acompanhamos ao longo da leitura, sem o mínimo traquejo para a vida na cidade grande.

No romance de Gonçalo, o nascimento se dá por um ritual de passagem para o mundo adulto que instaura a perversidade em Lenz. O próprio primeiro capítulo do livro chama-se “O adolescente Lenz conhece a crueldade” e o texto começa da seguinte maneira: “O pai agarrou nele e levou-o ao quarto de uma empregada, a mais nova e a mais bonita da casa. – Agora vais fazê-la, aqui, à minha frente”.

Nos dois casos, as primeiras linhas reforçam a ideia inicial. Em Navios Iluminados a visão vai se ampliando, os olhos de José Severino se aguçam e vasculham o cômodo da pensão durante o nascimento de um novo dia, revelando objetos, móveis e roupas penduradas em pregos pelas paredes. Em Aprender a rezar..., não vemos nada, nada se expande, o que ocorre é a repetição da mantra perverso “vais fazê-la”, “vais fazê-la”: “Estas palavras do pai marcaram Lenz durante anos. Vais fazê-la”.

II Duas vidas
Um luta pela sobrevivência: busca emprego na cidade grande, endivida-se para conseguir documentos, enfrenta condições insalubres de trabalho, tenta enviar dinheiro para a mãe no sertão. O outro entedia-se: não se importa com o destino dos pacientes, observa radiografias como se lesse relatórios, aproveita a posição social para praticar jogos perversos com pessoas humildes e a própria esposa.

Tão diferentes entre si, os dois esbarram no destino comum, a doença. José Severino de Jesus enfim conquista a vaga na estiva, está casado e com dois filhos pequenos, a vida começa a lhe sorrir. E então um mal estar, uma cuspida de sangue e os primeiros sintomas da tuberculose, sua vida desmorona. Lenz Buchmann torna-se um membro importante do partido, todos o veem com uma carreira brilhante na política, seus objetivos começam a ser alcançados. E então, dores de cabeça, uma bateria de exames e a visão de pontos negros por todos os lados da radiografia de seu próprio cérebro.

III Duas mortes
Nem o médico nem o estivador vencem a doença e tanto Ranulfo Prata quanto Gonçalo Tavares encerram seus livros narrando o último momento de cada um dos protagonistas. Lenz Buchmann morre sob a luz da televisão acesa:

“Estava, pois, só: Lenz Buchmann, deixado para trás, sozinho, com os seus olhos. A luz, essa, não parava de o chamar. Queria sentir ódio, mas não conseguia. Ela tranquilizava e chamava-o.

Depois talvez tenha existido uma pausa e de novo da televisão veio uma luz forte que o chamou pelo nome. E agora ele foi; deixou-se ir.”

José Severino de Jesus morre buscando ver:

“Nessa mesma madrugada, ali pelas três horas, Severino despertou, angustiado, dispneico, umedecido de suor, o coração num galope furioso.

Ergueu o busto para facilitar a respiração e puxou as cobertas até o pescoço, porque parecia estar no armazém-frigorífico – trinta graus abaixo de zero.

(...)
A aflição crescia, comprimindo-lhe o peito, lenta, progressiva, asfixiante. Derrubou-o, por fim, num desmaio.

Permaneceu alguns instantes prostrado, inerte, silencioso.

Voltou a si, de novo, e a agonia recomeçou, sempre calma e suave. O suor dava-lhe um banho total. As asas do nariz batiam, desesperadas, querendo ar.

Agora, com a certeza do fim, veio-lhe a conformidade: seria o que Deus quisesse; estava por tudo. Uma doce paz interior quase o acalentava.

A opressão, porém, não dava tréguas, cada vez mais intensa, arrochando-o sem dó nem piedade.

O coração, de tão apertado, começou a enfraquecer, extinguindo-se pouco a pouco.

De repente, uma tontura maior fê-lo oscilar e, antes de desfalecer, pôde ainda lançar a vista pelo quarto, apanhando, de golpe, a cabeceira da cama dos gêmeos e o Esperança, pendente da parede defronte.

Então, seus olhos embaciados viram bem o veleiro crescer, agigantar-se, iluminando-se todo.

E nele Severino partiu para a sua última viagem...”.

Epílogo
O pequeno navio
Gonçalo M. Tavares e Ranulfo Prata escreveram as passagens que concluem suas obras de forma análoga: a chegada do momento final, o estranhamento e a aceitação, o deixar-se ir. A diferença, e que diferença, está nos objetos que acompanham no momento derradeiro. Em Aprender a rezar na era da técnica é uma televisão; em Navios Iluminados, uma maquete de veleiro esculpida em madeira, chamado Esperança, um presente que Severino havia recebido de um colega de trabalho.

Em seus cadernos pessoais de antes da II Guerra Mundial, Albert Camus, ainda jovem, escreve em 1937 sobre a esperança (por coincidência, o ano de publicação de Navios Iluminados). A guerra ainda não havia eclodido, porém o autor franco-argelino já havia sido diagnosticado com tuberculose, assim como Severino, e, ainda assim antecipa algo próximo à ideia de Julio Cortázar lá da epígrafe: “e, mesmo em meio a essa tristeza em mim, que desejo amar e que êxtase ante a simples vista de uma colina no ar da noite”. Essa e outras anotações foram reunidas em um volume chamado justamente Esperança do mundo.

Camus morreria em 1960, mas não foi de tuberculose, e sim devido a um acidente de carro, o acaso que ronda todos nós; Lenz morre sob a luz de um aparelho após tentar controlar a vida dos outros, Severino morre olhando uma escultura após tentar simplesmente sobreviver: “é a morte que dá ao desafio e ao heroísmo seu verdadeiro sentido”, escreve Camus em outro trecho de suas notas.

Estante
Ranulfo Prata. Navios Iluminados. São Paulo: Edusp / COM-ARTE, 2015 (1ª Ed 1937).
Gonçalo M. Tavares. Aprender a rezar na era da técnica. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
Albert Camus. Esperança do mundo: Cadernos (1935-1937). São Paulo: Hedra, 2014.

Mais sobre Navios Iluminados:
Alessandro Atanes. Ranulfo Prata & Navios Iluminados.
A
lessandro Atanes. História e Literatura no Porto de Santos: o romance de identidade portuária "Navios Iluminados". Dissertação em História Social. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo, 2008.

Ouça o trecho completo da cena final de Navios Iluminados em aúdio feito para a 10ª Tarrafa Literária, que homenageou Ranulfo Prata:

 
 

 

 

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Sobre
Blog de crítica literária. Alessandro Atanes é autor do livro "Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos", também traduz, compõe e toca guitarra. De profissão jornalista, tem mestrado em história social (USP, 2008) e é servidor público municipal de Cubatão desde 1999.