Vegetação que reapareceu na praia de Santos pode ajudar no combate às ressacas 

Por Beatriz Pires em 10/05/2026 às 06:00

Reprodução/ PMS
Reprodução/ PMS

A Prefeitura de Santos projeta a criação de um parque voltado à preservação da vegetação nativa de jundu, mas a origem das plantas tem gerado dúvidas entre moradores. O jundu se desenvolve diretamente na faixa de areia das praias, com maior concentração no bairro José Menino, na divisa com São Vicente, e é considerado um componente essencial do ecossistema de restinga.

A principal característica da vegetação é a capacidade de sobreviver em condições extremas, onde poucas espécies conseguem se desenvolver.

A Secretaria do Meio Ambiente de Santos (Semam), em parceria técnico-científica com o Núcleo de Pesquisa Herbário da Universidade Santa Cecília (Unisanta), trabalha no manejo científico e na restauração da vegetação, incluindo a criação do Parque Jundu. O projeto teve as primeiras ações iniciadas no último mês e consolida o reaparecimento espontâneo do cultivo iniciado há cerca de seis anos, durante a pandemia de covid-19.

“O assunto está em alta nas redes sociais, com lados pró e contra bastante aquecidos, mas muitos argumentos não condizem com a realidade e a propagação vira uma bola de neve”, afirma o biólogo herbário Paulo Sampaio.

Diferença entre espécies nativas e invasoras

Segundo Sampaio, para um olhar leigo, é quase impossível diferenciar as espécies nativas das invasoras. O processo exige estudo científico rigoroso conduzido por especialistas. A identificação é feita por meio da coleta, processamento e comparação das características morfológicas das plantas, trabalho realizado pelo Herbário da Unisanta.

Durante o levantamento botânico realizado na área, foram catalogadas 20 espécies de plantas, sendo 10 nativas e 10 invasoras. De acordo com o pesquisador, o que parte da população identifica como “mato” corresponde, em muitos casos, ao jundu em regeneração. O projeto prevê a retirada apenas das espécies invasoras, preservando toda a vegetação nativa identificada.

“As espécies invasoras ocupam o espaço de forma agressiva e impedem o desenvolvimento do jundu nativo, comprometendo a proteção natural da praia”, explica Sampaio.

Vegetação ajuda na proteção contra ressacas

O pesquisador destaca que os registros mais recentes da presença de jundu em Santos remontam à década de 1940.

“Nossos resultados preliminares indicam que os últimos registros de jundu em Santos são de fotografias históricas da década de 1940. Temos fotos de satélite e aéreas mostrando que, em 2019, não havia paisagens nem dunas”, afirma.

Sampaio coordena a pesquisa e defende o uso do jundu como uma Solução Baseada na Natureza (SBN) para minimizar os efeitos das mudanças climáticas, especialmente na contenção de ressacas e erosão costeira. Além disso, a vegetação contribui para a biodiversidade e para ações de educação ambiental.

A regeneração da área foi favorecida pela suspensão do uso de tratores na areia e pela redução da circulação de banhistas durante a pandemia. Estudos botânicos conduzidos por Paulo Sampaio em conjunto com a estudante de biologia Lindalis Garcia de Oliva apontam que as plantas nativas possuem raízes profundas e caules que se espalham por até 30 metros, formando dunas que já alcançam 78 centímetros de altura.

Cercamento será apenas em áreas de preservação

O pesquisador reforça que o projeto não prevê o fechamento da praia para moradores e turistas. Segundo ele, o cercamento será restrito aos núcleos de vegetação nativa para evitar o pisoteio das plantas. O espaço seguirá liberado para lazer, esportes, turismo e circulação de ambulantes.

“É necessário integrar o poder público, a ciência e a população. Os moradores devem atuar como protetores dessa vegetação, evitando jogar lixo e pisotear as áreas preservadas”, enfatiza.

Segundo Sampaio, a presença do jundu funciona como uma barreira natural, ajudando a evitar que a areia avance sobre o calçadão e a ciclovia durante períodos de ressaca. Além disso, a vegetação também exerce funções biológicas importantes, como regulação térmica e captura de poluentes.

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