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A oficina de escrita do padre Inácio ou a dança dos gêneros literários

... o texto ficcional, em vez de dar as costas à realidade, a dramatiza e metamorfoseia...
Luiz Costa Lima
                                                 ________________________

Em 1614, o livro Dom Quixote não tinha nem dez anos. Sua publicação em 1604 é considerada por muitos o evento inaugurador do romance moderno, forma literária que iria tornar-se dominante na segunda metade do século XIX.

I
Quando ainda não se escreviam romances

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Para fins deste encontro de livros que é a Estante, tenhamos em mente que tudo isso ocorre antes de todos esses quatrocentos anos de ascensão e domínio do romance. Em 1614, era publicada Peregrinação, uma “obra sem lugar”, o relato de Fernão Mendes Pinto, “um pária aventureiro, no meio de nobres e funcionários”, em busca de riqueza na Índia durante as conquistas portuguesas.

As aspas são de Luiz Costa Lima, teórico e professor da Literatura, em O Redemunho do Horror. As Margens do Ocidente, livro em que trata da escrita de Mendes Pinto como “inominável”, obra que não se integra “por completo em nenhum campo discursivo legitimado em sua época”.

O próprio título, Peregrinação, é herdeiro – ensina Luiz Costa Lima – “da crônica medieval e da peregrinação da alma a Deus”, mas não foi escrito em tais padrões. À própria empreitada de Mendes Pinto resta muito pouco de Medieval. Por já estar fora de centro, seu relato é até tido por sátira. Parte do projeto expansionista português, realiza-se quando o mundo já está na era moderna, cuja outra marca é a imprensa de Gutenberg que permite ao relato do português ser publicado em livro.


II
As cartas da Companhia de Jesus

É nesse contexto expansionista-colonial português que, menos de cem anos antes, a ordem religiosa Companhia de Jesus espalha missionários pela Europa, Ásia, Extremo Oriente, África e América do Sul. Extremamente influente desde sua criação em 1534, na década seguinte já seguia em caravelas por todas as partes. Para manter a coesão de pensamento, bem como trocar experiências sobre a missão de evangelização, adota-se o contínuo envio de cartas, que são copiadas e distribuídas simultaneamente por todos os continentes.

“A corespondência epistolar era a coluna vertebral do corpo inaciano. Missionários espalhados pelo globo mandavam cartas para Roma, que eram rapidamente copiadas e distribuídas pelas missões de modo que todos soubessem o que todos faziam em lugares tão distantes quanto o Japão, o congo, a Índia e o Brasil”, conta Sheila Moura Hue, doutora e professora de Língua Portuguesa, em Primeiras cartas do Brasil 1551-1555. Escrevia-se muito, somente o criador da ordem, Inácio de Loyola, assinou 6.815 missivas entre 1524 e 1556.

Para além de seus objetivos estratégicos de manutenção da coesão e troca de informações, as cartas vão com o tempo descrevendo hábitos, circunstâncias, eventos, impressões sobre as línguas e modos dos povos originários. Usualmente lidas para uma plateia ouvinte, formada por religiosos, colonos e gente da terra, as cartas acabam ganhando um público fiel, ávido por “experiências, as aventuras, os êxitos e as dificuldades enfrentadas pelos missionários em lugares diferentes e exóticos”. As que mais faziam sucesso, conta a professora, eram as do Congo. Em uma carta que escreveu da Bahia, Manuel da Nóbrega, clama por novidades do país africano, assim como esperamos hoje por uma nova temporada de nossa série preferida.

Mas o próprio Nóbrega, chefe da missão em terras brasileiras, recebe em 1553 uma reclamação sobre o formato e a escassez das cartas que saíam de nossas terras. Em nome do padre Inácio, o secretário da ordem Juan Polanco envia instruções sobre o que as cartas deveriam conter, um verdadeiro manual de escrita com orientações para contar o número de missionários e da população, de fiéis e de infiéis, onde atuam e o que fazem em cada local, inclusive o que comiam, bebiam e como se vestiam; descrição do clima, localização geográfica e a caracterização dos habitantes, suas roupas, comida e hábitos.

O sucesso das cartas era tamanho que acabaram sendo reunidas em livros. Sheila Hue dá informações sobre compêndios impressos em Coimbra em 1551 e 1555, além de volumes específicos sobre o Brasil ou o Japão, por exemplo. Outra medida do público alcançado é que esses volumes acabaram sendo traduzidos para o espanhol, italiano, francês e alemão.

Na dedicatória da tradução italiana publicada em 1559, pode-se verificar até a estratégia editorial de destacar o empreendimento jesuítico como uma grande aventura, como se fosse uma chamada jornalística ou mesmo um trailer de filme anunciando que se encontrará “no presente volume coisas verdadeiramente maravilhosas e grandes, conhecerá os ferozes e horríveis costumes daqueles povos, as qualidades daquele país e a infinita bondade e paciência daqueles reverendos padres, com suas fadigas, que guiados pelo Espírito Santo, tudo deram pela conversão daqueles gentios à nossa direita e santa fé...”.

Na conclusão, a pesquisadora trata também dessa dança dos gêneros:

“Além de fontes históricas da maior importância, de nos revelarem o panorama do que ocorria 50 anos após o descobrimento, além do seu aspecto puramente informativo, as cartas nos mostram os jesuítas como escritores de um gênero nascente, moderno. A objetividade, a simplicidade da redação, a emoção, a temática contemporânea, a intenção de divulgar amplamente os fatos ocorridos pouquíssimo tempo antes, essas características fazem das cartas jesuíticas exemplares únicos entre os textos publicados no século XVI (...). Esse embrião do jornalismo moderno, misto de documento histórico texto literário, impressiona ainda hoje não só pela força e brutalidade de suas informações como pelo vigor de sua expressão”.

III
Tarrafa Literária

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Sheila Moura Hue é uma das convidadas da Tarrafa Literária de 2020, que será transmitida de 20 a 30 de novembro nos canais do festival no Youtube e no Facebook. Converso com ela e Vivien Kogut Lessa de Sá na mesa Ingleses no Brasil, que será transmitida no dia 24, às 18 horas. O assunto vem do título do livro publicado pelas duas: Ingleses no Brasil: Relatos de viagem 1526-1608. Parceiras de pesquisa já há algum tempo, é delas também As incríveis aventuras e estranhos infortúnios de Anthony Knivet: memórias de um aventureiro inglês que em 1591 saiu de seu país com o pirata Thomas Cavendish e foi abandonado no Brasil, entre índios canibais e colonos selvagens, cujo próprio título evoca a estratégia narrativa com que esses relatos eram divulgados pela Europa.

Em Os livros e as pessoas, mesa com Jorge Carrión e Miguel Sanches Neto que abriu na sexta-feira, dia 20, a programação para adultos, o mediador Rodrigo Savazoni, ao citar uma passagem de Jorge Luis Borges, fez um comentário sobre como os relatos do argentino são realizados no limite entre os gêneros.

O apagamento das fronteiras entre os gêneros é uma constante da literatura – quase uma regra – desde as vanguardas dos anos 20 e 30 do século XX. Dando como exemplo o próprio Borges, temos o conto A Aproximação a Almotásim, escrito como se fosse uma resenha de um livro com esse mesmo título publicada em 1935 na revista Sur, o que causou uma enorme procura pela obra que não existia. O conto sai em livro apenas no ano seguinte, como parte de História da Eternidade.

Ainda que no caso das vanguardas o borramento dos limites seja intencional, os exemplos dos relatos acima apontam para uma história da Literatura que vai se moldando pelo choque constante dos padrões de escrita, um conflito sem fim.

Falamos no início da hegemonia alcançada pelo romance ao longo do século XIX. Para se ter uma ideia dessa luta, não só o romance luta contra os demais gêneros (um exemplo disso são as relações de semelhança e diferença entre os termos em inglês “romance”, “novel”, “history” e “story”), mas também a luta dentro do próprio gênero. Tendo os romances publicados na Inglaterra como referência, o geógrafo italiano Franco Moretti mostra em A Literatura vista de longe: Gráficos, mapas e árvores como houve uma batalha de 44 subgêneros pela preferência dos leitores, entre os quais o gótico, o romance epistolar, o romance histórico, até que o romance naturalista/realista assumisse a hegemonia dentro do próprio gênero, ele mesmo atingindo a hegemonia em relação às demais formas de escrita.

Pós escrito
Além de Ingleses no Brasil, faço a mediação no dia 30 da mesa Literatura como reconstrução, com Leonardo Padura e Maria Valéria Rezende. escreverei na Estante sobre esses dois encontros, bem como sobre o que encontrar interessante nos demais debates.

Acompanhe no link o o canal do Festival Tarrafa Literária


Estante
Luiz Costa Lima. O Redemunho do Horror. As Margens do Ocidente. São Paulo: Planeta, 2003.

Sheila Moura Hue. Primeiras cartas do Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2006.

Sheila Moura Hue e Vivien Kogut Lessa de Sá. As incríveis aventuras e estranhos infortúnios de Anthony Knivet: memórias de um aventureiro inglês que em 1591 saiu de seu país com o pirata Thomas Cavendish e foi abandonado no Brasil, entre índios canibais e colonos selvagens. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2007.

Sheila Moura Hue e Vivien Kogut Lessa de Sá. Ingleses no Brasil. Relatos de viagem 1526-1608. São Paulo: Chão Editora, 2020.

Jorge Luis Borges. Aproximação a Almotásim. In: História da Eternidade. In: Obras Completas I. São Paulo, Globo, 1998.

Franco Moretti. A Literatura vista de longe: Gráficos, mapas e árvores. Tradução Anselmo Pessoa Neto. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2008.

Abaixo, a mesa Os livros e as pessoas

 

 

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A gripezinha, o real e a espessura da piada

Após algumas semanas sem textos devido aos afazeres jornalísticos relacionados à pandemia, a Estante volta à carga com o lançamento de (mini) histórias de uma gripezinha, de Marcus Vinicius Batista.

Originalmente publicados em redes sociais desde o início da nova peste, os relatos parecem não deixar escapar um aspecto sequer da vida cotidiana sob isolamento. Mais do que sobre a doença, lemos sobre a vida social e as relações de força que moldam a convivência entre as pessoas.

Começo pela apresentação da escritora Beth Soares. Beth e Marcus formam um casal e estão juntos à frente da editora Ateliê de Palavras, por onde foi publicado o livro com ilustrações de Kitty Yoshica. Assim escreveu Beth: "... a arte, ao apontar o incômodo constrangedor da realidade ou provocar o riso diante de adversidades bastante complexas, segue prestando seu papel essencial de nos permitir saborear com algum prazer - e até tentar digerir - o prato agridoce de nosso próprio tempo".

Aos meus ouvidos, o texto de Beth ressoa as palavras da ensaísta argentina Beatriz Sarlo que têm acompanhado minhas pesquisas nos últimos anos: "A literatura, é claro, não dissolve todos os problemas colocados [pela reflexão sobre a sociedade], nem pode explicá-los, mas nela um narrador sempre pensa de fora da experiência, como se os humanos pudessem se apoderar do pesadelo, e não apenas sofrê-lo". Digerir / apoderar-se; prato agridoce / pesadelo. A Estante de hoje caminhará entre o fundo comum e as dessemelhanças entre as duas sentenças.

I Ficção e reflexão
Na soma das histórias, Marcus Vinicius desvela mais mesquinharia do que generosidade, ainda que sob uma leve (agridoce) ironia. O autor aguça a vista em direção às reações humanas de adaptação, negação, a automentira e o autoengano, o individualismo e a desmedida. Nada escapa desse movimento de descoberta: home-office, aulas on line, o impacto do isolamento nas famílias e entre casais, os conflitos entre vizinhos, o trabalho de profissionais de Saúde.

As afirmações de Beth Soares e Beatriz Sarlo nos levam a pensar a ficção como local privilegiado de reflexão sobre a sociedade. Carregam implícita a elaboração de certo distanciamento - não o socieal, mas o de perspectiva. E esse distanciamento - em última instância, o mecanismo que permite o humor e a ironia em meio à desgraça - é ele mesmo uma construção literária ou provocado por ela.

Como isso ocorre? A resposta com que trabalho é dada pelo teórico Luiz Costa Lima, que trata a construção ficcional como um contributo ao real que forma uma camada, uma "espessura" (amo essa expressão tão concreta e significativa). Tal espessura ficcional sobre o real, explica o professor, é resultado de um vetor de diferença - a criação individual - que age sobre um fundo de semelhança - a sociedade, a vida comum.

Assim, acrescento eu, são as características da espessura - sua dureza ou maleabilidade, sua amplitude ou contundência - que definem a relação do inventado com o real.

II As invenções literárias
Lembro disso tudo porque os melhores momentos do livro ocorrem quando o autor põe em funcionamento a maquinação textual e os artificios literários, isto é, quando o vetor da invenção está em força plena.

Logo na primeira mini-história (confira abaixo) isso ocorre pelo posicionamento em oposição de seus dois únicos parágrafos, no caso, a adaptação ao isolamento social. O primeiro mostra a vida produtiva e as competências profissionais por meio do trabalho em casa. Ele termina assim: "O home office era seu terrono fértil, símbolo do sucesso como consultora". Logo em seguida, abrindo o segundo parágafro, a frase "Ontem à tarde, veio a crise", isto é, o lado B do home office, o medo do contato com os vizinhos cuja proximidade dá-se pelo ouvir de passos no corredos do prédio. O que era certeza ao final do primeiro parágrafo passa a ser dúvida no encerramento do bloco: "O que dizer àquela senhora se eu abrisse a porta?".

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Outra história que trabalha com simetria é a 42, dessa vez em três parágrafos em que as mesmas ações de uma gata são narradas repetitivamente: o primeiro no passado, o segundo no presente e o terceiro no futuro, resumidos pelas palavras ontem, hoje e amanhã e demarcados pelo uso do tempo verbal correspondente.

Outro mecanismo é o uso de construções verbais comuns para situações do dia-a-dia que acabam contaminadas (é essa a melhor expressão, não?) pela covid. Como na história 2, em que a socialização automática entre vizinhos de falar do clima ganha a companhia do novo assunto: "... falou do clima, do vizinho que deu positivo e caminhou em direção à rua". E o mesmo repete-se na fila do banco da história 20: "... falavam do clima e da pandemia".

Algo parecido acontece com o casal da história 22. Eles se conhecem numa farmácia: "Ela, atrás de cloroquina. Ele, atrás de um amor". Após três meses, ela termina o namoro justificando que o problema era ela mesma, não ele, uma "resposta do antigo normal".

Na história 47, a de um carrinheiro morador de rua, o uso de marcações de passagem do tempo faz a doença revelar o substrato brutal da sociedade brasileira: "Assim, sobreviveu a quatro meses de pandemia. Assim, sobrevive há seis anos da epidemia social desde sempre". Essa ideia de "há seis anos desde sempre" conta muito sobre o Brasil.

Na 30, a elaboração textual mimetiza a ansiedade da personagem em frases curtas e ritmadas: "Ele se sentou na sala de espera. Pensamentos que ficam. Toma cloroquina. Descarta cloroquina. Toma remédio para piolho. Coça a cabeça. Descarta remédio para piolho. Usa máscara. Ignora máscara. tosse. Coloca a mão na boca. Álcool em gel. Sente falta de ar. Crise de ansiedade. Siontoma do COVID-19".

Nas histórias 54 e 55, acompanhamos dois exemplos de como as próprias personagens reconhecem o potencial narrativo da pandemia. Na 54, uma mulher diz que tem covid e precisa estar em isolamento para despistar um pedido de encontro: "- Risco de contágio. Temos que respeitar a epidemia. Te ligo. Beijo!". Na seguinte, uma situação um tanto inusitada em que um homem obcecado pelo uso da máscara sai do apartamento com o equipamento de proteção, mas apenas de cuecas. É o policial em frente ao supermercado que vem com a tirada ao prendê-lo: "- Atentado violento ao novo normal."

III A piada
Já que estamos tratando de formas narrativas, os textos curtos de Marcus Vinicius permitem emular também o formato da piada. É a história 33, cuja estrutura superconhecida é a do homem que tenta registar o filho no cartório com um nome esdrúxulo. No caso, Coronga.

Conversando com a esposa no quarto do hospital, ele detalha a conversa com os funcionários do registro, que não aceitam Coronga por estar errado e, no lugar, sugerem Corona. O homem não aceita: "Coronga é histórico. Corona é chuveiro. O moleque seria muito zoado na escola. Temos que pensar nisso".

E o diálogo final:
"- Verdade. E como ficou?"
"Jair."

Epílogo
O nome do presidente funciona na piada como a manifestação do Real na interpretação que o filósofo esloveno Slavoj Žižek faz de Lacan. É aquilo do que não podemos escapar, daí o riso, ainda que dolorido, porém revelador de toda a eficácia da elaboração ficcional sobre o real.

O próprio Žižek costuma se utilizar de piadas e outras formas narrativas, principalmente o cinema, para tratar das questões do mundo atual. Em sua homenagem, ao filósofo, um meme que encontrei nesses dias que utiliza o mesmo final da mini-história 33:

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Estante
Marcus Vnicius Batista. (mini) histórias de uma gripezinha. Ilustrações Kitty Yoshika. Apresentação Beth Soares. Santos: Ateliê de Palavras, 2020.

Beatriz Sarlo. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. Tradução Rosa Freire D'aguiar. São Paulo / Belo Horizonte: Companhia das Letras / Editora da UFMG, 2007.

Glyn Daly e Slavoj Zizek. Arriscar o impossível: conversas com Žižek. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

 

 

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Lusitana melodia: uma conversa entre Sophia Breyner e Ribeiro Couto

Para Jeanice, também Sophia,
Flávio Viegas Amoreira e Gustavo Klein

"Não terá sido a morte o primeiro navegador?
Muito antes que os vivos se confiassem eles próprios às águas, não terão colocado o ataúde no mar, na torrente? O ataúde, nesta hipótese mitológica, não seria a “última barca”. Seria a 'primeira' barca. A morte não seria a última viagem. Seria a primeira viagem. Ela será, para alguns sonhadores profundos, a primeira viagem verdadeira."
Gaston Bachelard


Ao longo das décadas de 1970 e 1980, a poeta Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) reúne poesias de oito países de língua portuguesa com o objetivo de apresentá-las ao público infantil e adolescente. A reunião acaba sendo publicada em 1991 com o apoio do Ministério da Educação de Portugal sob o título Primeiro Livro de Poesia, com ilustrações de Júlio Resende.

Entre autores e autoras, Sophia, nascida na cidade do Porto, escolheu de Rui Ribeiro Couto (1898-1963) os poemas Café e Santos (imagem abaixo), sobre o seu, como chama em um poema, “porto natal”. Do Porto ao porto de Santos, a Estante de hoje navega pelo Atlântico dos poemas dele e dela.
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I
Sophia Breyner, leitora de Ribeiro Couto
Soube que Sophia conhecia a obra de Ribeiro Couto por meio da jornalista Daniela Aragão, colega da Unisantos há um par de anos com a família em Portugal. Em uma conversa sobre poetas de Santos no grupo da turma de 1995, a jornalista conta que, já em Portugal, a filha, aos 12 anos, teve que estudar um poema do livro para fazer uma apresentação na escola e escolheu com orgulho falar sobre um poeta e um poema de sua cidade natal. Foi uma forma poética de adaptar-se ao novo país.

O mero caso por si só justifica qualquer coisa a se falar sobre a importância da poesia na vida de todos, porém levo mais longe o diálogo entre a poeta do Porto e o poeta de Santos.

As navegações surgem como um primeiro tema em comum. Em Litania das Rachonas Nortenhas, Couto fala das “solidões marinhas” percorridas pelos filhos de Portugal, um eco do desbravamento dos mares pelas naus, “Em tábuas estreitas / Como sepulturas”. Sophia responde com os versos finais do poema Homens à beira-mar: “Só encontram o longe que se afasta, / O apelo do silêncio que os arrasta, / As aves estrangeiras que os trespassam, / E o seu corpo é só um nó de frio / Em busca de mais mar e mais vazio.”

Couto elege Camões como a figura central da língua portuguesa em Camonocórdia num cais de Lisboa, de onde a lusitana melodia, “Língua de continentes, marinheira”, espalhou-se pelo mundo para séculos depois ser recoletada por Sophia em seu livro para crianças e adolescentes. É dela um poema chamado Goa, cidade da Índia onde acomodou-se o português, bem como na chinesa Macau ou lá no Timor.

Couto associa Lisboa ao autor dos Lusíadas. Sophia, por sua vez, ainda que tenha escrito um Soneto à maneira de Camões, vê pelas ruas da capital portuguesa a “sombra” de Fernando Pessoa no poema “Fernando Pessoa” ou “Poeta em Lisboa”. Imagens cotidianas da cidade dividem-se entre poemas dele e dela.  Ao despedir-se de Lisboa em Adeus à rua Castilho, Ribeiro Couto canta o Rio Tejo e o casario da cidade: “Não verá mais o Tejo nem as cores / Que remoçam ao sol, o casario. / Em breve, pelas terras onde fores, / Terás saudades do entre o mar e o rio.”

Se o Tejo de Couto é o da despedida melancólica, o de Sophia marca a alegria do reencontro diário com o rio. É o que lemos em Tejo:

“Aqui e além em Lisboa – quando vamos
Com pressa ou distraídos pelas ruas
Ao virar da esquina de súbito avistamos
Irisado o Tejo:
Então se tornam
Leve o nosso corpo e a alma alada”

Ele, descendente de portugueses, soa mais melancólico que a própria portuguesa. Digamos que a melancolia de Sophia é ativa, de quem se espalhou pelo mundo, enquanto a dele, herdeiro de fados, é amplificada pela imigração, como se fosse uma melancolia ao quadrado.

O tom menor de Couto, quase soturno, repete-se em outros dois fragmentos sobre Lisboa. Ainda em Adeus à Rua Castilho, ele afirma que na “pedra antiga de Lisboa”:

“Fica este não-sei-quê de firme e obscuro
Que vem de longe e no teu peito passa,
Passado que é presente e que é futuro”

No poema Lisboa, Sophia fala da cidade em tom maior, altivo, ainda que para tratar do encontro da capital portuguesa com seu fado navegante: “Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata / Lisboa oscilando como uma grande barca / Lisboa cruelmente construída ao longo de sua própria ausência”.

A mesma velha cidade, lírica na voz dele, épica na dela.

II
Sentimento Atlântico do Mundo
A poesia dos dois está permeada pelo “sentimento atlântico do mundo”, expressão que conheci por meio de outro poeta de Santos, o contemporâneo Flávio Viegas Amoreira, ele mesmo autor de livros com título tais como Maralto, A Biblioteca Submergia ou Escorbuto Cantos da Costa.

Qualquer seleta de Couto ou de Sophia basta para nos revelar o poder do Atlântico. Do lado de cá do oceano, ele invoca a força das ressacas: “Oh! Ressaca dos dias bravos / O mar a investir contra o cais / E as ondas rebentando no alto!” (O mar e o cais).

Sophia repercute a amplidão oceânica em Mar sonoro:

“Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Serem um milagre criado só para mim.”

Noturno da praia deserta, de Couto, é outra fonte de imagens atlânticas na qual o mar e a noite se fundem: “Mistura de corpos e de hálitos, / Não se sabe se é mar, se é noite”. A estrofe central da peça é formada por epítetos para essa união. O poema segue na íntegra:

“Janela aberta para a sombra,
Vento que chega e traz meiguice,
Onda que canta nos rochedos,
Noite lavada de salitre,
Cheirosa de matos e espumas.

Repouso de todas as dúvidas,
Acalanto dos conformados,
Mãos esquecidas noutras mãos,
Matéria pura e sem memória,
Ausente do ocioso mistério.

Mistura de corpos e de hálitos,
Não se sabe se é mar, se é noite,
Apenas gosto, ritmo e cheiro,
A viagem que não tem nome
E o naufrágio na gratidão.”

Novamente notaremos a diferença de tons, mas as imagens e elementos repetem-se em Mar, de Sophia:

“I
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

II
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.”

Os elementos se repetem. O cheiro da vegetação misturado ao do mar em “noite lavada de salitre” e “a selvagem exalação das ondas”; o “grito puro” das ondas e a “onda que canta nos rochedos”; a união entre água e éter (“não se sabe se é mar, se é noite” e “subindo para os astros...”).

Talvez os dois poemas respondam à indagação de Marcel Proust feita em setembro de 1892 em Os prazeres e os dias: “O céu está escuro na Terra Negra, ainda brilha pouco, não se sabe por que mistério, por que brilhante relíquia do dia enterrada sob as ondas. O que é isso?”

III
A vida portuária
A ambiência telúrica do oceano tem como complemento os episódios prosaicos da vida portuária. Em Café do Porto, Couto descreve cenas de um café à beira do cais comandado por uma mulher refratária às investidas masculinas: “Beber, bebam: embebedem-se;/ Podem rebentar de cheios, / Dançar de roda, cantar na sala. / Não queiram é tocar-lhe os seios, / Que a dona do café do porto, / Ninguém poderá tocá-la.”

Em Nocturno da Graça, Sophia vê o movimento deste bairro de Lisboa: “Brilha a cidade dos anúncios luminosos / Com espiritismo bares cinemas / Com torvas janelas e seus torvos gozos / Brilha a cidade alheira.”

Novamente a diferença de tons ou, pensando em imagens, de enquadramentos cinematográficos: o close do pequeno espaço entre mesas de um café em Couto; o bairro visto de forma panorâmica em Sophia.

Ainda assim, os poemas chegam às estrofes finais cada um com um chamado de volta à amplidão do mar e da noite: “Já no cais o navio chama. / Bêbedos vão capitães, grumetes... / Era o último porto da escala.” (Couto) e “Comigo / Sobre o cais sobre o bordel e sobre a rua / Límpido e aceso / O silêncio dos astros continua.” (Sophia).

Epílogo
O cais é um lugar propício à reflexão, talvez mesmo por marcar essa divisa entre o território citadino e o mar telúrico; de um lado, a vida mundana de cafés, comércio e bordéis, do outro o chamado para a aventura e o mito. E aí retomo a epígrafe de Gaston Bachelard, tomada de A água e os sonhos:

“Não terá sido a morte o primeiro navegador?

Muito antes que os vivos se confiassem eles próprios às águas, não terão colocado o ataúde no mar, na torrente? O ataúde, nesta hipótese mitológica, não seria a ‘última barca’. Seria a 'primeira' barca. A morte não seria a última viagem. Seria a primeira viagem. Ela será, para alguns sonhadores profundos, a primeira viagem verdadeira.”

Pergunta que ele responde com a hipótese:

“Em todo caso, sobre o problema que nos ocupa, meditando um pouco a respeito, parece que a 'utilidade de navegar' não é bastante clara para determinar o homem pré-histórico a escavar uma canoa. Nenhuma utilidade pode legitimar o risco imenso de partir sobre as ondas. Para enfrentar a navegação, é preciso que haja interesses poderosos. Ora, os verdadeiros interesses poderosos são os interesses quiméricos. São os interesses que sonhamos, e não os que calculamos. São os interesses fabulosos. O herói do mar é um herói da morte. O primeiro marujo é o primeiro homem vivo que foi tão corajoso como um morto.”

No poema Náufrago, Sophia dá um corpo a esse herói:

“Agora morto oscilas
Ao sabor das correntes
Com medusas em vez de pupilas.

Agora reinas entre imagens puras
Em países transparentes e de vidros.
Sem coração e sem memória
Em todas as presenças diluído.

Agora liberto moras
Na pausa branca dos poemas.
Teu corpo sobre e cai em cada vaga,
Sem nome e sem destino
Na limpidez da água.”

Sobre essa primeira que é a última viagem, Couto escreveu Invocação do porto natal:

“O porto em que nasci! Era eu menino
Quando uma vez me viste, olhos no mar,
Pedir ao mar incerto o meu destino.

O mar ouviu-me. Meu destino é errar.
Por onde eu vá, seguindo esse destino,
Entre eu e minha mãe existe o mar.

Enfim, se o barco em que eu voltar um dia
Deva ir ao fundo, que suceda tal
Em frente ao porto a que eu tão bem queria.

E que meu corpo inerte, no balanço
Da onda encontrando o embalo maternal,
Possa no mesmo porto achar descanso.”

Esse morrer no porto natal de Rui Ribeiro Couto remete à concepção cíclica da vida que acompanhou a humanidade desde seus primórdios e que, na Modernidade, parece permanecer apenas (ou sobretudo) no fazer poético e na realização artística. Sophia de Mello Breyner Andresen fala desse Quando cíclico, poema com que se fecha a Estante:

“Quando meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.
Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.
Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.”

Estante

Sophia de Mello Breyner Andresen. Coral e outros poemas. Seleção e apresentação Eucanaã Ferraz. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

Sophia de Mello Breyner Andresen. Quando. In: Dia do Mar, 1974. Enviado por Daniela Aragão.

Ribeiro Couto. Melhores Poemas. Seleção José Almino. São Paulo, Global, 2002.

Gaston Bachelard. A água e os sonhos. Ensaio sobre a imaginação da matéria. Tradução Antonio de Pádua Danesi. São Paulo, Martins Fontes, 2002.

Marcel Proust. Os prazeres e os dias. Citado por Valérie Drechsler-Kayser em postagem compartilhada por Rodrigo Lucheta. (https://www.facebook.com/rodrigo.lucheta.1/posts/3783999444962234).

Sobre o poema Santos, de Rui Ribeiro Couto:
Alessandro Atanes. Uma infância em torno do porto. Portogente, 6 de agosto de 2006.
Alessandro Atanes. Ribeiro Couto: A infância em um poema. Revista Pausa, 29 de junho de 2012.

Sophia de Mello Breyner Andresen - O Nome das Coisas, documentário produzido e realizado pela Panavideo para a RTP 2.

 

 

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Amores entre folhas de um livro de Vicente de Carvalho

... Eros sacudiu meus
sensos, qual vento montanha abaixo a desabar sobre as árvores...

Ó doce mãe, não posso mais tecer a trama –

domada pelo desejo de um menino, graças à esguia Afrodite...

...morta, honestamente, quero estar;
ela me deixava chorando... 

... Eros de novo – o quebra-membros – me agita,
doce amarga inelutável criatura...
Fragmentos 47, 94, 102 e 130 de Safo de Lesbos


Alguns livros são únicos pela excelência que alcançam; outros pelo que fazem dele leitores e leitoras. A história que segue é a de um excelente livro e do que fez dele uma leitora.

I
As notas
Em 17 de abril de 1971, um sábado, Rose, leitora do Poemas & Canções de Vicente de Carvalho, faz anotações na folha em branco entre as primeira páginas de um exemplar da 16ª edição do livro, publicada nos anos 60 pela Saraiva:

“Dois homens se encontram e um pergunta ao outro qual o caminho para o Oriente, o outro responde que todos os caminhos levam ao Oriente, o outro então põe-se a caminhar pelo meio do mato.
Entendeu?
Pois é... não tem explicação...
Ou talvez tenha várias.
Cada qual decifre com a mente mais fria.”
Rose
17/4/71

E logo em seguida:

“Vida...
O que é esse problema chamado vida!
É um enigma:”
17/4/71 (sábado)

Além dessas duas anotações com a mesma data, escritas em diagonal e com a mesma caneta fina de tinta azul clara, lemos outra nota com a mesma letra, porém com uma caneta de traço mais forte, tinta azul escura e orientação horizontal:

“O amor necessita de fatos e que as palavras sirvam para apenas para reforçar o esses fatos...” (as palavras com uma linha por cima representam as rasuras no original).

A disposição indica que a escrita em azul escuro é posterior e seu conteúdo revela o motivo das anotações: Rose reflete sobre um amor perdido, como fica claro em outra anotação em azul claro datada de 1971 na página 73:

“Pra mim ser feliz era ter você... de qualquer jeito... louco... inconstante... Era acreditar em você cegamente
(Era) fazer de você o meu Deus
Ser feliz era ter você...
Você tal como é, sem preocupar se você realmente me amava”
R 1971

II
Leituras e amores de Rose
Vamos primeiro tentar desfiar essa trama. São dezenas de anotações espalhadas pelas páginas do livro. Começam após o famoso prefácio de Euclides da Cunha e são mais esparsas nas seções que tratam de temas épicos ou mitológicos, como Fugindo ao cativeiro, que trata de uma fuga de escravos pela Serra do Mar em direção ao quilombo do Jabaquara. Rose desabafa e reflete sobre uma desilusão amorosa.

Além das anotações em azul claro e azul escuro, Rose escreveu no livro também a lápis, com data de julho do ano anterior, 1970. Em um esquema geral, podemos dispor as anotações da seguinte forma:

1)      A lápis, em julho de 1970, Rose está de coração partido, magoada. São as notas de maior número, geralmente no tempo presente. Há outras também a lápis no tempo passado, mais reflexivas, talvez escritas em outro momento;

2)      Em caneta azul clara, abril de 1971, o tom é de reflexão. São notas mais extensas e em menor quantidade;

3)      Em caneta azul escura, sem data, refletem e comentam as anotações a lápis, com certeza são posteriores a elas; a disposição em relação às notas em azul claro que abrem o livro indica que são posteriores a essas também.
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Na página 110, uma anotação indica quando tudo começou:

“Minha alma na tua alma
– Nuvem que trouxe o vento –
Passou por um instante,
Roçou por um momento.”

Ao lado dos versos de Vicente de Carvalho, lemos em azul claro “Antonio Carlos” e “janeiro de 1970”. Mas, como dizem, a trama se adensa: na página ao lado, ainda no mesmo poema, os versos “Mentias... E a mentira / Era um gorjeio de ave... Morresse eu enganado / De engano tão suave” estão acompanhados por outro nome, Vagner. O que terá acontecido? Havia Antonio Carlos e Vagner apareceu e despedaçou o coração de Rose? Vagner ou Antonio Carlos, qual dos dois partiu o coração de Rose, partiu. É o que ela anota (“Eu e tua partida”) ao lado dos versos “Pois que te vais tão contente / E me deixas tão sem nada...” (página 161).

Na seção Da carteira de um doudo – que tem início com os versos “Numa cova bem funda, em sítio agreste / E solitário, junto / Das severas raízes de um cipreste / Meu coração deitei como um defunto.” – Rose comenta:

“Pedaços da minha história (resumida)”

Em uma estrofe de Palavras ao mar temos anotações a lápis e com caneta: “Nosso amor” a lápis antecede os versos “– Beijo que se desfaz sem ter vivido. / Triste flor que já brota desfolhada”, seguidos pela reflexão em azul claro:

“Nunca + você no meu caminho
Nunca + (não gosto dessa palavra”

Na página seguinte, as linhas de Vicente de Carvalho “Versos, marulho! Amargos confidentes / Do mesmo sonho que sonhamos ambos” são acompanhadas por duas reflexões de Rose: “Seja bom ou mau, traga recordações boas ou más, os sonhos são os mesmos” (lápis) e “E mesmo de modos tão diversos, no fundo querem dizer a mesma coisa” (tinta azul escura).

Outras reflexões sobre sonhos estão na página 257, em que os versos “Sonho belo talvez, com certeza, / Feito de riso e pranto, / Feito de sombra e luz, de alegria e tristeza / De encanto e desencanto.” – da seção Sonho Póstumo – são acompanhados pelos três tipos de notas:

“Sonho confesso” (lápis);
“O meu sonho em relação a você” (em tinta azul escura, explicando a nota a lápis);
“O meu amor por você” (tinta azul clara).

Ao final da seção Oração Pagã, uma reflexão final de Rose sobre os sonhos. Os versos “Ó meu amor, porção de nadas! / Tu sonhas tanto... E eu vejo só / Sonhos que de asas fraturadas / Rojam no pó...” são seguidos pelo comentário: “Meu amor era muito grande para os teus sonhos tão pequenos”.

III
Rose e Vagner
Abrindo a seção Trovas, a escrita em diagonal em tinta azul claro, traz um alento:

“Hoje estamos separados e esquecidos. Mas não importa, eu sei que 1 dia você me amou”.

Na página 210, originalmente em branco por anteceder a seção No mar largo, Rose faz em tinta azul clara talvez uma das mais fortes declarações: “A última vez que nos vimos, foi a última que eu chorei”.

Em outra página em branco, no mesmo estilo, outra reflexão: “Você foi o único 1º homem pra quem eu me rebaixei, e foi também o último”. A rasura em “único” demonstra a atitude de reflexão, de reconsideração sobre as coisas do passado.

Na seção Deslumbramento, reflexões sobre a ilusão. Os primeiros versos, “Quanto durou essa ilusão perdida / Esse amor, esse encanto, essa alvorada?”, têm um nome sobre eles, Vagner, com uma seta direcionada para a palavra “perdida”.

IV
Rose e Lilian
Mas há ainda outra personagem nessa história, Lilian, que também escreve no exemplar. São poucas frases, não mais de cinco, que comentam notas de Rose. A relação entre as duas começa na página 221 e tem um tom bem mais carinhoso e terno do que as agruras com Vagner (ou Antonio Carlos). A letra de Lilian é mais miúda que a de Rose, ficando bem fácil identificar o “diálogo”.

Lembram de Deslumbramento, no qual o nome Vagner está ligado à expressão “ilusão perdida”? O poema termina assim:

“E hoje, que para toda a eternidade,
Eu despertei do sonho de um momento,
Hoje, na sombra, penso com saudade
Que o teu encanto era uma claridade
E o meu amor foi um deslumbramento.”

Os dois últimos versos são anotados por Lilian com intensidade: “o fim do nosso amor será assim”. Ao que Rose responde: “Talvez essa seja a nossa grande verdade. Vou dar-lhe o nome ‘momentos’. É igual ao que passou comigo e talvez o fim seja o mesmo”. A palavra momentos entre aspas é reveladora, não?

Parece invenção aqui da Estante, mas o fato é que a continuação da conversa entre as duas está na seção Rosa, Rosa de Amor. Antes dos primeiros versos, Rose escreve em um tom bem mais lírico do que sobre o passado:

“A vida é uma eterna poesia, é um eterno descobrir.
O amor... são todas as coisas verdes; só teus olhos não eram assim. Eles eram como as aves errantes, que procuram tanto sem saber ao certo ‘o quê’”.

Novamente as aspas. E Lilian responde:

“Tudo é poesia, em cada palavra uma dor, em cada pensamento uma saudade”.

Após o verso final do segundo poema da seção: “Alcança-a meu beijo. O noivado começa”, Lilian vibra: “Bela!!! Poesia em forma de sonho”. E Rose recomeça:

“O começa de uma vida nova. A esperança de um futuro maravilhoso. Um beijo com + gosto de amor”.

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Epílogo
O último diálogo entre Rose e Lilian ocorre na página 289, no qual voltamos aos fragmentos. Após os versos “Ai, eu só vivo, querida, / Pedaços da minha vida...”, Lilian comenta: “Essa poesia traduz a verdadeira ânsia de amar”. E Rose: “Pedaços que já satisfazem um amor muito grande”.

O último poema do livro leva o nome de Última Confidência, tendo por último verso a expressão “Até morrer... de amor”. Virando a página, a última declaração de Rose:

“Um amor muito grande, que mesmo na hora final quis ficar em silêncio. Um silêncio fatal...”

À parte, em um pedaço de folha de almaço encontrada no meio do livro, uma reflexão de Lilian: “A vida é feita de ilusões, nasce uma, morre outra, e assim vamos sentindo, que não é só de realidade, que vivemos”.
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Intuímos o final dessa história de amor, aproximamo-nos de Rose ao mesmo tempo em que a sabemos inalcançável. Esse amor pode ter ficado em silêncio, mas foi escrito, às margens de um livro, mas foi escrito.

Rose amou e um livro de Vicente de Carvalho traz os rastros de sua história.


Estante
Vicente de Carvalho. Poemas & Canções. São Paulo: Saraiva, s/data (1ª edição 1908).

Lira grega. Antologia de poesia arcaica. Organização e tradução Giuliana Ragusa. São Paulo: Editora Hedra, 2013.

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Leia Mais
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Buraco pestilento: o cruel porto de Santos

A raiz do mal está na apatia da gente do governo;
e pelo que estamos vendo, parece que tudo no Brasil se desorganiza.

I
A epígrafe acima foi retirada do trecho final de um texto sobre a epidemia de febre amarela em Santos publicado em 9 de maio de 1892 no Jornal do Comércio de Liverpool. A versão em português de onde foi tirada é da Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, que traduz o texto em 7 de junho, pouco menos de um mês depois.

A nota começa já desmentindo as notícias de que a febre estava se extinguindo – não é nova a guerra de narrativas, né? – e volta a avisar armadores, carregadores, oficiais e marinheiros que “a febre estabeleceu residência permanente na cidade”.


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Soube do artigo de Liverpool por meio do historiador Bruno Bortoloto do Carmo, do Museu do Café, no texto Santos: “porto maldito” e a epidemia de febre amarela (1889–1895), agora de 5 de junho. “Porto maldito” é, digamos assim, um apelido epidemiológico bastante conhecido de quem já leu alguma coisa sobre o período. Na época, a fama era internacional: o pesquisador nos traz uma variação italiana “città maledetta”, cujo eco chega ao espanhol “Tierra maldita” do poema Santos Revisitado (1927-1967), de Pablo Neruda, no qual o chileno ainda chama a cidade de “axila do Brasil calorento”.

Do inglês, Bortoloto também nos traz a expressão bem barra pesada “white man’s grave” – túmulo do homem branco. Ele cita uma referência de 1931 na revista Tea and Coffee Journal, editada em Nova York, e, em uma conversa pela internet, completa: “white man's grave foi o que mais encontrei. Sempre por causa da febre amarela”. Outra em inglês que Santos compartilhou com outros portos é “pest hole”, que o pesquisador traduz por buraco pestilento.

White man’s grave se refere ao grande número de marinheiros e embarcados de navios europeus que não sobreviviam a Santos, como está no aviso de Liverpool:

“Não há ali meio, nem processo algum de saneamento, pelo menos como os ingleses o entendem; e o clima é sobremaneira insalubre e nocivo aos europeus. Isto dá-se mesmo nas melhores épocas. Porém se o indivíduo é de constituição forte e usando de certas precauções, consegue aclimar-se e resistir às doenças mais mortíferas e insidiosas. Ora, atualmente nem isso vale; e a maior parte dos residentes europeus veem-se na necessidade de fugir todas as tarde em trem de ferro para as montanhas”.

II
Um pouco antes, 1888, em um registro ficcional ainda que realista, Julio Ribeiro publica o romance A Carne, em que uma personagem descreve a cidade de Santos sob o calor de janeiro:

“A vida aqui é uma negação da fisiologia, é um verdadeiro milagre; não há hematose perfeita, as digestões são laboriosas, sua-se como no segundo grau da tísica pulmonar, como na convalescença de febres intermitentes. Eu, se fosse condenado a degredo em Santos, já não digo por toda a vida, mas por um ano ou dois, suicidava-me.”

O clima que amplifica o problema epidemiológico já havia sido anotado décadas antes, quando a febre amarela já havia aparecido na cidade. Quem relata é o médico e viajante alemão Robert Avé-Lallement, que passou pela cidade em 1858:

“Por mais graciosa que seja a paisagem que se desfruta do alto do Monte Serrat, jamais se lhe pode atribuir o conceito de região salubre. Ao contrário, forma uma caldeira com todos os ingredientes com os quais o sol tropical pode guisar uma multidão de matérias infecciosas. E nisso eficazmente cooperam os homens. Do outeiro se avistam, em baixo, em quase todos os pátios e hortas, lugares pantanosos, fossas sujas, poças de águas estagnadas. Mas isso não é nada ou apenas amargamente pouco. A flor da porcaria encontra-se na praia, no cais da cidade. Aqui é realmente de pasmar. Em toda parte imundície, em toda parte fedor, em todos os cantos e recantos matérias pútridas! E ainda se queixa a gente de ser perseguida pela febre!

Que magnífico solo deve encontrar o germe da febre que entra aqui e como deve ser difícil, aqui, que os não aclimados escapem à febre amarela! Como ainda em 1850 assustava desesperadoramente a simples palavra — febre amarela – no Brasil! E hoje, passados apenas sete a oito anos, constrói-se um templo à deusa Febris e conscienciosamente se praticam os seus mistérios na praia imunda de Santos.”

III
Um lamento à deusa Febris está no poema O Navio da Febre, também em inglês, de John Masefield (1878-1967), de Nova York, também marinheiro nos anos 90 do século XIX que viajou para a América do Sul em 1894, com destino ao Chile. A tradução é do poeta Paulo de Toledo, feita de um dia para outro, em ritmo jornalístico, a pedido da Estante. Blue Peter, explica o tradutor, é uma bandeira azul hasteada em navios que estão prestes a zarpar. Terá o autor passado por Santos? Seu poema, uma balada, com certeza:

O NAVIO DA FEBRE

Sem garotas a chorar no cais quando o navio partir,
Nem homens em festa, na balaustrada, todos a rir,
E nenhuma Blue Peter hasteada na proa agora.
Pegamos a Febre Amarela: — Harry morreu faz uma hora.
          É cruel quando a febre vai a bordo!

O Dick sofre tremores, e veja o que eu havia dito
(Arrumei a cama pra ele se proteger do frio maldito):
“Posso pegar um cobertor?”, eu disse, “o Dick vai finar”.
“Ai, meu saco!”, disse o capitão, “deixa o patife deitar!” —
          É cruel quando a febre vai a bordo!

Há um porto cruel em Santos, numa terra árida,
Com várias covas já feitas nas faixas de areia clara,
E o Dick grita pela escotilha, diz que perde a cor,
Seus dentes podres tremem, e o que fazer pra se opor?
          É cruel quando a febre vai a bordo!

Epílogo
Em 1892, data do texto traduzido na Gazeta de Notícias, morreram em Santos 4.173 pessoas, sendo 1.742 por febre amarela e outras 823 por varíola. A cidade não tinha nem 30 mil habitantes. Na última estrofe do poema, Masefield fala de uma linha (row) de covas. O professor de inglês Itamar Alves, amigo como Paulo, traduziu assim o trecho final:

“Um porto cruel, Santos, e uma terra insaciável,
Renque de sepulturas já abertas em faixas de terra alhures
Cadu berrando na escotilha, ele que está azulando
Seus dentes frágeis tremendo, o que pode um homem fazer?
          É cruel quando um joão-ninguém contrai a febre!”


Em Santos, naquele ano, mais de 2 mil pessoas (João-Ninguéns) morreram por doenças infecciosas. Quantas delas devido à apatia?

Quantas delas hoje?

Quantas daqui a duas semanas?

Estante

John Masefield. Fever ship. In(?): Salt-Water Ballads, 1902.
FEVER SHIP
There'll be no weepin' gells ashore when our ship sails,
Nor no crews cheerin' us, standin' at the rails,
'N' no Blue Peter a-foul the royal stay,
For we've the Yellow Fever — Harry died to-day. —
          It's cruel when a fo'c's'le gets the fever!

'N' Dick has got the fever-shakes, 'n' look what I was told
(I went to get a sack for him to keep him from the cold):
"Sir, can I have a sack?" I says, "for Dick 'e's fit to die."
"Oh, sack be shot!" the skipper says, "jest let the rotter lie!" —
          It's cruel when a fo'c's'le gets the fever!

It's a cruel port is Santos, and a hungry land,
With rows o' graves already dug in yonder strip of sand,
'N' Dick is hollerin' up the hatch, 'e says 'e's goin' blue,
His pore teeth are chattering, 'n' what 's a man to do? —
          It's cruel when a fo'c's'le gets the fever!

Bruno Bortoloto do Carmo. Santos: “porto maldito” e a epidemia de febre amarela (1889–1895). Medium, Museu do Café, 6 de junho de 2020. 

Pablo Neruda. Santos Revisitado (1927-1967). In: La Barcarola. Edição e notas Hernán Loyola. Prólogo Maria Gabriela Mizraje. Buanos Aires, Debolsillo, 2004.

Julio Ribeiro. A Carne. São Paulo: Editora Saber, 1975.

Robert Avé-Lallemant. Viagem pelas Províncias do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Editora Itatiaia Limitada, 1980. Leia aqui outros trechos do viajante sobre Santos.


Confira a notícia do jornal de Liverpool no acervo da Biblioteca Nacional.

No vídeo, John Masefield declama Sea fever.

 

 

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Sobre
Blog de crítica literária. Alessandro Atanes é autor do livro "Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos", também traduz, compõe e toca guitarra. De profissão jornalista, tem mestrado em história social (USP, 2008) e é servidor público municipal de Cubatão desde 1999.