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De Penélope e Ulisses a Meg Ryan e Tom Hanks

Você não quer estar apaixonado.
Você quer estar apaixonado em um filme.
Sintonia de amor
__________________________

Sabe-se pouco sobre Cáriton de Afrodísias, que deve ter escrito Quéreas & Calírroe no século I. O “deve” acima deve-se a que não há certeza sobre a data exata de sua composição. A tradutora da obra, Adriane da Silva Duarte, conta que 100 anos atrás os estudiosos consideravam ter sido o livro publicado entre os séculos IV e V depois de Cristo.

I Presente
A mudança se deve a uma “reviravolta” ocasionada pela “descoberta de papiros, estudos de fragmentos de obras perdidas e o avanço na análise das relações intertextuais entre os romances gregos” produzidos nesse intervalo de cerca de 400 anos. “Alguns estudiosos, com destaque para Tilg, consideram Cáriton o ‘inventor’ do romance romântico (ideal Love novel) e Quéreas e Calírroe, o texto arquitípico dessa produção. Stefan Tilg, explica a tradutora em nota, publica em 2010 o estudo Cáriton de Afrodisías e a Invenção do Romance Grego de Amor”.

Mas o que isso interessa? Esse deslocamento aponta para a formação de um gênero literário, o romance, que chegaria à posição hegemônica somente na modernidade, em especial com o Realismo e o Naturalismo do século XIX. Será que sem Cáriton não haveria Flaubert, Jane Austen e Machado de Assis?

Aqui talvez caiba a diferenciação que Eric Auerbach faz entre o romance antigo e o romance moderno: enquanto este trata de forma “séria, problemática e trágica” qualquer personagem não importando sua condição social (por exemplo, Os irmãos Karamazov de Dostoiévski), naquele isso é “totalmente impossível”. Auerbach se refere especificamente ao registro cômico do banquete de Trimalcião de Petrônio, mas serve também, no registro oposto, à história de amor entre jovens de famílias nobres do romance de Cáriton.

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II Futuro
Cáriton, talvez nem mesmo seja esse seu nome. A tradutora Adriane da Silva Duarte destaca que o nome deriva do grego "charis" (graça, beleza, encanto) e apresenta "Senhor encantador da cidade do amor" como significado do pseudônimo. Numa paráfrase: Gracinha Afrodisíaca.

Porém, a diferença que Auerbach aponta entre o romance antigo e o romance moderno só pode ser medida pelo que os dois subgêneros mantém em comum.

Acompanhamos em Quéreas & Calírroe as peripécias de um jovem casal apaixonado. Praticamente dá para imaginar William Shakespeare lendo o romance e imaginando, na chave cômica ou na trágica, as peripécias de casais em Romeu e Julieta, Othelo, Muito Barulho por Nada, A Comédia dos Erros, desventuras e reviravoltas que, bem mais recentemente, ecoam nas comédias românticas de todo tipo.

III Passado
Por outro lado, ainda que obra primeira de um novo gênero, Quéreas & Calírroe é construída sobre a grande tradição da poesia épica grega. Assim como define um caminho para o futuro, é também herdeira do que veio antes, principalmente Homero.

Isso é facilmente perceptível na tradução de Adriane da Silva Duarte. A oralidade de poesia grega e sua linguagem elevada estão ali. E a edição da Editora 34 localiza uma série de citações diretas à obra de Homero e outros já clássicos por meio do uso do itálico ou mesmo com a frase destacada entre parágrafos (ver imagem), sempre seguidas de notas indicando o original.

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O caso aqui destacado ocorre quando Quéreas, após já uma série de desventuras, ouve de um concorrente, digamos assim, indiretas sobre os reais sentimentos de Calírroe (Iago de Othelo, não é?) e suas possíveis bodas com outro homem, episódio que repete a cena do Canto XV da Odisseia, em que o mesmo se diz de Penélope, cortejada por muitos enquanto aguarda o retorno de Ulisses.

“Sabes o coração que bate na mulher:
só quer enriquecer a casa do consorte,
não lembra nem procura os filhos das primeiras
núpcias, já olvidada de seu ex, defunto”.

Os livros conversam entre si, como li em Umberto Eco citando Jorge Luis Borges.

Estante
Cáriton de Afrodísias. Quéreas & Calírroe. Tradução, apresentação e posfácio Adriane da Silva Duarte. São Paulo: Editora 34, 2020.

Homero. Odisseia. Edição bilíngue. Tradução, posfácio e notas de Trajano vieira. São Paulo: Editora 34, 2014.

Eric Auerbach. Fortunata. In: Mimesis: a Representação da realidade na literatura ocidental. São Paulo: Perspectiva, 2007 (1ª edição 1946).

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Homenagem a Maria Valéria Rezende ou a paixão pela leitura

... que prazer extraímos ou que proveito tiramos ao percorrer
com os olhos essas inumeráveis linhas em letra de imprensa?
Virginia Woolf

A pergunta acima é feita pela autora inglesa ao final do primeiro parágrafo do ensaio A paixão da leitura, no qual Woolf defende a leitura como uma atividade interessada e de responsabilidade. Para ela, a “paixão” do título é desfrutada apenas quando a leitura é feita com dedicação. Estamos aqui infinitamente distantes da relação comercial e de propriedade, ou respeitamos o livro que está em nossas mãos ou nenhuma riqueza ou prazer ele nos trará: “Não devemos impor-lhe nosso plano, não devemos tentar fazer com que sua vontade se conforme à nossa”.

Os grandes livros requerem “frequentes e heroicos esforços” por parte do leitor, não por dificuldades sintáticas ou gramaticais, mas porque “precisamos de toda a imaginação e compreensão se quisermos tirar o máximo proveito daquilo que eles podem nos oferecer”.

I Escrita e leitura como reconstrução
É com essa leitura engajada que faço o convite para abrirmos os livros de Maria Valéria Rezende, autora homenageada na edição de 2019 no Festival Tarrafa Literária, que teve como tema a literatura, tanto a leitura quanto a escrita, como ato de reconstrução da vida.

Seus romances mais recentes, Quarenta dias (2014) e Carta à Rainha louca (2019), nos trazem protagonistas, duas mulheres, cada uma com suas circunstâncias, que têm a escrita como forma de organização do mundo: o diário no primeiro caso e uma carta (como aponta o título) na outra obra (escrevi sobre o livro em Vastas Vozes).

Em tempos de pandemia e de reconstrução de nossas próprias vidas, acompanhar as aventuras de Alice e Isabel, as protagonistas, e suas reflexões postas no papel, pode nos alimentar e fortalecer o espírito, mas de uma forma bem distante das desgastadas expressões do coaching espiritual como “superação”, “resiliência” ou a famigerada “força, foco e fé”, e bem mais próxima aos termos adotados por Virginia Woolf, “imaginação”, “compreensão” e “paixão”.

Pois ao conceber o diário de Alice, por exemplo, Maria Valéria Rezende cria uma escrita sem muita preocupação com um discurso fechado. A personagem escreve para si mesma, em um caderno universitário com a Barbie na capa, sem objetivo de ser lida ou entendida, abandonando a escrita para fazer um lanche, sair de casa ou conversar com alguém, interrupções que a autora nos comunica ao deixar frases sem conclusão e pontuação, um efeito simples na verdade, mas de grande ruído para os que esperam por frases edificantes. Na mesa da qual participou na Tarrafa Literária com o cubano Leonardo Padura, Maria Valéria Rezende chegou a lembrar de um leitor que fez reclamações inconformado com a falta de fechamento dos trechos do diário (veja abaixo).

Outro ruído provocado pela autora são as rasuras feitas por Isabel na carta que escreve à Rainha e que acompanham também o texto do livro.

Além de sua presença na mesa Literatura como Reconstrução, Maria Valéria Rezende teve em todas as mesas ao longo do evento uma participação lendo pequenos trechos dessas duas obras em que a reflexão sobre a escrita e a leitura são postas em primeiro plano. No canal do festival no Youtube, é só abrir qualquer um dos vídeos e, logo após a apresentação da mesa, ela aparecerá lendo.


Trago os trechos abaixo, já que fui incumbido de fazer a seleção, bem como a mediação do encontro de Maria Valéria Rezende com Padura:

II Quarenta dias

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“Sei, agora, por que cismei de trazer na bagagem este caderno velho vazio, trezentas folhas amareladas, com essa Barbie na capa de moldura cor-de-rosa, sabe-se lá de quem era nem como se extraviou na minha casa. Quando Norinha era menina acho que ainda nem existiam esses cadernos da Barbie. Mesmo assim, já é velho, nem é politicamente correto, do tempo em que ainda não se reciclava nada, já foi branquinho, não sei quantas árvores assassinadas e toda essa história. Cismei com ele e pronto. Porque eu quero!, por mais que a fúria organizadora da prima Elizete tentasse botá-lo no monte de velharias, quase lixo, pra vender na tal ‘garage sale’ que aprendeu com a filha que foi morar nos Estados Unidos e inventou de fazer com os meus trastes.” (p. 7)


“Sei lá!, a isso, sim, eu resisti até o fim, agarreir-agarrei-me com o caderno como a uma boia, vai ver que foi só mesmo pra dizer Não a alguém, fincar pé contra mais uma vontade alheia querendo tomar o controle daquela minha vida, já escapando feito água usada pelo ralo desde que me decidi, ou cedi?, a pedir o raio da segunda aposentadoria. Patética tentativa de resistência, mas, afinal, tinha sentido, agora acho. O caderno veio na minha bagagem por pura teimosia, mas com um destino oculto, tábua de salvação para me resgatar do meio dessa confusão que me engoliu. Talvez” (p. 9)

“Este caderno de ninguém e esta esferográfica barata que a Milena largou aqui são exatamente do que eu preciso. Um alívio, uma tarefa e coisas familiares pra antiga professora, uma fresta por onde respirar e deixar entrar alguma luz, voltar a pensar com clareza, reencontrar as palavras, minhas velhas ferramentas de trabalho. Me tranquiliza. ‘Thank you, Barbie!’ Já posso ir beber água, ver em que estado de bolor e podridão estão as coisas na geladeira abandonada e meter-me por horas debaixo do chuveiro. Depois” (p. 14)

“Quarenta dias no deserto, quarenta anos. Só agora sei exatamente quanto tempo durou essa maluquice porque Milena não pensou em arrancar os dias já passados da folhinha do Sagrado Coração de Jesus, que a Tia Brites continua a me mandar todo Natal, e quando entrei perguntei a data de hoje ao porteiro Jerônimo a me olhar como vê visagem. Pudera!, o relógio do saguão marcava seis e dez da manhã, ele devia ter acabado de chegar para render o porteiro da noite, e meu aspecto devia ser mesmo de assombração. Nada expliquei nem ele perguntou sobre a falta de malas, minha longa ausência que, de algum modo, ainda continua, eu, ausente de mim, aparentemente dentro, mas ausente deste apartamento que mais parece cenário de novela. Quarenta dias. Atravessei a Geena. Acabo de sair da quarentena. Não planejei nada, caí lá sem querer, sem me dar conta de que aquilo podia ser a barca do inferno.” (p. 18)

“Ninguém vai ler o que escrevo, mas escrevo. É a única maneira de voltar inteiramente, se é que ainda dá pra fazer meia-volta-volver. Mas tento, por isso deixo quieto lá no quarto-de-hóspedes-escritório o meu dinossauro eletrônico tão bem conservadinho e quero mesmo o manuscrito, deixar escorrer tudo direto do corpo pra caneta e pro papel. A púnica coisa que tenho ânimo pra fazer agora. O único jeito possível de livrar-me deles, expulsá-los do espaço que ocupam dentro de mim e recuperar minha própria presença é reduzi-los a tinta e papel e encerrá-los numa gaveta, ou tacar fogo para sempre. Será?

Escrever tudo, certo, já disse isso de vários modos, é o que quero e preciso, mas por onde começar? Começa-se pelo começo, claro, ‘merci, Mr de La Palisse!’, ou ‘de la Palice, comme vous voulez’. A vida recomeçando sempre” (pp. 18-19)

III Carta à Rainha Louca

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“Há já longo tempo me trouxeram para cá, com o fim de aguardar alguma nau de carreira que me levasse a Lisboa, para ser julgada pelas Cortes por um crime que me foi assacado, mas aqui me esqueceram. É para que me recordem que agora Vos escrevo, Senhora, pois que em Vós se juntam duas cousas que de raro se podem reunir: o serdes rainha de cetro e coroa, capaz de ordenar e fazer o bom e o justo, acima de todos e quaisquer súditos, de qualquer sexo, que habitem as Vossas terras, e o serdes mulher, capaz de saber o que sofre outra mulher que clama por justiça” (p. 9)

“Destinada pelo pai a casar-se um dia como herdeiro de outras vastas terras que a ele interessassem – havendo eu um dia ouvido mencionar a grande família dos Garcia d’Ávila, da Casa da torre, quando servia à mesa e desse assunto se tratava entre os senhores presentes – devia ser Blandina ser preparada para o bom desempenho nas visitas às casas-grandes, na igrejas, novenas e procissões com que se entretêm os poderosos destas terras – em seu lugar de senhora fidalga, e para isso convocaram o padre-mestre, aparentado com a mãe dela, que ministrava na capela da propriedade (...).

Muito mais do que minha irmã Blandina, beneficiei-me eu, com minha indomável curiosidade, das lições desse mestre que, notando-lhe o desinteresse e a distração, percebeu que eu, ao contrário, meio oculta por trás dos reposteiros, sempre atenta às suas lições, escrevia com um pedaço de carvão nas folhas macias que envolvem as espigas de milho-verde, cuidadosamente recolhidas da cozinha e deixadas por dias sob o peso de um cepo ou de um pilão para que secassem planas como folhas de papel. Muito mais a mim do que a ela passou a dirigir sua atenção, emprestar seus livros e exigir zelo nos estudos. Mal sabia ele o tesouro e a salvação que me concedia e o quanto me haveria de servir esse saber!” (pp. 59-60)

“Por um tempo que me pareceu sem fim, tivemos de enfrentar o olhar duro e frio do dono de tudo a nos mirar sem piscar, ora uma, a desonrada, ora a outra, a cúmplice da desonra, como para subjugar-nos inteiramente ao seu ilimitado poder. A Sinhá, parecendo extremamente mortificada, por sua vez não nos podia ver, mantendo abaixadas as pálpebras frementes de sob as quais escorriam vez por outra escassas lágrimas. Cri que o homem nos haveria de açoitar como aos cativos, mas não trazia vara nem relho nas mãos vazias. Parecia confiar no simples poder de seu olhar para submeter-nos. Sua filha não o pôde sustentar e logo esmoreceu, cerrando os olhos, imóvel quase como morta. Eu, sim, movida pela indignação e pelo ódio, fui capaz de insolentemente manter minhas vistas firmes nas suas, a medir forças com ele, até que desistiu de me intimidar e desviou os olhos para a direção de sua pobre esposa como para convocá-la a secundá-lo em grave decisão. Tive dó, muito dó da pobre Sinhá, vendo-a oscilar para frente e para trás, prestes a cair, percebendo então o quanto ela, tanto ou mais do que nós, era sua prisioneira e vítima.” (pp. 88-89)

“Nem mesmo as escravas e eu recebíamos da cozinha do convento o suficiente para manter-nos com disposição para cuidá-la [de Blandina]. Sem saber como resolver tal situação, cientes de que nada poderíamos esperar dos senhores do Castro, e nem tínhamos outros parentes, padrinhos ou benfeitores a quem pedir ajuda, saí a aconselhar-me com a experiente Antónia, imaginando que talvez pudesse vender meus serviços de escrivã e leitora como vira que faziam vários homens, alguns deles clérigos, abancados sob os arcos de prédios públicos e igrejas abertos para os largos e praças, recebendo pagamento por ler ou escrever cartas e outros papéis para os iletrados que eram tantos, quase todos.” (p. 100)

“Desde que me deu Sor Adélia a tarefa de substituí-la, não havia de queixar-me de tédio, pois ali na biblioteca, cuja chave entre meus seios agora habitava, suspensa de um cordão de elos de cobre a tingir-me cada dia a pele de um verde azinhavrado, custoso de alimpar, mas considerado por mim de pouco custo pela felicidade de poder abrir a qualquer hora as páginas de um livro, como asas de um pássaro, avoava para muito longe, livre daqueles muros e grades.

Ao receber o estipêndio de minha primeira semana como escrivã bem paga, voltei às ruas e, além de prover-nos de alimentos, pude adquirir uma pequena e rústica viola, por certo furtada de outros pelo vendedor, como me sugeriram sua pressa e seu olhar assustado para um e outro lado.” (p. 104)

“Eu já não tema as ruas, certa de que poderia viver de minha única riqueza, a qual ninguém me poderia roubar, o meu saber das letras, legado precioso de nosso bom padre-mestre. Mais me enriqueci do tesouro das palavras e pensamentos nos anos que passei metida no cartulário do convento de monjas clarissas da Bahia, como serva de Dona Blandina, amada por mim como uma irmã de sangue que nunca tive, mas cuja morte, por cruel mal de amor pelo qual ali seu malvado pai a encerrou, não pude evitar. Sentia-me chamada a prosseguir pelo mundo e, talvez se me fosse dada essa graça, denunciar em grandes letras e alta voz o mal que lhe haviam feito e a quase todas as mulheres desta colônia, a quem nos pudesse socorrer, como faço agora escrevendo à vossa Majestade.” (pp. 113-114)

“Correu logo pelas redondezas, à boca pequena, a excelência de meus préstimos. Eram várias as encomendas a chegar-me, pelas mãos de meu aparente escravo, para cópias de poemas de muitos que ali se julgavam grandes poetas, e tantas fiz que logo me acostumei a imitá-los, compondo eu mesma os versos, pois para isso não me faltavam palavras tanto para versos de sublime amor, ou laudatórios ou piedosos, como para os de mofa e troça leve e divertida ou os descaradamente desavergonhados e satíricos que eu assinava com nomes de fantasia, criados por mim ou replicados de outros circulantes e famosos na região sem que ninguém assumisse abertamente sua autoria.” (pp. 132-133)

Estante
Maria Valéria Rezende. Quarenta dias. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.

Maria Valéria Rezende. Carta à Rainha louca. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2019.

Virginia Woolf. A paixão da leitura. In: O sol e o peixe. Prosas poéticas. Seleção e tradução Tomaz Tadeu. Belo Horizonte, Autêntica Editora, 2016.

Literatura como reconstrução - Festival Tarrafa Literária

 

 

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A oficina de escrita do padre Inácio ou a dança dos gêneros literários

... o texto ficcional, em vez de dar as costas à realidade, a dramatiza e metamorfoseia...
Luiz Costa Lima
                                                 ________________________

Em 1614, o livro Dom Quixote não tinha nem dez anos. Sua publicação em 1604 é considerada por muitos o evento inaugurador do romance moderno, forma literária que iria tornar-se dominante na segunda metade do século XIX.

I
Quando ainda não se escreviam romances

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Para fins deste encontro de livros que é a Estante, tenhamos em mente que tudo isso ocorre antes de todos esses quatrocentos anos de ascensão e domínio do romance. Em 1614, era publicada Peregrinação, uma “obra sem lugar”, o relato de Fernão Mendes Pinto, “um pária aventureiro, no meio de nobres e funcionários”, em busca de riqueza na Índia durante as conquistas portuguesas.

As aspas são de Luiz Costa Lima, teórico e professor da Literatura, em O Redemunho do Horror. As Margens do Ocidente, livro em que trata da escrita de Mendes Pinto como “inominável”, obra que não se integra “por completo em nenhum campo discursivo legitimado em sua época”.

O próprio título, Peregrinação, é herdeiro – ensina Luiz Costa Lima – “da crônica medieval e da peregrinação da alma a Deus”, mas não foi escrito em tais padrões. À própria empreitada de Mendes Pinto resta muito pouco de Medieval. Por já estar fora de centro, seu relato é até tido por sátira. Parte do projeto expansionista português, realiza-se quando o mundo já está na era moderna, cuja outra marca é a imprensa de Gutenberg que permite ao relato do português ser publicado em livro.


II
As cartas da Companhia de Jesus

É nesse contexto expansionista-colonial português que, menos de cem anos antes, a ordem religiosa Companhia de Jesus espalha missionários pela Europa, Ásia, Extremo Oriente, África e América do Sul. Extremamente influente desde sua criação em 1534, na década seguinte já seguia em caravelas por todas as partes. Para manter a coesão de pensamento, bem como trocar experiências sobre a missão de evangelização, adota-se o contínuo envio de cartas, que são copiadas e distribuídas simultaneamente por todos os continentes.

“A corespondência epistolar era a coluna vertebral do corpo inaciano. Missionários espalhados pelo globo mandavam cartas para Roma, que eram rapidamente copiadas e distribuídas pelas missões de modo que todos soubessem o que todos faziam em lugares tão distantes quanto o Japão, o congo, a Índia e o Brasil”, conta Sheila Moura Hue, doutora e professora de Língua Portuguesa, em Primeiras cartas do Brasil 1551-1555. Escrevia-se muito, somente o criador da ordem, Inácio de Loyola, assinou 6.815 missivas entre 1524 e 1556.

Para além de seus objetivos estratégicos de manutenção da coesão e troca de informações, as cartas vão com o tempo descrevendo hábitos, circunstâncias, eventos, impressões sobre as línguas e modos dos povos originários. Usualmente lidas para uma plateia ouvinte, formada por religiosos, colonos e gente da terra, as cartas acabam ganhando um público fiel, ávido por “experiências, as aventuras, os êxitos e as dificuldades enfrentadas pelos missionários em lugares diferentes e exóticos”. As que mais faziam sucesso, conta a professora, eram as do Congo. Em uma carta que escreveu da Bahia, Manuel da Nóbrega, clama por novidades do país africano, assim como esperamos hoje por uma nova temporada de nossa série preferida.

Mas o próprio Nóbrega, chefe da missão em terras brasileiras, recebe em 1553 uma reclamação sobre o formato e a escassez das cartas que saíam de nossas terras. Em nome do padre Inácio, o secretário da ordem Juan Polanco envia instruções sobre o que as cartas deveriam conter, um verdadeiro manual de escrita com orientações para contar o número de missionários e da população, de fiéis e de infiéis, onde atuam e o que fazem em cada local, inclusive o que comiam, bebiam e como se vestiam; descrição do clima, localização geográfica e a caracterização dos habitantes, suas roupas, comida e hábitos.

O sucesso das cartas era tamanho que acabaram sendo reunidas em livros. Sheila Hue dá informações sobre compêndios impressos em Coimbra em 1551 e 1555, além de volumes específicos sobre o Brasil ou o Japão, por exemplo. Outra medida do público alcançado é que esses volumes acabaram sendo traduzidos para o espanhol, italiano, francês e alemão.

Na dedicatória da tradução italiana publicada em 1559, pode-se verificar até a estratégia editorial de destacar o empreendimento jesuítico como uma grande aventura, como se fosse uma chamada jornalística ou mesmo um trailer de filme anunciando que se encontrará “no presente volume coisas verdadeiramente maravilhosas e grandes, conhecerá os ferozes e horríveis costumes daqueles povos, as qualidades daquele país e a infinita bondade e paciência daqueles reverendos padres, com suas fadigas, que guiados pelo Espírito Santo, tudo deram pela conversão daqueles gentios à nossa direita e santa fé...”.

Na conclusão, a pesquisadora trata também dessa dança dos gêneros:

“Além de fontes históricas da maior importância, de nos revelarem o panorama do que ocorria 50 anos após o descobrimento, além do seu aspecto puramente informativo, as cartas nos mostram os jesuítas como escritores de um gênero nascente, moderno. A objetividade, a simplicidade da redação, a emoção, a temática contemporânea, a intenção de divulgar amplamente os fatos ocorridos pouquíssimo tempo antes, essas características fazem das cartas jesuíticas exemplares únicos entre os textos publicados no século XVI (...). Esse embrião do jornalismo moderno, misto de documento histórico texto literário, impressiona ainda hoje não só pela força e brutalidade de suas informações como pelo vigor de sua expressão”.

III
Tarrafa Literária

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Sheila Moura Hue é uma das convidadas da Tarrafa Literária de 2020, que será transmitida de 20 a 30 de novembro nos canais do festival no Youtube e no Facebook. Converso com ela e Vivien Kogut Lessa de Sá na mesa Ingleses no Brasil, que será transmitida no dia 24, às 18 horas. O assunto vem do título do livro publicado pelas duas: Ingleses no Brasil: Relatos de viagem 1526-1608. Parceiras de pesquisa já há algum tempo, é delas também As incríveis aventuras e estranhos infortúnios de Anthony Knivet: memórias de um aventureiro inglês que em 1591 saiu de seu país com o pirata Thomas Cavendish e foi abandonado no Brasil, entre índios canibais e colonos selvagens, cujo próprio título evoca a estratégia narrativa com que esses relatos eram divulgados pela Europa.

Em Os livros e as pessoas, mesa com Jorge Carrión e Miguel Sanches Neto que abriu na sexta-feira, dia 20, a programação para adultos, o mediador Rodrigo Savazoni, ao citar uma passagem de Jorge Luis Borges, fez um comentário sobre como os relatos do argentino são realizados no limite entre os gêneros.

O apagamento das fronteiras entre os gêneros é uma constante da literatura – quase uma regra – desde as vanguardas dos anos 20 e 30 do século XX. Dando como exemplo o próprio Borges, temos o conto A Aproximação a Almotásim, escrito como se fosse uma resenha de um livro com esse mesmo título publicada em 1935 na revista Sur, o que causou uma enorme procura pela obra que não existia. O conto sai em livro apenas no ano seguinte, como parte de História da Eternidade.

Ainda que no caso das vanguardas o borramento dos limites seja intencional, os exemplos dos relatos acima apontam para uma história da Literatura que vai se moldando pelo choque constante dos padrões de escrita, um conflito sem fim.

Falamos no início da hegemonia alcançada pelo romance ao longo do século XIX. Para se ter uma ideia dessa luta, não só o romance luta contra os demais gêneros (um exemplo disso são as relações de semelhança e diferença entre os termos em inglês “romance”, “novel”, “history” e “story”), mas também a luta dentro do próprio gênero. Tendo os romances publicados na Inglaterra como referência, o geógrafo italiano Franco Moretti mostra em A Literatura vista de longe: Gráficos, mapas e árvores como houve uma batalha de 44 subgêneros pela preferência dos leitores, entre os quais o gótico, o romance epistolar, o romance histórico, até que o romance naturalista/realista assumisse a hegemonia dentro do próprio gênero, ele mesmo atingindo a hegemonia em relação às demais formas de escrita.

Pós escrito
Além de Ingleses no Brasil, faço a mediação no dia 30 da mesa Literatura como reconstrução, com Leonardo Padura e Maria Valéria Rezende. escreverei na Estante sobre esses dois encontros, bem como sobre o que encontrar interessante nos demais debates.

Acompanhe no link o o canal do Festival Tarrafa Literária


Estante
Luiz Costa Lima. O Redemunho do Horror. As Margens do Ocidente. São Paulo: Planeta, 2003.

Sheila Moura Hue. Primeiras cartas do Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2006.

Sheila Moura Hue e Vivien Kogut Lessa de Sá. As incríveis aventuras e estranhos infortúnios de Anthony Knivet: memórias de um aventureiro inglês que em 1591 saiu de seu país com o pirata Thomas Cavendish e foi abandonado no Brasil, entre índios canibais e colonos selvagens. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2007.

Sheila Moura Hue e Vivien Kogut Lessa de Sá. Ingleses no Brasil. Relatos de viagem 1526-1608. São Paulo: Chão Editora, 2020.

Jorge Luis Borges. Aproximação a Almotásim. In: História da Eternidade. In: Obras Completas I. São Paulo, Globo, 1998.

Franco Moretti. A Literatura vista de longe: Gráficos, mapas e árvores. Tradução Anselmo Pessoa Neto. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2008.

Abaixo, a mesa Os livros e as pessoas

 

 

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Reprodução Reprodução

A gripezinha, o real e a espessura da piada

Após algumas semanas sem textos devido aos afazeres jornalísticos relacionados à pandemia, a Estante volta à carga com o lançamento de (mini) histórias de uma gripezinha, de Marcus Vinicius Batista.

Originalmente publicados em redes sociais desde o início da nova peste, os relatos parecem não deixar escapar um aspecto sequer da vida cotidiana sob isolamento. Mais do que sobre a doença, lemos sobre a vida social e as relações de força que moldam a convivência entre as pessoas.

Começo pela apresentação da escritora Beth Soares. Beth e Marcus formam um casal e estão juntos à frente da editora Ateliê de Palavras, por onde foi publicado o livro com ilustrações de Kitty Yoshica. Assim escreveu Beth: "... a arte, ao apontar o incômodo constrangedor da realidade ou provocar o riso diante de adversidades bastante complexas, segue prestando seu papel essencial de nos permitir saborear com algum prazer - e até tentar digerir - o prato agridoce de nosso próprio tempo".

Aos meus ouvidos, o texto de Beth ressoa as palavras da ensaísta argentina Beatriz Sarlo que têm acompanhado minhas pesquisas nos últimos anos: "A literatura, é claro, não dissolve todos os problemas colocados [pela reflexão sobre a sociedade], nem pode explicá-los, mas nela um narrador sempre pensa de fora da experiência, como se os humanos pudessem se apoderar do pesadelo, e não apenas sofrê-lo". Digerir / apoderar-se; prato agridoce / pesadelo. A Estante de hoje caminhará entre o fundo comum e as dessemelhanças entre as duas sentenças.

I Ficção e reflexão
Na soma das histórias, Marcus Vinicius desvela mais mesquinharia do que generosidade, ainda que sob uma leve (agridoce) ironia. O autor aguça a vista em direção às reações humanas de adaptação, negação, a automentira e o autoengano, o individualismo e a desmedida. Nada escapa desse movimento de descoberta: home-office, aulas on line, o impacto do isolamento nas famílias e entre casais, os conflitos entre vizinhos, o trabalho de profissionais de Saúde.

As afirmações de Beth Soares e Beatriz Sarlo nos levam a pensar a ficção como local privilegiado de reflexão sobre a sociedade. Carregam implícita a elaboração de certo distanciamento - não o socieal, mas o de perspectiva. E esse distanciamento - em última instância, o mecanismo que permite o humor e a ironia em meio à desgraça - é ele mesmo uma construção literária ou provocado por ela.

Como isso ocorre? A resposta com que trabalho é dada pelo teórico Luiz Costa Lima, que trata a construção ficcional como um contributo ao real que forma uma camada, uma "espessura" (amo essa expressão tão concreta e significativa). Tal espessura ficcional sobre o real, explica o professor, é resultado de um vetor de diferença - a criação individual - que age sobre um fundo de semelhança - a sociedade, a vida comum.

Assim, acrescento eu, são as características da espessura - sua dureza ou maleabilidade, sua amplitude ou contundência - que definem a relação do inventado com o real.

II As invenções literárias
Lembro disso tudo porque os melhores momentos do livro ocorrem quando o autor põe em funcionamento a maquinação textual e os artificios literários, isto é, quando o vetor da invenção está em força plena.

Logo na primeira mini-história (confira abaixo) isso ocorre pelo posicionamento em oposição de seus dois únicos parágrafos, no caso, a adaptação ao isolamento social. O primeiro mostra a vida produtiva e as competências profissionais por meio do trabalho em casa. Ele termina assim: "O home office era seu terrono fértil, símbolo do sucesso como consultora". Logo em seguida, abrindo o segundo parágafro, a frase "Ontem à tarde, veio a crise", isto é, o lado B do home office, o medo do contato com os vizinhos cuja proximidade dá-se pelo ouvir de passos no corredos do prédio. O que era certeza ao final do primeiro parágrafo passa a ser dúvida no encerramento do bloco: "O que dizer àquela senhora se eu abrisse a porta?".

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Outra história que trabalha com simetria é a 42, dessa vez em três parágrafos em que as mesmas ações de uma gata são narradas repetitivamente: o primeiro no passado, o segundo no presente e o terceiro no futuro, resumidos pelas palavras ontem, hoje e amanhã e demarcados pelo uso do tempo verbal correspondente.

Outro mecanismo é o uso de construções verbais comuns para situações do dia-a-dia que acabam contaminadas (é essa a melhor expressão, não?) pela covid. Como na história 2, em que a socialização automática entre vizinhos de falar do clima ganha a companhia do novo assunto: "... falou do clima, do vizinho que deu positivo e caminhou em direção à rua". E o mesmo repete-se na fila do banco da história 20: "... falavam do clima e da pandemia".

Algo parecido acontece com o casal da história 22. Eles se conhecem numa farmácia: "Ela, atrás de cloroquina. Ele, atrás de um amor". Após três meses, ela termina o namoro justificando que o problema era ela mesma, não ele, uma "resposta do antigo normal".

Na história 47, a de um carrinheiro morador de rua, o uso de marcações de passagem do tempo faz a doença revelar o substrato brutal da sociedade brasileira: "Assim, sobreviveu a quatro meses de pandemia. Assim, sobrevive há seis anos da epidemia social desde sempre". Essa ideia de "há seis anos desde sempre" conta muito sobre o Brasil.

Na 30, a elaboração textual mimetiza a ansiedade da personagem em frases curtas e ritmadas: "Ele se sentou na sala de espera. Pensamentos que ficam. Toma cloroquina. Descarta cloroquina. Toma remédio para piolho. Coça a cabeça. Descarta remédio para piolho. Usa máscara. Ignora máscara. tosse. Coloca a mão na boca. Álcool em gel. Sente falta de ar. Crise de ansiedade. Siontoma do COVID-19".

Nas histórias 54 e 55, acompanhamos dois exemplos de como as próprias personagens reconhecem o potencial narrativo da pandemia. Na 54, uma mulher diz que tem covid e precisa estar em isolamento para despistar um pedido de encontro: "- Risco de contágio. Temos que respeitar a epidemia. Te ligo. Beijo!". Na seguinte, uma situação um tanto inusitada em que um homem obcecado pelo uso da máscara sai do apartamento com o equipamento de proteção, mas apenas de cuecas. É o policial em frente ao supermercado que vem com a tirada ao prendê-lo: "- Atentado violento ao novo normal."

III A piada
Já que estamos tratando de formas narrativas, os textos curtos de Marcus Vinicius permitem emular também o formato da piada. É a história 33, cuja estrutura superconhecida é a do homem que tenta registar o filho no cartório com um nome esdrúxulo. No caso, Coronga.

Conversando com a esposa no quarto do hospital, ele detalha a conversa com os funcionários do registro, que não aceitam Coronga por estar errado e, no lugar, sugerem Corona. O homem não aceita: "Coronga é histórico. Corona é chuveiro. O moleque seria muito zoado na escola. Temos que pensar nisso".

E o diálogo final:
"- Verdade. E como ficou?"
"Jair."

Epílogo
O nome do presidente funciona na piada como a manifestação do Real na interpretação que o filósofo esloveno Slavoj Žižek faz de Lacan. É aquilo do que não podemos escapar, daí o riso, ainda que dolorido, porém revelador de toda a eficácia da elaboração ficcional sobre o real.

O próprio Žižek costuma se utilizar de piadas e outras formas narrativas, principalmente o cinema, para tratar das questões do mundo atual. Em sua homenagem, ao filósofo, um meme que encontrei nesses dias que utiliza o mesmo final da mini-história 33:

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Estante
Marcus Vnicius Batista. (mini) histórias de uma gripezinha. Ilustrações Kitty Yoshika. Apresentação Beth Soares. Santos: Ateliê de Palavras, 2020.

Beatriz Sarlo. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. Tradução Rosa Freire D'aguiar. São Paulo / Belo Horizonte: Companhia das Letras / Editora da UFMG, 2007.

Glyn Daly e Slavoj Zizek. Arriscar o impossível: conversas com Žižek. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

 

 

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Acervo da Estante Acervo da Estante

Lusitana melodia: uma conversa entre Sophia Breyner e Ribeiro Couto

Para Jeanice, também Sophia,
Flávio Viegas Amoreira e Gustavo Klein

"Não terá sido a morte o primeiro navegador?
Muito antes que os vivos se confiassem eles próprios às águas, não terão colocado o ataúde no mar, na torrente? O ataúde, nesta hipótese mitológica, não seria a “última barca”. Seria a 'primeira' barca. A morte não seria a última viagem. Seria a primeira viagem. Ela será, para alguns sonhadores profundos, a primeira viagem verdadeira."
Gaston Bachelard


Ao longo das décadas de 1970 e 1980, a poeta Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) reúne poesias de oito países de língua portuguesa com o objetivo de apresentá-las ao público infantil e adolescente. A reunião acaba sendo publicada em 1991 com o apoio do Ministério da Educação de Portugal sob o título Primeiro Livro de Poesia, com ilustrações de Júlio Resende.

Entre autores e autoras, Sophia, nascida na cidade do Porto, escolheu de Rui Ribeiro Couto (1898-1963) os poemas Café e Santos (imagem abaixo), sobre o seu, como chama em um poema, “porto natal”. Do Porto ao porto de Santos, a Estante de hoje navega pelo Atlântico dos poemas dele e dela.
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I
Sophia Breyner, leitora de Ribeiro Couto
Soube que Sophia conhecia a obra de Ribeiro Couto por meio da jornalista Daniela Aragão, colega da Unisantos há um par de anos com a família em Portugal. Em uma conversa sobre poetas de Santos no grupo da turma de 1995, a jornalista conta que, já em Portugal, a filha, aos 12 anos, teve que estudar um poema do livro para fazer uma apresentação na escola e escolheu com orgulho falar sobre um poeta e um poema de sua cidade natal. Foi uma forma poética de adaptar-se ao novo país.

O mero caso por si só justifica qualquer coisa a se falar sobre a importância da poesia na vida de todos, porém levo mais longe o diálogo entre a poeta do Porto e o poeta de Santos.

As navegações surgem como um primeiro tema em comum. Em Litania das Rachonas Nortenhas, Couto fala das “solidões marinhas” percorridas pelos filhos de Portugal, um eco do desbravamento dos mares pelas naus, “Em tábuas estreitas / Como sepulturas”. Sophia responde com os versos finais do poema Homens à beira-mar: “Só encontram o longe que se afasta, / O apelo do silêncio que os arrasta, / As aves estrangeiras que os trespassam, / E o seu corpo é só um nó de frio / Em busca de mais mar e mais vazio.”

Couto elege Camões como a figura central da língua portuguesa em Camonocórdia num cais de Lisboa, de onde a lusitana melodia, “Língua de continentes, marinheira”, espalhou-se pelo mundo para séculos depois ser recoletada por Sophia em seu livro para crianças e adolescentes. É dela um poema chamado Goa, cidade da Índia onde acomodou-se o português, bem como na chinesa Macau ou lá no Timor.

Couto associa Lisboa ao autor dos Lusíadas. Sophia, por sua vez, ainda que tenha escrito um Soneto à maneira de Camões, vê pelas ruas da capital portuguesa a “sombra” de Fernando Pessoa no poema “Fernando Pessoa” ou “Poeta em Lisboa”. Imagens cotidianas da cidade dividem-se entre poemas dele e dela.  Ao despedir-se de Lisboa em Adeus à rua Castilho, Ribeiro Couto canta o Rio Tejo e o casario da cidade: “Não verá mais o Tejo nem as cores / Que remoçam ao sol, o casario. / Em breve, pelas terras onde fores, / Terás saudades do entre o mar e o rio.”

Se o Tejo de Couto é o da despedida melancólica, o de Sophia marca a alegria do reencontro diário com o rio. É o que lemos em Tejo:

“Aqui e além em Lisboa – quando vamos
Com pressa ou distraídos pelas ruas
Ao virar da esquina de súbito avistamos
Irisado o Tejo:
Então se tornam
Leve o nosso corpo e a alma alada”

Ele, descendente de portugueses, soa mais melancólico que a própria portuguesa. Digamos que a melancolia de Sophia é ativa, de quem se espalhou pelo mundo, enquanto a dele, herdeiro de fados, é amplificada pela imigração, como se fosse uma melancolia ao quadrado.

O tom menor de Couto, quase soturno, repete-se em outros dois fragmentos sobre Lisboa. Ainda em Adeus à Rua Castilho, ele afirma que na “pedra antiga de Lisboa”:

“Fica este não-sei-quê de firme e obscuro
Que vem de longe e no teu peito passa,
Passado que é presente e que é futuro”

No poema Lisboa, Sophia fala da cidade em tom maior, altivo, ainda que para tratar do encontro da capital portuguesa com seu fado navegante: “Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata / Lisboa oscilando como uma grande barca / Lisboa cruelmente construída ao longo de sua própria ausência”.

A mesma velha cidade, lírica na voz dele, épica na dela.

II
Sentimento Atlântico do Mundo
A poesia dos dois está permeada pelo “sentimento atlântico do mundo”, expressão que conheci por meio de outro poeta de Santos, o contemporâneo Flávio Viegas Amoreira, ele mesmo autor de livros com título tais como Maralto, A Biblioteca Submergia ou Escorbuto Cantos da Costa.

Qualquer seleta de Couto ou de Sophia basta para nos revelar o poder do Atlântico. Do lado de cá do oceano, ele invoca a força das ressacas: “Oh! Ressaca dos dias bravos / O mar a investir contra o cais / E as ondas rebentando no alto!” (O mar e o cais).

Sophia repercute a amplidão oceânica em Mar sonoro:

“Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Serem um milagre criado só para mim.”

Noturno da praia deserta, de Couto, é outra fonte de imagens atlânticas na qual o mar e a noite se fundem: “Mistura de corpos e de hálitos, / Não se sabe se é mar, se é noite”. A estrofe central da peça é formada por epítetos para essa união. O poema segue na íntegra:

“Janela aberta para a sombra,
Vento que chega e traz meiguice,
Onda que canta nos rochedos,
Noite lavada de salitre,
Cheirosa de matos e espumas.

Repouso de todas as dúvidas,
Acalanto dos conformados,
Mãos esquecidas noutras mãos,
Matéria pura e sem memória,
Ausente do ocioso mistério.

Mistura de corpos e de hálitos,
Não se sabe se é mar, se é noite,
Apenas gosto, ritmo e cheiro,
A viagem que não tem nome
E o naufrágio na gratidão.”

Novamente notaremos a diferença de tons, mas as imagens e elementos repetem-se em Mar, de Sophia:

“I
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

II
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.”

Os elementos se repetem. O cheiro da vegetação misturado ao do mar em “noite lavada de salitre” e “a selvagem exalação das ondas”; o “grito puro” das ondas e a “onda que canta nos rochedos”; a união entre água e éter (“não se sabe se é mar, se é noite” e “subindo para os astros...”).

Talvez os dois poemas respondam à indagação de Marcel Proust feita em setembro de 1892 em Os prazeres e os dias: “O céu está escuro na Terra Negra, ainda brilha pouco, não se sabe por que mistério, por que brilhante relíquia do dia enterrada sob as ondas. O que é isso?”

III
A vida portuária
A ambiência telúrica do oceano tem como complemento os episódios prosaicos da vida portuária. Em Café do Porto, Couto descreve cenas de um café à beira do cais comandado por uma mulher refratária às investidas masculinas: “Beber, bebam: embebedem-se;/ Podem rebentar de cheios, / Dançar de roda, cantar na sala. / Não queiram é tocar-lhe os seios, / Que a dona do café do porto, / Ninguém poderá tocá-la.”

Em Nocturno da Graça, Sophia vê o movimento deste bairro de Lisboa: “Brilha a cidade dos anúncios luminosos / Com espiritismo bares cinemas / Com torvas janelas e seus torvos gozos / Brilha a cidade alheira.”

Novamente a diferença de tons ou, pensando em imagens, de enquadramentos cinematográficos: o close do pequeno espaço entre mesas de um café em Couto; o bairro visto de forma panorâmica em Sophia.

Ainda assim, os poemas chegam às estrofes finais cada um com um chamado de volta à amplidão do mar e da noite: “Já no cais o navio chama. / Bêbedos vão capitães, grumetes... / Era o último porto da escala.” (Couto) e “Comigo / Sobre o cais sobre o bordel e sobre a rua / Límpido e aceso / O silêncio dos astros continua.” (Sophia).

Epílogo
O cais é um lugar propício à reflexão, talvez mesmo por marcar essa divisa entre o território citadino e o mar telúrico; de um lado, a vida mundana de cafés, comércio e bordéis, do outro o chamado para a aventura e o mito. E aí retomo a epígrafe de Gaston Bachelard, tomada de A água e os sonhos:

“Não terá sido a morte o primeiro navegador?

Muito antes que os vivos se confiassem eles próprios às águas, não terão colocado o ataúde no mar, na torrente? O ataúde, nesta hipótese mitológica, não seria a ‘última barca’. Seria a 'primeira' barca. A morte não seria a última viagem. Seria a primeira viagem. Ela será, para alguns sonhadores profundos, a primeira viagem verdadeira.”

Pergunta que ele responde com a hipótese:

“Em todo caso, sobre o problema que nos ocupa, meditando um pouco a respeito, parece que a 'utilidade de navegar' não é bastante clara para determinar o homem pré-histórico a escavar uma canoa. Nenhuma utilidade pode legitimar o risco imenso de partir sobre as ondas. Para enfrentar a navegação, é preciso que haja interesses poderosos. Ora, os verdadeiros interesses poderosos são os interesses quiméricos. São os interesses que sonhamos, e não os que calculamos. São os interesses fabulosos. O herói do mar é um herói da morte. O primeiro marujo é o primeiro homem vivo que foi tão corajoso como um morto.”

No poema Náufrago, Sophia dá um corpo a esse herói:

“Agora morto oscilas
Ao sabor das correntes
Com medusas em vez de pupilas.

Agora reinas entre imagens puras
Em países transparentes e de vidros.
Sem coração e sem memória
Em todas as presenças diluído.

Agora liberto moras
Na pausa branca dos poemas.
Teu corpo sobre e cai em cada vaga,
Sem nome e sem destino
Na limpidez da água.”

Sobre essa primeira que é a última viagem, Couto escreveu Invocação do porto natal:

“O porto em que nasci! Era eu menino
Quando uma vez me viste, olhos no mar,
Pedir ao mar incerto o meu destino.

O mar ouviu-me. Meu destino é errar.
Por onde eu vá, seguindo esse destino,
Entre eu e minha mãe existe o mar.

Enfim, se o barco em que eu voltar um dia
Deva ir ao fundo, que suceda tal
Em frente ao porto a que eu tão bem queria.

E que meu corpo inerte, no balanço
Da onda encontrando o embalo maternal,
Possa no mesmo porto achar descanso.”

Esse morrer no porto natal de Rui Ribeiro Couto remete à concepção cíclica da vida que acompanhou a humanidade desde seus primórdios e que, na Modernidade, parece permanecer apenas (ou sobretudo) no fazer poético e na realização artística. Sophia de Mello Breyner Andresen fala desse Quando cíclico, poema com que se fecha a Estante:

“Quando meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.
Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.
Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.”

Estante

Sophia de Mello Breyner Andresen. Coral e outros poemas. Seleção e apresentação Eucanaã Ferraz. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

Sophia de Mello Breyner Andresen. Quando. In: Dia do Mar, 1974. Enviado por Daniela Aragão.

Ribeiro Couto. Melhores Poemas. Seleção José Almino. São Paulo, Global, 2002.

Gaston Bachelard. A água e os sonhos. Ensaio sobre a imaginação da matéria. Tradução Antonio de Pádua Danesi. São Paulo, Martins Fontes, 2002.

Marcel Proust. Os prazeres e os dias. Citado por Valérie Drechsler-Kayser em postagem compartilhada por Rodrigo Lucheta. (https://www.facebook.com/rodrigo.lucheta.1/posts/3783999444962234).

Sobre o poema Santos, de Rui Ribeiro Couto:
Alessandro Atanes. Uma infância em torno do porto. Portogente, 6 de agosto de 2006.
Alessandro Atanes. Ribeiro Couto: A infância em um poema. Revista Pausa, 29 de junho de 2012.

Sophia de Mello Breyner Andresen - O Nome das Coisas, documentário produzido e realizado pela Panavideo para a RTP 2.

 

 

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Sobre
Blog de crítica literária. Alessandro Atanes é autor do livro "Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos", também traduz, compõe e toca guitarra. De profissão jornalista, tem mestrado em história social (USP, 2008) e é servidor público municipal de Cubatão desde 1999.