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Amores entre folhas de um livro de Vicente de Carvalho

... Eros sacudiu meus
sensos, qual vento montanha abaixo a desabar sobre as árvores...

Ó doce mãe, não posso mais tecer a trama –

domada pelo desejo de um menino, graças à esguia Afrodite...

...morta, honestamente, quero estar;
ela me deixava chorando... 

... Eros de novo – o quebra-membros – me agita,
doce amarga inelutável criatura...
Fragmentos 47, 94, 102 e 130 de Safo de Lesbos


Alguns livros são únicos pela excelência que alcançam; outros pelo que fazem dele leitores e leitoras. A história que segue é a de um excelente livro e do que fez dele uma leitora.

I
As notas
Em 17 de abril de 1971, um sábado, Rose, leitora do Poemas & Canções de Vicente de Carvalho, faz anotações na folha em branco entre as primeira páginas de um exemplar da 16ª edição do livro, publicada nos anos 60 pela Saraiva:

“Dois homens se encontram e um pergunta ao outro qual o caminho para o Oriente, o outro responde que todos os caminhos levam ao Oriente, o outro então põe-se a caminhar pelo meio do mato.
Entendeu?
Pois é... não tem explicação...
Ou talvez tenha várias.
Cada qual decifre com a mente mais fria.”
Rose
17/4/71

E logo em seguida:

“Vida...
O que é esse problema chamado vida!
É um enigma:”
17/4/71 (sábado)

Além dessas duas anotações com a mesma data, escritas em diagonal e com a mesma caneta fina de tinta azul clara, lemos outra nota com a mesma letra, porém com uma caneta de traço mais forte, tinta azul escura e orientação horizontal:

“O amor necessita de fatos e que as palavras sirvam para apenas para reforçar o esses fatos...” (as palavras com uma linha por cima representam as rasuras no original).

A disposição indica que a escrita em azul escuro é posterior e seu conteúdo revela o motivo das anotações: Rose reflete sobre um amor perdido, como fica claro em outra anotação em azul claro datada de 1971 na página 73:

“Pra mim ser feliz era ter você... de qualquer jeito... louco... inconstante... Era acreditar em você cegamente
(Era) fazer de você o meu Deus
Ser feliz era ter você...
Você tal como é, sem preocupar se você realmente me amava”
R 1971

II
Leituras e amores de Rose
Vamos primeiro tentar desfiar essa trama. São dezenas de anotações espalhadas pelas páginas do livro. Começam após o famoso prefácio de Euclides da Cunha e são mais esparsas nas seções que tratam de temas épicos ou mitológicos, como Fugindo ao cativeiro, que trata de uma fuga de escravos pela Serra do Mar em direção ao quilombo do Jabaquara. Rose desabafa e reflete sobre uma desilusão amorosa.

Além das anotações em azul claro e azul escuro, Rose escreveu no livro também a lápis, com data de julho do ano anterior, 1970. Em um esquema geral, podemos dispor as anotações da seguinte forma:

1)      A lápis, em julho de 1970, Rose está de coração partido, magoada. São as notas de maior número, geralmente no tempo presente. Há outras também a lápis no tempo passado, mais reflexivas, talvez escritas em outro momento;

2)      Em caneta azul clara, abril de 1971, o tom é de reflexão. São notas mais extensas e em menor quantidade;

3)      Em caneta azul escura, sem data, refletem e comentam as anotações a lápis, com certeza são posteriores a elas; a disposição em relação às notas em azul claro que abrem o livro indica que são posteriores a essas também.
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Na página 110, uma anotação indica quanto tudo começou:

“Minha alma na tua alma
– Nuvem que trouxe o vento –
Passou por um instante,
Roçou por um momento.”

Ao lado dos versos de Vicente de Carvalho, lemos em azul claro “Antonio Carlos” e “janeiro de 1970”. Mas, como dizem, a trama se adensa: na página ao lado, ainda no mesmo poema, os versos “Mentias... E a mentira / Era um gorjeio de ave... Morresse eu enganado / De engano tão suave” estão acompanhados por outro nome, Vagner. O que terá acontecido? Havia Antonio Carlos e Vagner apareceu e despedaçou o coração de Rose? Vagner ou Antonio Carlos, qual dos dois partiu o coração de Rose, partiu. É o que ela anota (“Eu e tua partida”) ao lado dos versos “Pois que te vais tão contente / E me deixas tão sem nada...” (página 161).

Na seção Da carteira de um doudo – que tem início com os versos “Numa cova bem funda, em sítio agreste / E solitário, junto / Das severas raízes de um cipreste / Meu coração deitei como um defunto.” – Rose comenta:

“Pedaços da minha história (resumida)”

Em uma estrofe de Palavras ao mar temos anotações a lápis e com caneta: “Nosso amor” a lápis antecede os versos “– Beijo que se desfaz sem ter vivido. / Triste flor que já brota desfolhada”, seguidos pela reflexão em azul claro:

“Nunca + você no meu caminho
Nunca + (não gosto dessa palavra”

Na página seguinte, as linhas de Vicente de Carvalho “Versos, marulho! Amargos confidentes / Do mesmo sonho que sonhamos ambos” são acompanhadas por duas reflexões de Rose: “Seja bom ou mau, traga recordações boas ou más, os sonhos são os mesmos” (lápis) e “E mesmo de modos tão diversos, no fundo querem dizer a mesma coisa” (tinta azul escura).

Outras reflexões sobre sonhos estão na página 257, em que os versos “Sonho belo talvez, com certeza, / Feito de riso e pranto, / Feito de sombra e luz, de alegria e tristeza / De encanto e desencanto.” – da seção Sonho Póstumo – são acompanhados pelos três tipos de notas:

“Sonho confesso” (lápis);
“O meu sonho em relação a você” (em tinta azul escura, explicando a nota a lápis);
“O meu amor por você” (tinta azul clara).

Ao final da seção Oração Pagã, uma reflexão final de Rose sobre os sonhos. Os versos “Ó meu amor, porção de nadas! / Tu sonhas tanto... E eu vejo só / Sonhos que de asas fraturadas / Rojam no pó...” são seguidos pelo comentário: “Meu amor era muito grande para os teus sonhos tão pequenos”.

III
Rose e Vagner
Abrindo a seção Trovas, a escrita em diagonal em tinta azul claro, traz um alento:

“Hoje estamos separados e esquecidos. Mas não importa, eu sei que 1 dia você me amou”.

Na página 210, originalmente em branco por anteceder a seção No mar largo, Rose faz em tinta azul clara talvez uma das mais fortes declarações: “A última vez que nos vimos, foi a última que eu chorei”.

Em outra página em branco, no mesmo estilo, outra reflexão: “Você foi o único 1º homem pra quem eu me rebaixei, e foi também o último”. A rasura em “único” demonstra a atitude de reflexão, de reconsideração sobre as coisas do passado.

Na seção Deslumbramento, reflexões sobre a ilusão. Os primeiros versos, “Quanto durou essa ilusão perdida / Esse amor, esse encanto, essa alvorada?”, têm um nome sobre eles, Vagner, com uma seta direcionada para a palavra “perdida”.

IV
Rose e Lilian
Mas há ainda outra personagem nessa história, Lilian, que também escreve no exemplar. São poucas frases, não mais de cinco, que comentam notas de Rose. A relação entre as duas começa na página 221 e tem um tom bem mais carinhoso e terno do que as agruras com Vagner (ou Antonio Carlos). A letra de Lilian é mais miúda que a de Rose, ficando bem fácil identificar o “diálogo”.

Lembram de Deslumbramento, no qual o nome Vagner está ligado à expressão “ilusão perdida”? O poema termina assim:

“E hoje, que para toda a eternidade,
Eu despertei do sonho de um momento,
Hoje, na sombra, penso com saudade
Que o teu encanto era uma claridade
E o meu amor foi um deslumbramento.”

Os dois últimos versos são anotados por Lilian com intensidade: “o fim do nosso amor será assim”. Ao que Rose responde: “Talvez essa seja a nossa grande verdade. Vou dar-lhe o nome ‘momentos’. É igual ao que passou comigo e talvez o fim seja o mesmo”. A palavra momentos entre aspas é reveladora, não?

Parece invenção aqui da Estante, mas o fato é que a continuação da conversa entre as duas está na seção Rosa, Rosa de Amor. Antes dos primeiros versos, Rose escreve em um tom bem mais lírico do que sobre o passado:

“A vida é uma eterna poesia, é um eterno descobrir.
O amor... são todas as coisas verdes; só teus olhos não eram assim. Eles eram como as aves errantes, que procuram tanto sem saber ao certo ‘o quê’”.

Novamente as aspas. E Lilian responde:

“Tudo é poesia, em cada palavra uma dor, em cada pensamento uma saudade”.

Após o verso final do segundo poema da seção: “Alcança-a meu beijo. O noivado começa”, Lilian vibra: “Bela!!! Poesia em forma de sonho”. E Rose recomeça:

“O começa de uma vida nova. A esperança de um futuro maravilhoso. Um beijo com + gosto de amor”.

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Epílogo
O último diálogo entre Rose e Lilian ocorre na página 289, no qual voltamos aos fragmentos. Após os versos “Ai, eu só vivo, querida, / Pedaços da minha vida...”, Lilian comenta: “Essa poesia traduz a verdadeira ânsia de amar”. E Rose: “Pedaços que já satisfazem um amor muito grande”.

O último poema do livro leva o nome de Última Confidência, tendo por último verso a expressão “Até morrer... de amor”. Virando a página, a última declaração de Rose:

“Um amor muito grande, que mesmo na hora final quis ficar em silêncio. Um silêncio fatal...”

À parte, em um pedaço de folha de almaço encontrada no meio do livro, uma reflexão de Lilian: “A vida é feita de ilusões, nasce uma, morre outra, e assim vamos sentindo, que não é só de realidade, que vivemos”.
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Intuímos o final dessa história de amor, aproximamo-nos de Rose ao mesmo tempo em que a sabemos inalcançável. Esse amor pode ter ficado em silêncio, mas foi escrito, às margens de um livro, mas foi escrito.

Rose amou e um livro de Vicente de Carvalho traz os rastros de sua história.


Estante
Vicente de Carvalho. Poemas & Canções. São Paulo: Saraiva, s/data (1ª edição 1908).

Lira grega. Antologia de poesia arcaica. Organização e tradução Giuliana Ragusa. São Paulo: Editora Hedra, 2013.

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Buraco pestilento: o cruel porto de Santos

A raiz do mal está na apatia da gente do governo;
e pelo que estamos vendo, parece que tudo no Brasil se desorganiza.

I
A epígrafe acima foi retirada do trecho final de um texto sobre a epidemia de febre amarela em Santos publicado em 9 de maio de 1892 no Jornal do Comércio de Liverpool. A versão em português de onde foi tirada é da Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, que traduz o texto em 7 de junho, pouco menos de um mês depois.

A nota começa já desmentindo as notícias de que a febre estava se extinguindo – não é nova a guerra de narrativas, né? – e volta a avisar armadores, carregadores, oficiais e marinheiros que “a febre estabeleceu residência permanente na cidade”.


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Soube do artigo de Liverpool por meio do historiador Bruno Bortoloto do Carmo, do Museu do Café, no texto Santos: “porto maldito” e a epidemia de febre amarela (1889–1895), agora de 5 de junho. “Porto maldito” é, digamos assim, um apelido epidemiológico bastante conhecido de quem já leu alguma coisa sobre o período. Na época, a fama era internacional: o pesquisador nos traz uma variação italiana “città maledetta”, cujo eco chega ao espanhol “Tierra maldita” do poema Santos Revisitado (1927-1967), de Pablo Neruda, no qual o chileno ainda chama a cidade de “axila do Brasil calorento”.

Do inglês, Bortoloto também nos traz a expressão bem barra pesada “white man’s grave” – túmulo do homem branco. Ele cita uma referência de 1931 na revista Tea and Coffee Journal, editada em Nova York, e, em uma conversa pela internet, completa: “white man's grave foi o que mais encontrei. Sempre por causa da febre amarela”. Outra em inglês que Santos compartilhou com outros portos é “pest hole”, que o pesquisador traduz por buraco pestilento.

White man’s grave se refere ao grande número de marinheiros e embarcados de navios europeus que não sobreviviam a Santos, como está no aviso de Liverpool:

“Não há ali meio, nem processo algum de saneamento, pelo menos como os ingleses o entendem; e o clima é sobremaneira insalubre e nocivo aos europeus. Isto dá-se mesmo nas melhores épocas. Porém se o indivíduo é de constituição forte e usando de certas precauções, consegue aclimar-se e resistir às doenças mais mortíferas e insidiosas. Ora, atualmente nem isso vale; e a maior parte dos residentes europeus veem-se na necessidade de fugir todas as tarde em trem de ferro para as montanhas”.

II
Um pouco antes, 1888, em um registro ficcional ainda que realista, Julio Ribeiro publica o romance A Carne, em que uma personagem descreve a cidade de Santos sob o calor de janeiro:

“A vida aqui é uma negação da fisiologia, é um verdadeiro milagre; não há hematose perfeita, as digestões são laboriosas, sua-se como no segundo grau da tísica pulmonar, como na convalescença de febres intermitentes. Eu, se fosse condenado a degredo em Santos, já não digo por toda a vida, mas por um ano ou dois, suicidava-me.”

O clima que amplifica o problema epidemiológico já havia sido anotado décadas antes, quando a febre amarela já havia aparecido na cidade. Quem relata é o médico e viajante alemão Robert Avé-Lallement, que passou pela cidade em 1858:

“Por mais graciosa que seja a paisagem que se desfruta do alto do Monte Serrat, jamais se lhe pode atribuir o conceito de região salubre. Ao contrário, forma uma caldeira com todos os ingredientes com os quais o sol tropical pode guisar uma multidão de matérias infecciosas. E nisso eficazmente cooperam os homens. Do outeiro se avistam, em baixo, em quase todos os pátios e hortas, lugares pantanosos, fossas sujas, poças de águas estagnadas. Mas isso não é nada ou apenas amargamente pouco. A flor da porcaria encontra-se na praia, no cais da cidade. Aqui é realmente de pasmar. Em toda parte imundície, em toda parte fedor, em todos os cantos e recantos matérias pútridas! E ainda se queixa a gente de ser perseguida pela febre!

Que magnífico solo deve encontrar o germe da febre que entra aqui e como deve ser difícil, aqui, que os não aclimados escapem à febre amarela! Como ainda em 1850 assustava desesperadoramente a simples palavra — febre amarela – no Brasil! E hoje, passados apenas sete a oito anos, constrói-se um templo à deusa Febris e conscienciosamente se praticam os seus mistérios na praia imunda de Santos.”

III
Um lamento à deusa Febris está no poema O Navio da Febre, também em inglês, de John Masefield (1878-1967), de Nova York, também marinheiro nos anos 90 do século XIX que viajou para a América do Sul em 1894, com destino ao Chile. A tradução é do poeta Paulo de Toledo, feita de um dia para outro, em ritmo jornalístico, a pedido da Estante. Blue Peter, explica o tradutor, é uma bandeira azul hasteada em navios que estão prestes a zarpar. Terá o autor passado por Santos? Seu poema, uma balada, com certeza:

O NAVIO DA FEBRE

Sem garotas a chorar no cais quando o navio partir,
Nem homens em festa, na balaustrada, todos a rir,
E nenhuma Blue Peter hasteada na proa agora.
Pegamos a Febre Amarela: — Harry morreu faz uma hora.
          É cruel quando a febre vai a bordo!

O Dick sofre tremores, e veja o que eu havia dito
(Arrumei a cama pra ele se proteger do frio maldito):
“Posso pegar um cobertor?”, eu disse, “o Dick vai finar”.
“Ai, meu saco!”, disse o capitão, “deixa o patife deitar!” —
          É cruel quando a febre vai a bordo!

Há um porto cruel em Santos, numa terra árida,
Com várias covas já feitas nas faixas de areia clara,
E o Dick grita pela escotilha, diz que perde a cor,
Seus dentes podres tremem, e o que fazer pra se opor?
          É cruel quando a febre vai a bordo!

Epílogo
Em 1892, data do texto traduzido na Gazeta de Notícias, morreram em Santos 4.173 pessoas, sendo 1.742 por febre amarela e outras 823 por varíola. A cidade não tinha nem 30 mil habitantes. Na última estrofe do poema, Masefield fala de uma linha (row) de covas. O professor de inglês Itamar Alves, amigo como Paulo, traduziu assim o trecho final:

“Um porto cruel, Santos, e uma terra insaciável,
Renque de sepulturas já abertas em faixas de terra alhures
Cadu berrando na escotilha, ele que está azulando
Seus dentes frágeis tremendo, o que pode um homem fazer?
          É cruel quando um joão-ninguém contrai a febre!”

Em Santos, naquele ano, mais de 2 mil pessoas (João-Ninguéns) morreram por doenças infecciosas. Quantas deas devido à apatia?

Quantas delas hoje?

Quantas daqui a duas semanas?

Estante

John Masefield. Fever ship. In(?): Salt-Water Ballads, 1902.
FEVER SHIP
There'll be no weepin' gells ashore when our ship sails,
Nor no crews cheerin' us, standin' at the rails,
'N' no Blue Peter a-foul the royal stay,
For we've the Yellow Fever — Harry died to-day. —
          It's cruel when a fo'c's'le gets the fever!

'N' Dick has got the fever-shakes, 'n' look what I was told
(I went to get a sack for him to keep him from the cold):
"Sir, can I have a sack?" I says, "for Dick 'e's fit to die."
"Oh, sack be shot!" the skipper says, "jest let the rotter lie!" —
          It's cruel when a fo'c's'le gets the fever!

It's a cruel port is Santos, and a hungry land,
With rows o' graves already dug in yonder strip of sand,
'N' Dick is hollerin' up the hatch, 'e says 'e's goin' blue,
His pore teeth are chattering, 'n' what 's a man to do? —
          It's cruel when a fo'c's'le gets the fever!

Bruno Bortoloto do Carmo. Santos: “porto maldito” e a epidemia de febre amarela (1889–1895). Medium, Museu do Café, 6 de junho de 2020. 

Pablo Neruda. Santos Revisitado (1927-1967). In: La Barcarola. Edição e notas Hernán Loyola. Prólogo Maria Gabriela Mizraje. Buanos Aires, Debolsillo, 2004.

Julio Ribeiro. A Carne. São Paulo: Editora Saber, 1975.

Robert Avé-Lallemant. Viagem pelas Províncias do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Editora Itatiaia Limitada, 1980. Leia aqui outros trechos do viajante sobre Santos.


Confira a notícia do jornal de Liverpool no acervo da Biblioteca Nacional.

No vídeo, John Masefield declama Sea fever.

 

 

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Sombras sobre Santos

Porque a razão dorme. Ela exige um esforço áspero de vigília,
enquanto à noite, o obscuro, o monstruoso, nascem naturalmente.
O homem é assediado pelas trevas.
Jorge Coli

I
A cidade de Santos é atacada por monstros dignos ou aparentados a Godzilla. Um lagarto chega pela praia e avança sobre o Gonzaga destruindo a Praça das Bandeiras; um polvo enfia seus tentáculos por entre os vãos da mureta da Ponta da Praia e as arranca facilmente, destruindo nosso símbolo preferido; uma tartaruga emerge do Estuário, destói um navio e cospe fogo sobre o cais. Esse é o marco inicial de Monstros! (2012), narrativa visual de Gustavo Duarte.

Chamo narrativa visual porque o autor não usa sequer uma palavra além do título pra contar sua história, até mesmo os balões nos fortuitos diálogos estão preenchidos pelos monstros que as palavras descrevem. Uma de suas estratégias é a utilização de sombras para anunciar seus monstros: o quadrinho imediatamente anterior à duas das três aparições é tomado pela escuridão, que contrasta com a suave monocromia das imagens. Abaixo, três miniaturas com a chegada do lagarto ao Gonzaga:

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Gigantescas como o mais recente Godzilla do cinema, as três criaturas são precedidas pelas sombras que as anunciam (o filme também se utiliza da sombra, mas sem contraste, a película é toda marcada por uma fotografia sombria, confira abaixo). As duas histórias exploram o arquétipo do assédio da humanidade pelas trevas.

II
O título de hoje é tomado emprestado de Sombras sobre Santos: o longo caminho de volta, livro-reportagem de Ricardo Marques da Silva e Carlos Mauri Alexandrino publicado em 1988, que conta a história política da cidade entre o golpe civil-militar de 1964 e a reconquista da autonomia política em 1984 com a posse do prefeito eleito Osvaldo Justo.

No livro, o período da ditadura é tratado como uma sombra sobre a cidade, ideia magistralmente ilustrada na fotografia de Rafael Dias Herrera escolhida para abrir o capítulo Tempos Sombrios: uma imagem de quepes militares que cobrem - fazem sombra - a mesa do salão nobre da Prefeitura no dia da posse do interventor imposto.

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Projetando todo o período, o livro traz o episódio do navio pintado de preto. o Raul Soares, despojado de suas funções de comunicação de porto em porto para transformar-se em um presídio fundeado no meio do canal do Estuário (esse mesmo pelo qual a tartaruga invade a cidade):

"... na manhã de 24 de abril de 1964, outro navio apontou sua proa em direção ao canal do estuário, arrastado por dois rebocadores. A não ser pelo casco pintado de preto, parecia um navio como outro qualquer. Porém, em vez de permancecer em um ponto do longo cais, ele fundeou sobre um banco de areia no meio do canal, perto da Ilha Barnabé, e ali mesmo ficou."


III
Voltando à invenção literária, quem tratou de forma poética a presença dessa sombra no cais foi Lídia Maria de Melo, em poemas de 1982 inseridos em seu livro Raul Soares: um navio tatuado em nós. O livro traz um relato jornalístico sobre as trajetórias de alguns dos prisioneiros; já os poemas são feitos a partir da perspectiva da menina que teve o pai sindicalista preso no local.

O poema Apenas um navio, como já tive a oportunidade de escrever em outra ocasião, carrega no próprio título toda a singularidade do episódio, um texto que evoca a infância à beira do cais como muito comum, por exemplo, nos versos de Ribeiro Couto, mas uma infância marcada pela incerteza do Estado de Exceção após o golpe.

Apenas um navio

"No ano de meia quatro,
no meio do estuário
em frente ao porto de Santos,
o porto de minha infância,
Das barcas e das catraias,
dos navios e rebocadores,
Dos trens e dos armazéns,
onde os botos,
às cinco e meia da tarde,
viraram cambalhotas
enquanto as gaivotas
fisgavam peixes no mar,
avistava-se um navio
velho, preto,
ancorado
próximo à Ilha Barnabé,
que os menos informados
confundiam com um navio comum.
Mas eu e muitas crianças,
que ansiavam
para verem os pais
(confinados),
sabíamos que ele era bem mais
que um navio qualquer
e o culpávamos
pela ausência paterna
nos almoços de domingo,
pela angústia disfarçada nos olhos de nossas mães,
pela melancolia que abraçava
todas nossas brincadeiras,
pela vontade de chorar
sem saber bem o porquê.
Nós já sentíamos tudo
e éramos tão crianças!
Só o que não entendíamos
é que o Raul Soares
era apenas um navio
e não tinha culpa de nada.
Não tinha culpa de ter virado
instrumento repressivo
no ano de meia quatro."

Mais para o final do livro, ao narrar a retomada da vida comum (???) do pai, Iradil, após a anistia em 1980, que lhe propiciou voltar a trabalhar, Lídia ergue um brinde em sua homenagem com um poema cujos três versos finais são assim:

"Até parece piada.
Te arrebentaram...
Te matar não conseguiram."

Versos que conversam com outras citação de Jorge Coli: "Afastar o obscuro - eis o desejo primordial".

Epílogo
Além da capacidade de narrar visualmente, Monstros! também faz uma viagem pelo tempo e mostra uma Santos, a julgar pelos carros nas ruas e programas de TV que as personagens assistem, da primeira metade da década de 1980, quando assistíamos a seriados japoneses como Spectreman, tanto que o livro é dedicado ao Dr. Gori, o arqui-inimigo do protagonista.

Mas o livro não traz referências apenas à cultura pop japonesa: logo no início, antes do "Gonzaguizila" (invenção minha esse nome) surgir do oceano, a superfície da água vai turbilhonando-se e o agito produz uma onda que é praticamente uma citação da famosa A Grande Onda de Kanagawa (1830-1831), xilogravura de Katsushika Hokusai.

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Seu Pinô, dono de um bar que vai enfrentar os monstros, tem todo um jeitão de um Merlin do Macuco que prepara poções mágicas em um caldeirão sobre o balcão de seu estabelecimento. Na Ponta da Praia, um pouco antes de enfrentar o polvo, Pinô retira do local um senhorzinho bem míope que estava pescando por ali e que acaba indo embora em uma lambreta italiana.


E isso para não falar da estante de Pinô na cena final, repleta de troféus conquistados em aventuras anteriores. Para citar apenas dois: estão ali a Jules Rimet e Excalibur.

Estante
Gustavo Duarte. Monstros!. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Ricardo Marques da Silva & Mauri Alexandrino. Sombras sobre Santos: o longo caminho de volta. Santos: Secretaria Municipal de Cultura, 1988.

Lídia Maria de Melo. Raul Soares, um navio tatuado em nós. São Paulo/ Santos: Pioneira/ Universidade Santa Cecília dos Bandeirantes, 1995.

Jorge Coli. "Da luz e da sombra". In.: O corpo da liberdade. Reflexões sobre a pintura do século XIX. São Paulo: Cosac Naify,  2010. 


 

 

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Nos passos de Marcel Schwob ou A Cruzada dos Terraplanistas

Sonhei que via nas diligências que entravam e saíam
da usina nuclear de Civitavecchia o rosto de Marcel Schwob.
A visão era fugaz. Um rosto quase translúcido,
com os olhos cansados, apertado de felicidade e de dor.
Roberto Bolaño
 

O conflito político essencial pelo qual estamos passando – civilização versus fascismo – apresenta-se como uma baita oportunidade para a Literatura exercer seu papel de pensar o mundo. Deixo claro, em primeiro lugar, que não me refiro ao engajamento político de autores e autoras (decisão individual que deve ser respeitada), e muito menos a obras panfletárias que, com as devidas exceções, parecem-se mais a panfletos do que obras.


Pensei nisso após ler um miniconto de Cícero Gilmar Lopes sobre a pandemia, tema de um recente edital de instituição financeira para escritores. Em oito linhas narradas em primeira pessoa, um homem negacionista-cloroquinista-terraplanista reflete sobre suas ações após tudo ter passado. Gostei da feitura do texto, mas minha opinião importa pouco, gostaria de destacar o procedimento: Cícero, um homem da civilização, pôs-se a pensar seu contrário, não para torná-lo caricatura, mas para entendê-lo.


Em outras circunstâncias, foi exatamente o que fez Marguerite Yourcenar ao preparar o romance Memórias de Adriano, tema do texto anterior desta Estante, em que o imperador romano, na velhice, traça um panorama de sua vida.

Tanto o miniconto inédito quanto o romance aclamado exploram ficcionalmente um veio que é um verdadeiro campo de batalha literário: as biografias e os relatos pessoais, sucesso mundial com extremos de pura fofoca de um lado e painel social do outro, sempre com um protagonista à frente, verdadeiras odes ao individualismo (ou à individualidade, para não parecer tão crítico), alimentadas pelo interesse enciclopédico da modernidade.


Quem deu começo a essa brincadeira foi o francês citado no título, Marcel Schwob (1867-1905), autor de Vidas Imaginárias, de 1896, ainda no século XIX, em que – mostra-se aí o interesse enciclopédico – se utiliza de relatos e documentos antigos para dar corpo a uma série de biografados, reais ou imaginários. 


Jorge Luis Borges, conhecedor da obra de Schwob e ele mesmo autor de caráter enciclopédico (lembro aqui do Manual de Zoologia Fantástica), usa as mesmas ferramentas para escrever seus primeiros relatos ficcionais, os perfis de piratas, golpistas e foras-da-lei reunidos em História Universal da Infâmia, de 1934.

Borges é autor de um prefácio a A Cruzada das Crianças, também do autor francês, do mesmo ano das vidas imaginárias, em que o autor parte de relatos sobre grupos de crianças alemãs e francesas que formavam colunas em direção a Jerusalém durante as cruzadas. Schwob transforma esse material em uma série de relatos em primeira pessoa para dar luzes distintas ao episódio (que perdura de alguma forma na tradição do Flautista de Hamelin): “Sonhou assim, ser o papa, ser o goliardo, ser as três crianças, ser o clérigo”, diz o prefácio. 

Leitor de Schwob e de Borges (a quem dedica o texto O Bibliotecário Valente), o chileno Roberto Bolaño (1953-2003) publica em 1996 A Literatura Nazista na América, editado há somente dois anos no Brasil, no qual dá um passo além de Borges no caminho inaugurado pelo francês, reunindo perfis fictícios de todo o continente, todos ligados à ultradireita ou simpatizantes do autoritarismo. Bolaño, pessoa de esquerda (chegou a estar detido quando jovem por alguns dias após o golpe militar no Chile), consegue nessa obra nos fazer entender o autoritarismo e a violência política da América Latina por meio da criação imaginativa do outro. Nenhum dos “biografados” é uma caricatura.

O filósofo brasileiro que escreve refutações contra os autores iluministas, por exemplo, tem mais dignidade que o brasileiro autodeclarado filósofo que vive nos Estados Unidos (prontofalei). Já no perfil de Irma Carrasco vemos como a violência contra a mulher é ambidestra no nosso continente. Após defender Franco em um jantar com amigos e visitas, a mexicana católica monarquista apanha do marido comunista. 


Mais do que a caracterização das personagens, é a tensão crescente entre ficção e História que traça um jogo de sombras e luzes (e voltamos novamente ao texto sobre as Memórias de Adriano) que cria conhecimento da forma específica que só a Literatura pode fazer.


Quem hoje escreverá A Cruzada dos Terraplanistas?


Estante

Marcel Schwob. A Cruzada das crianças / Vidas Imaginárias. Tradução Dorothée de Bruchard. Introdução Marcelo Jacques de Moraes. São Paulo: Hedra, 2011.


Marguerite Yourcenar. Memórias de Adriano. Tradução Martha Calderaro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.


Jorge Luis Borges. Marcel Schwob. A Cruzada das crianças. In: Prólogos, com um prólogo de prólogos. Tradução Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. 


Jorge Luis Borges. Historia universal de la infamia. Buenos Aires, Argentina: Emecé, 1954.


Roberto Bolaño. La literatura nazi en América. Barcelona, Espanha: Seix Barral, 2008.


Roberto Bolaño. El bibliotecario valente. In: Entre parêntesis. Ensayos, artículos y discursos (1998-2003). Barcelona, Espanha: Anagrama, 2008 (1ª edição 2004).


Roberto Bolaño. Un paseo por la literatura. In: Tres. Barcelona, Espanha: Acantilado, 2009 (1ª edição 2000).

Escrevi sobre a questão da influência entre os textos de Schwob, Borges e Bolaño em O X da influência.

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REPRODUÇÃO REPRODUÇÃO

Novas luzes dão novas sombras

Para Jeanice

Os gregos contam que Teseu recebeu de presente de Ariadne um fio.
Com esse fio Teseu se orientou no labirinto, encontrou o Minotauro
e o matou. Dos rastros que Teseu deixou ao vagar pelo labirinto,
o mito não fala.
Carlo Ginzburg

A frase é simples: “Deitei-me sobre um leito depois de me haver despojado do manto e da túnica”. Quem a profere é Adriano, imperador romano, na carta-testamento endereçada a Marco Aurélio, seu sucessor. Isso ocorre no romance Memórias de Adriano (1951), de Marguerite Yourcenar, em que a autora belga reconstrói a vida dessa figura histórica por meio do relato ficcional em primeira pessoa.

No final de sua vida, aos 60 anos, doente, Adriano decide contar sua trajetória, decisões e contingências ao amigo que iria substituí-lo, senão como guia, ao menos como reflexão. A frase está no primeiro parágrafo do livro, logo após o “Meu caro Marco”, sinal claríssimo de que nos encontramos com uma carta. Nesse ato de despojar-se do manto e da túnica para realizar um exame médico, vemos a transformação do imperador em homem, que Yourcenar busca conhecer.

O simbolismo da túnica, do manto – bem como dos tapetes – e suas cores é corrente na Antiguidade. No ensaio Apolo Trágico, Yourcenar lembra do tapete púrpura que Clitemnestra estende a seu marido Agamênon, líder dos gregos, após retornar vitorioso de 10 anos da Guerra de Troia. Travestido de homenagem, o tapete leva a uma armadilha na qual a rainha e seu amante assassinam o rei como vingança por ter sacrificado a filha Ifigênia, antes mesmo da guerra, para conseguir bons ventos que levasse as naus contra o inimigo.

“No alto, no banheiro do palácio, os amantes adúteros afiam seus punhais como hospedeiros decididos a sangrar o estrangeiro, pois depois de dez anos de guerra, glória e ausência, Agamênon é apenas um estrangeiro para o coração de Clitemnestra”.

O próprio gesto de despojar-se do manto e da túnica, claramente visível em nossas mentes, é também uma operação textual. Com essa frase, Yourcenar também nos avisa: “Caro leitor, cara leitora, aqui eu despojo Adriano do manto e da túnica da História e o deixo nu, nu apenas como a Literatura pode fazer”. Essa triangulação entre imperador, homem e personagem tece o fio pelo qual a autora se orientou pelo labirinto da ficção.

É aí que quero me deter, no caminho que ela trilhou. Para despojar-se da História, Yourcenar teve que conhecê-la a fundo, saber de tudo sobre a Antiguidade que fosse útil para a construção de seu monumento. Foi um trabalho que durou décadas e que reúne árdua pesquisa, achados, acasos, reflexões e momentos de desespero, uma metáfora para a pesquisa científica, principalmente a não utilitária, que descobre mundos, que vislumbra e transforma, um paralelo que ouso julgar útil nesses nossos tempos anticientíficos.

Ela mesma conta essa história no Caderno de Notas que acompanha o livro, uma espécie de arqueologia de sua própria escrita. A primeira nota dá o tom do rigor com que Yourcenar trata o próprio trabalho: “Esse livro foi concebido, depois escrito, no todo e em parte, sob diversas formas, entre 1924 e 1929, dos vinte aos vinte e cinco anos. Todos esses manuscritos foram destruídos, e mereciam sê-lo”.

Nesses primeiros anos, porém, Yourcenar já havia encontrado o motivo de sua busca, um trecho de uma carta de Flaubert sublinhado por ela em 1927: “’Os deuses, não existindo mais, e o Cristo não existindo ainda, houve, de Cícero a Marco Aurélio, um momento único em que só existiu o homem’. Grande parte de minha vida ia passar-se tentando definir, depois descrever, esse homem sozinho e, no entanto, ligado a tudo”.

O projeto é retomado entre 1934 e 1937. Desse período, uma frase apenas permaneceu: “Começo a discernir o perfil de minha morte”. É quando ela encontra o “ponto de vista do livro”. A passagem da visita ao médico, remanejado, vem dessa época. Até 1939, o trabalho pouco avança. Durante a II Guerra e até 1948, talvez reflexos desses anos, ela vê o projeto com “indiferença” e “desânimo”. E a nota seguinte: “Mergulho no desespero de um escritor que não escreve”.

Mas, para ficarmos com a metáfora, a pesquisa continua porque a vida continua: em 1941, Yourcenar encontra por acaso gravuras de Piranesi, entre as quais Vila Adriana, de 1768. Novas luzes dão novas sombras: ela passa os anos seguintes contemplando diariamente a obra, apenas por gosto, sem dedicar-se a vinculá-la ao projeto: “Tais são os curiosos desvios daquilo a que chamamos esquecimento”. Também nunca deixou de ler autores da Antiguidade.

Escreve em 1943 o ensaio Mitologia grega e mitologia da Grécia em que, entre outros nomes, retrata Adriano como um mecenas que também buscava na Grécia um passado para sua Roma. No trecho a seguir desse texto, Yourcenar faz um breve histórico das relações entre a Grécia real e as Grécias imaginárias:

“... tal transfiguração já se produzira nos próprios gregos, o coro de Édipo em Colono, onde Sófocles contribui para a criação de uma Atenas lendária; na frisa do Partenon, onde os magistrados e recrutas quase não se distinguem dos deuses; no discurso que Tucídides empresta a Péricles e que faz de Atenas um lugar tão ideal quanto A República de Platão. Dessa Grécia de lenda, Pausânias será o turista, Plutarco o cronista, Adriano o mecenas benévolo”.

Em 1948, ela recebe de volta uma mala que havia deixado em depósito durante a guerra repleta de papéis de família e cartas velhas. Entre a correspondência com nomes que não mais importavam, ela encontra quatro ou cinco amareladas folhas datilografadas “Meu caro Marco...”. É o gatilho para retomar o texto: “Desde aquele momento, a questão era reescrever o livro, custasse o que custasse”.

Mais do que metáfora, talvez a literatura seja um espelho para a pesquisa científica. Dois caminhos em busca da verdade. É Marguerite Yourcenar mesmo que define:

“Refazer por dentro aquilo que os arqueólogos do século XIX fizeram por fora”.

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Pós Escrito
A fala em que Clitemnestra convida Agamênon a entrar no palácio (armadilha?) está na tragédia Agamemnon, de Ésquilo. O rei está reticente, não quer a homenagem, mas é convencido pela rainha:

“Não baste o muito que sofremos! Nada
de inveja! Agora, caro amigo, desce
do carro, sem pousar o pé no chão,
funesto à Tróia. Ó rei! O que esperais,
ancilas? Não mandei forrar a trilha
de seu percurso com alfombras rútilas?
Que a sua senda tinja-se de púrpura,
E Dike, a Justa, o leve ao lar sonhado!
Hipnos não dobra a mente que ao destino
Conduz o resta, reta. E o nume anui.”

Estante
Marguerite Yourcenar. Memórias de Adriano. Tradução Martha Calderaro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

Marguerite Yourcenar. Mitologia grega e mitologia da Grécia. In: Peregrina e estrangeira. Ensaios. Tradução Myriam Campello. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.

Ésquilo. Agamemnon. Tradução, introdução e nota Trajano Vieira. São Paulo, Editora Perspectiva, 2007.

 

 

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  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: sexta-feira, 08 mai 2020 18:59Atualizado em: quinta-feira, 28 mai 2020 13:17
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Sobre
Blog de crítica literária. Alessandro Atanes é autor do livro "Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos", também traduz, compõe e toca guitarra. De profissão jornalista, tem mestrado em história social (USP, 2008) e é servidor público municipal de Cubatão desde 1999.