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A gripezinha, o real e a espessura da piada

Após algumas semanas sem textos devido aos afazeres jornalísticos relacionados à pandemia, a Estante volta à carga com o lançamento de (mini) histórias de uma gripezinha, de Marcus Vinicius Batista.

Originalmente publicados em redes sociais desde o início da nova peste, os relatos parecem não deixar escapar um aspecto sequer da vida cotidiana sob isolamento. Mais do que sobre a doença, lemos sobre a vida social e as relações de força que moldam a convivência entre as pessoas.

Começo pela apresentação da escritora Beth Soares. Beth e Marcus formam um casal e estão juntos à frente da editora Ateliê de Palavras, por onde foi publicado o livro com ilustrações de Kitty Yoshica. Assim escreveu Beth: "... a arte, ao apontar o incômodo constrangedor da realidade ou provocar o riso diante de adversidades bastante complexas, segue prestando seu papel essencial de nos permitir saborear com algum prazer - e até tentar digerir - o prato agridoce de nosso próprio tempo".

Aos meus ouvidos, o texto de Beth ressoa as palavras da ensaísta argentina Beatriz Sarlo que têm acompanhado minhas pesquisas nos últimos anos: "A literatura, é claro, não dissolve todos os problemas colocados [pela reflexão sobre a sociedade], nem pode explicá-los, mas nela um narrador sempre pensa de fora da experiência, como se os humanos pudessem se apoderar do pesadelo, e não apenas sofrê-lo". Digerir / apoderar-se; prato agridoce / pesadelo. A Estante de hoje caminhará entre o fundo comum e as dessemelhanças entre as duas sentenças.

I Ficção e reflexão
Na soma das histórias, Marcus Vinicius desvela mais mesquinharia do que generosidade, ainda que sob uma leve (agridoce) ironia. O autor aguça a vista em direção às reações humanas de adaptação, negação, a automentira e o autoengano, o individualismo e a desmedida. Nada escapa desse movimento de descoberta: home-office, aulas on line, o impacto do isolamento nas famílias e entre casais, os conflitos entre vizinhos, o trabalho de profissionais de Saúde.

As afirmações de Beth Soares e Beatriz Sarlo nos levam a pensar a ficção como local privilegiado de reflexão sobre a sociedade. Carregam implícita a elaboração de certo distanciamento - não o socieal, mas o de perspectiva. E esse distanciamento - em última instância, o mecanismo que permite o humor e a ironia em meio à desgraça - é ele mesmo uma construção literária ou provocado por ela.

Como isso ocorre? A resposta com que trabalho é dada pelo teórico Luiz Costa Lima, que trata a construção ficcional como um contributo ao real que forma uma camada, uma "espessura" (amo essa expressão tão concreta e significativa). Tal espessura ficcional sobre o real, explica o professor, é resultado de um vetor de diferença - a criação individual - que age sobre um fundo de semelhança - a sociedade, a vida comum.

Assim, acrescento eu, são as características da espessura - sua dureza ou maleabilidade, sua amplitude ou contundência - que definem a relação do inventado com o real.

II As invenções literárias
Lembro disso tudo porque os melhores momentos do livro ocorrem quando o autor põe em funcionamento a maquinação textual e os artificios literários, isto é, quando o vetor da invenção está em força plena.

Logo na primeira mini-história (confira abaixo) isso ocorre pelo posicionamento em oposição de seus dois únicos parágrafos, no caso, a adaptação ao isolamento social. O primeiro mostra a vida produtiva e as competências profissionais por meio do trabalho em casa. Ele termina assim: "O home office era seu terrono fértil, símbolo do sucesso como consultora". Logo em seguida, abrindo o segundo parágafro, a frase "Ontem à tarde, veio a crise", isto é, o lado B do home office, o medo do contato com os vizinhos cuja proximidade dá-se pelo ouvir de passos no corredos do prédio. O que era certeza ao final do primeiro parágrafo passa a ser dúvida no encerramento do bloco: "O que dizer àquela senhora se eu abrisse a porta?".

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Outra história que trabalha com simetria é a 42, dessa vez em três parágrafos em que as mesmas ações de uma gata são narradas repetitivamente: o primeiro no passado, o segundo no presente e o terceiro no futuro, resumidos pelas palavras ontem, hoje e amanhã e demarcados pelo uso do tempo verbal correspondente.

Outro mecanismo é o uso de construções verbais comuns para situações do dia-a-dia que acabam contaminadas (é essa a melhor expressão, não?) pela covid. Como na história 2, em que a socialização automática entre vizinhos de falar do clima ganha a companhia do novo assunto: "... falou do clima, do vizinho que deu positivo e caminhou em direção à rua". E o mesmo repete-se na fila do banco da história 20: "... falavam do clima e da pandemia".

Algo parecido acontece com o casal da história 22. Eles se conhecem numa farmácia: "Ela, atrás de cloroquina. Ele, atrás de um amor". Após três meses, ela termina o namoro justificando que o problema era ela mesma, não ele, uma "resposta do antigo normal".

Na história 47, a de um carrinheiro morador de rua, o uso de marcações de passagem do tempo faz a doença revelar o substrato brutal da sociedade brasileira: "Assim, sobreviveu a quatro meses de pandemia. Assim, sobrevive há seis anos da epidemia social desde sempre". Essa ideia de "há seis anos desde sempre" conta muito sobre o Brasil.

Na 30, a elaboração textual mimetiza a ansiedade da personagem em frases curtas e ritmadas: "Ele se sentou na sala de espera. Pensamentos que ficam. Toma cloroquina. Descarta cloroquina. Toma remédio para piolho. Coça a cabeça. Descarta remédio para piolho. Usa máscara. Ignora máscara. tosse. Coloca a mão na boca. Álcool em gel. Sente falta de ar. Crise de ansiedade. Siontoma do COVID-19".

Nas histórias 54 e 55, acompanhamos dois exemplos de como as próprias personagens reconhecem o potencial narrativo da pandemia. Na 54, uma mulher diz que tem covid e precisa estar em isolamento para despistar um pedido de encontro: "- Risco de contágio. Temos que respeitar a epidemia. Te ligo. Beijo!". Na seguinte, uma situação um tanto inusitada em que um homem obcecado pelo uso da máscara sai do apartamento com o equipamento de proteção, mas apenas de cuecas. É o policial em frente ao supermercado que vem com a tirada ao prendê-lo: "- Atentado violento ao novo normal."

III A piada
Já que estamos tratando de formas narrativas, os textos curtos de Marcus Vinicius permitem emular também o formato da piada. É a história 33, cuja estrutura superconhecida é a do homem que tenta registar o filho no cartório com um nome esdrúxulo. No caso, Coronga.

Conversando com a esposa no quarto do hospital, ele detalha a conversa com os funcionários do registro, que não aceitam Coronga por estar errado e, no lugar, sugerem Corona. O homem não aceita: "Coronga é histórico. Corona é chuveiro. O moleque seria muito zoado na escola. Temos que pensar nisso".

E o diálogo final:
"- Verdade. E como ficou?"
"Jair."

Epílogo
O nome do presidente funciona na piada como a manifestação do Real na interpretação que o filósofo esloveno Slavoj Žižek faz de Lacan. É aquilo do que não podemos escapar, daí o riso, ainda que dolorido, porém revelador de toda a eficácia da elaboração ficcional sobre o real.

O próprio Žižek costuma se utilizar de piadas e outras formas narrativas, principalmente o cinema, para tratar das questões do mundo atual. Em sua homenagem, ao filósofo, um meme que encontrei nesses dias que utiliza o mesmo final da mini-história 33:

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Estante
Marcus Vnicius Batista. (mini) histórias de uma gripezinha. Ilustrações Kitty Yoshika. Apresentação Beth Soares. Santos: Ateliê de Palavras, 2020.

Beatriz Sarlo. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. Tradução Rosa Freire D'aguiar. São Paulo / Belo Horizonte: Companhia das Letras / Editora da UFMG, 2007.

Glyn Daly e Slavoj Zizek. Arriscar o impossível: conversas com Žižek. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

 

 

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Sobre
Blog de crítica literária. Alessandro Atanes é autor do livro "Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos", também traduz, compõe e toca guitarra. De profissão jornalista, tem mestrado em história social (USP, 2008) e é servidor público municipal de Cubatão desde 1999.