Maio Furta-Cor expõe realidade de mães atípicas na Baixada Santista
Por Beatriz Pires em 24/05/2026 às 07:00
Mães atípicas da Baixada Santista enfrentam o isolamento e o esgotamento mental diante da ausência de redes de apoio e de políticas públicas estruturadas. Relatos de moradoras da região revelam que a rotina de cuidados intensivos com filhos neurodivergentes frequentemente resulta no abandono de carreiras, sobrecarga emocional e no apagamento da saúde mental materna. O tema ganha destaque em maio com a campanha Maio Furta-Cor, voltada à saúde mental materna.
Segundo a psicóloga Renata Caroline, a exaustão dessas mulheres é alimentada por uma sobrecarga multifatorial. Muitas mães acumulam funções de cuidadora, terapeuta, mediadora escolar e defensora dos direitos dos filhos, vivendo em estado permanente de alerta.
Para a especialista, essa vigilância contínua coloca o organismo em um “modo de sobrevivência”, anulando a identidade subjetiva e os desejos pessoais da mulher. O cenário é agravado pela falta de suporte prático, que frequentemente leva ao desemprego, à dependência financeira e ao isolamento social.
Rotina de sobrecarga
Moradora de Praia Grande, Patrícia Macena vive a maternidade atípica de forma solo com dois filhos neurodivergentes. O diagnóstico do filho mais velho chegou em 2013. Já o do caçula veio em 2015. Ela lembra que, na época, o sentimento foi dividido entre o alívio de finalmente compreender os sintomas e o medo diante da falta de informação sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA).
“A partir do diagnóstico, não existem mais os seus sonhos, a sua vida; tudo fica para um dia, quem sabe”, desabafa.
Patrícia afirma que um dos maiores desafios é preparar os filhos para lidar com a falta de empatia e respeito da sociedade. Ela também relata sentir ausência de uma rede de apoio suficiente para dividir as responsabilidades do dia a dia.
Além da sobrecarga prática, especialistas apontam uma barreira cultural que intensifica o adoecimento emocional dessas mulheres: a romantização da chamada “mãe guerreira”. Segundo o movimento Maio Furta-Cor, essa idealização transforma o cansaço e o sofrimento em algo invisível, criando uma pressão para que as mães suportem tudo sem demonstrar fragilidade.
Para a psicologia, essa narrativa transforma a resiliência em obrigação e gera o chamado “estresse tóxico”. O resultado é o apagamento da identidade da mulher, que passa a viver apenas em função do cuidado.
Rede de apoio insuficiente
Na Baixada Santista, a rotina intensa de terapias, consultas e adaptações escolares faz com que muitas mães precisem abandonar o mercado de trabalho ou interromper os estudos. A ausência de uma rede de apoio estruturada é apontada como um dos principais fatores para o adoecimento psíquico.
Segundo Renata Caroline, existe uma diferença entre apoio emocional e ajuda prática.
“A ajuda real consiste em compartilhar responsabilidades e oferecer períodos de descanso, e não apenas validar o sofrimento de forma genérica”, afirma.
Daniela Dagort, mãe de Lucas, de 5 anos, conta que os atrasos no desenvolvimento do filho levaram a família a buscar avaliações médicas até a confirmação do diagnóstico de autismo. Ela relata que a sobrecarga diária impede até mesmo momentos básicos de descanso.
“A minha única rede de apoio cuida do meu filho para eu trabalhar. Não acho justo pedir também para eu descansar ou ter autocuidado, então tento fazer tudo com ele”, relata.
Daniela afirma que a maternidade atípica acaba ocupando todos os espaços da vida. Enquanto outras famílias acompanham atividades extracurriculares e rotinas consideradas comuns, mães atípicas aprendem a valorizar pequenas conquistas dos filhos, mesmo quando elas acontecem fora do tempo considerado padrão.
A psicóloga destaca que o sentimento vivido por essas mulheres costuma ser ambivalente, marcado pelo amor profundo pelos filhos, mas também por culpa, medo do futuro, impotência e exaustão.
“Cuidar da mãe não é um extra. É uma intervenção indireta no desenvolvimento da própria criança”, defende Renata.
Apoio familiar
Especialistas apontam que familiares podem contribuir de forma prática no cotidiano dessas mulheres, ajudando a reduzir a sobrecarga emocional e física.
Entre as formas de apoio estão:
- acompanhar a criança em terapias e consultas;
- oferecer períodos de descanso para a mãe;
- auxiliar financeiramente quando possível;
- evitar críticas sobre a criação dos filhos;
- buscar informações sobre o diagnóstico da criança;
- validar emocionalmente o sofrimento da mulher sem minimizar sua experiência.
“As pessoas querem minimizar todo o esforço que você faz. Ser mãe atípica não é uma escolha, você simplesmente é”, conclui Patrícia.