Roteiro resgata pontos históricos e figuras negras esquecidas em Santos

Por Mariana Zylberkan e Adriano Vizoni/Folhapress em 21/02/2026 às 18:00

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Ativista do movimento negro, a então relações públicas Augusta França conta que se incomodava em guardar para si tanta história acumulada durante suas pesquisas sobre os personagens negros da história de Santos, desconhecidos da maioria de quem visita ou vive na cidade da Baixada Santista.

“Descobri o afroturismo em 2018 e me apaixonei de cara”, diz ela sobre a decisão de fazer um curso técnico na área e lançar um roteiro sobre a história dos quilombos de Santos em agosto de 2022. “Existe um desconhecimento da população sobre esse assunto, que sofreu um apagamento histórico como toda a história negra”, diz Augusta.

As caminhadas guiadas por ela e por seu marido, Léo de Oliveira, do Mochilando Afroculturas, ocorrem uma vez por mês e passam por marcos da história negra da cidade, até então, quase despercebidos. Entre eles, o local onde existiu o segundo maior quilombo do país, Jabaquara, onde viveram cerca de 5.000 negros escravizados fugidos das fazendas de café do interior paulista, de 1882 a 1898.

O ponto histórico era visível apenas por uma placa instalada pela Prefeitura de Santos até o roteiro se popularizar graças ao trabalho do casal. “A rua era totalmente degradada e usada como descarte de lixo. Fazíamos visitas com grupos em meio a ratazanas nas calçadas”, conta a agora guia de turismo.

O casal recorreu à Prefeitura de Santos e conseguiu revitalizar a área com ajuda de emendas parlamentares em novembro do ano passado. A rua conta hoje com desenhos em homenagem a figuras históricas, como Helena Monteiro da Costa, uma das últimas descendentes direta de escravos, que faleceu aos 100 anos no bairro do Embaré, em Santos, em julho do ano passado.

Ela era filha de Anizio José da Costa, o Maninho, tido como o mais longevo ex-escravizado a viver em Santos. Ele foi sequestrado ainda garoto em Angola e desembarcou na cidade para trabalhar numa fazenda de café no município de Pindamonhangaba, no Vale do Paraíba paulista. Seu retrato também faz parte do mural revitalizado.

Outra figura com a história contada no roteiro é Quintino de Lacerda, líder do quilombo Jabaquara e o primeiro vereador negro eleito no país, em 1895. Ele chegou a presidir a Câmara de Santos por 15 dias após os demais parlamentares terem se recusado a aceitar seu mandato. “O tiro saiu pela culatra porque ele aprovou uma lei que determinava a perda do mandato em caso de não comparecimento às sessões, e os vereadores tiveram que voltar”, conta Augusta.

Para contar essa história, o roteiro passa por um busto feito em homenagem ao líder quilombola na praça dos Andradas, onde está o prédio histórico da Cadeia Velha. Antes, o edifício abrigou a Câmara de Santos na época em que Lacerda foi vereador.

Outro ponto de visitação do guia de afroturismo é onde foi constituído o quilombo do Pai Felipe, localizado no terreno onde funciona a sede da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) de Santos. A guia conta que conseguiu recentemente autorização para entrar na área pública com os grupos. Antes, era obrigada a mostrar o local do lado de fora do portão. “Não havia preparo para receber esse trabalho de afroturismo. Quando se fala em turismo em Santos, se pensa apenas em Vila Belmiro, história do café e praias”, diz o guia Léo de Oliveira.

Os guias tentam recuperar o nome original da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, rebatizada de Igreja Nossa Senhora do Rosário de Santos no século 19, após a abolição da escravatura no país. “Santos se orgulha de ter tido um movimento forte abolicionista, mas não conta a história da população negra”, diz Augusta.

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