O operador portuário aposentado Ronaldo Cavalcante da Silva, de 49 anos, faleceu na última segunda-feira (14), por complicações da covid-19. Ele contraiu o vírus mesmo após ter tomado a primeira dose da vacina, e era paciente nefrológico com um problema crônico nos rins. Dois dias após sua morte, a esposa, Elen Lemos Miranda, de 44 anos, recebeu a tão esperada ligação: Ronaldo teria conseguido um transplante de rim.





A frustração tomou conta na hora, já que a família aguardava pelo transplante ansiosamente. A cirurgia poria fim aos dias de hemodiálise de Ronaldo, que fez o procedimento pela primeira vez em 3 de abril de 2020. Com o tempo, Elen relata que se confortou no pensamento de que outra família agora poderia estar comemorando o transplante.





Elen e Ronaldo estiveram juntos por quase 30 anos, e tiveram três filhos. Em 2008, com uma crise de cólica renal, o operador portuário foi levado ao hospital. “A gente achava até que era pedra, aí descobrimos através do urologista, depois do nefrologista, que ele era portador de doença renal crônica e rins policísticos”, relata a esposa.





Ronaldo, Elen e filhos
Ronaldo (à direita) com a esposa, Elen, e os três filhos. (Foto: Arquivo pessoal)




“O Ronaldo sempre teve muito amor à vida. Nosso filho tinha um ano na época, e ele resolveu mudar o ritmo de vida. Sempre foi atleta, e passou a se cuidar mais, com alimentação orientada pelo médico e medicamentos de pressão”.





Por muito tempo, com a pressão arterial alta, a família acreditou que a doença poderia ser no coração. Após consultas com diversos especialistas, Ronaldo teve um diagnóstico de que a creatinina estava desequilibrada, sempre subindo. Foi quando ele precisou iniciar a hemodiálise, após passar por três quadros grandes de infecção.





“Cada vez que estourava um cisto, ou algum cisto infeccionava, se rompia e causava toda a dor e febres e outras coisas. E aí ele começou a hemodiálise. Ronaldo era um guerreiro, porque ele ia e voltava, morava no BNH, e ele fazia na Beneficência. Ele ia e voltava todos os dias de bicicleta, as pessoas não sabiam que ele tinha esse problema, nem imaginavam. E foi assim por praticamente um ano”, relata Elen.





Fila do transplante





Após a hemodiálise, a saúde de Ronaldo começou a dar sinais de melhora. Em agosto de 2020, ele deu entrada no Hospital Do Rim, em São Paulo, encaminhado pela clínica, e assim ele fez o cadastro para o transplante. “A sensação quando você sai de lá, no primeiro dia é estranha. A gente estava angustiado para ir, porque quando você escuta das pessoas que esse rim vem de um cadáver, é muito estranho”, conta a esposa.





“A gente sai de lá com um pensamento esquisito, porque você não tem como torcer pra alguém morrer, para você ter o órgão, né? E a gente falava que seria o que Deus mandar. Desde então, o telefone não podia mais ficar desligado”.





Em fevereiro deste ano, Ronaldo chegou a ser chamado para se preparar para uma cirurgia, mas foi avisado com antecedência que o procedimento, na verdade, seria feito em outra pessoa. Caso o paciente tivesse algum problema durante a cirurgia, Ronaldo receberia o rim, o que não aconteceu.





Ronaldo
(Foto: Arquivo pessoal)




“Então ele tinha que ficar preparado e esperando essas duas cirurgias iniciarem pra ser dispensado. Quando ele foi dispensado, por incrível que pareça, a gente foi tomado por uma felicidade. Eu não conhecia a outra família, mas vi a mãe do rapaz tirando os óculos dele sorrindo, com a lágrima caindo. Escutei a mãe falando que ele estava há dezessete anos fazendo hemodiálise, imagina, desde criança. Então, a gente saiu de lá muito confortável”, diz Elen.





“Todo dia eu orava para Deus para que desse a cura pra ele. Apesar do transplante não ser a cura, daria uma qualidade melhor de vida pra ele. Ninguém da família era compatível, e aí essa fila do transplante era a nossa esperança. Infelizmente, ele pegou uma bactéria que estourou um cisto em abril, e iniciou um quadro de febre e tosse. Na época desconfiamos que era covid. Ele ficou oito dias internado na Beneficência e não se descobriu o que era.”





Apesar de ter sido vacinado, Ronaldo contraiu a covid-19 e, na segunda-feira (14), faleceu. “Ele lutou bravamente por 17 dias. E hoje, depois de todos esses dias aí, sem desligar o telefone por conta de ligarem, eu desliguei o telefone, e nesta manhã me ligaram. Me chamaram para que o Ronaldo fosse lá pra pra receber o rim”.





Apesar da frustração, Elen conta que este rim “não era dele”. O momento da ligação foi de desespero. “Eu chorei muito. Foi muito doído. Mas Deus sabe de todas as coisas. E a mesma dor que eu senti, a família do doador também sentiu. Mas esse rim foi para alguém, alguma família neste momento está feliz. Pode ser um pai, uma mãe, um filho, uma filha, mas alguém está com saúde, feliz”, finaliza.