Baixada Santista perde mais de 23% do eleitorado jovem em quatro anos

Por Beatriz Pires em 22/04/2026 às 05:00

Fernando Frazão/Agência Brasil
Fernando Frazão/Agência Brasil

O eleitorado jovem na Baixada Santista encolheu 23,41% em comparação à última disputa presidencial. Segundo dados do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), apenas 154.506 eleitores entre 16 e 24 anos estão aptos a votar na região, um sinal de alerta a apenas seis meses das eleições de 2026.

Desinteresse e afastamento político

De acordo com a cientista política Christiane Disconsi, esse movimento vem crescendo há alguns anos como reflexo de uma população que se afasta da política, optando por não participar da votação em um cenário polarizado.

Ela afirma que muitos jovens crescem percebendo o campo político como desgastante, onde se ausentar das urnas deixa de ser exceção e passa a ser regra.

“Se o adulto não vê consequência relevante em não votar, o incentivo para entrar no sistema já começa enfraquecido”, explica Christiane.

Queda expressiva em cidades da região

Bertioga registrou uma das maiores reduções da Baixada Santista. Em março de 2022, o município contava com 28.846 jovens aptos a votar. Em março de 2026, esse número caiu para 6.187, uma redução de 78,55%. Entre eles:

  • 6 menores de 16 anos
  • 50 com 16 anos
  • 158 com 17 anos
  • 5.975 entre 18 e 24 anos 

Esse movimento se repete em outras cidades da região. Em Cubatão, a redução foi de 58,81%, passando de 26.822 eleitores, há quatro anos, para 11.048 no último levantamento.

Em Santos, mesmo com 29.664 jovens eleitores, o segundo maior número da região, esse público representa apenas 8,63% dos 343.728 eleitores aptos da cidade. No mesmo período de 2022, eram 33.608 jovens, o equivalente a 9,74% de um total de 344.900 eleitores. A queda foi de 11,74% na participação.

“O desafio não é apenas jurídico, mas cultural: sem percepção de consequência e sem vínculo simbólico com a democracia, o voto deixa de ser visto como obrigação e passa a ser tratado como escolha”, afirma Christiane.

Descrença e falta de representatividade

A cientista política avalia que a queda também está ligada à descrença da população jovem. Segundo ela, escândalos recentes de corrupção reforçam a percepção de que o sistema é resistente a mudanças, o que leva ao afastamento.

Ela destaca o contraste com movimentos históricos liderados por jovens, como Diretas Já, caras-pintadas e o movimento passe livre, que culminaram nos impeachments de Fernando Collor e Dilma Rousseff.

“A longo prazo, isso pode comprometer a qualidade da representação política. Sem a entrada consistente de novos eleitores, há risco de envelhecimento do debate público e menor pressão por agendas futuras. A política passa a refletir menos os interesses das novas gerações”, afirma.

Christiane também aponta a falta de novas lideranças como fator relevante. Além disso, apesar do voto ser obrigatório, a multa para quem não vota nem justifica é simbólica, no valor de R$ 3,51 por turno, e sanções como impedimentos para passaporte ou cargos públicos têm perdido efeito.

Queda se repete em outras cidades

Outros municípios da região também registraram retração:

  • São Vicente: de 30.683 para 28.35 (queda de 7,6%)
  • Guarujá: de 28.846 para 26.858 (queda de 6,9%)
  • Peruíbe: de 7.201 para 6.800 (queda de 5,57%) 

Praia Grande concentra o maior número de jovens eleitores da região, com 30.026 pessoas entre 16 e 24 anos. Ainda assim, houve uma leve queda de 1% em relação a 2022, quando eram 30.330.

Influência das redes sociais

A especialista destaca que o crescimento do engajamento nas redes sociais pode tanto impulsionar quanto prejudicar a participação política.

Dados de pesquisas apontam:

  • 72% dos brasileiros usam a internet como principal fonte de informação (TIC Domicílios 2023, Cetic.br)
  • Jovens são os que menos acessam diretamente veículos tradicionais (Digital News Report 2023, Reuters Institute)

“O problema é que esse ambiente é mediado por algoritmos, bolhas e conteúdos emocionais. Isso favorece a polarização, simplifica o debate e estimula uma lógica de engajamento baseada em impacto, e não em formação política”, afirma.

Por outro lado, as redes também criaram novas formas de participação. Muitos jovens se engajam por meio de mobilização digital, produção de conteúdo e atuação em movimentos organizados ou descentralizados.

Esse movimento também se reflete em municípios que apresentaram crescimento no número de jovens eleitores. Em Mongaguá, o total passou de 5.683, em março de 2022, para 5.815 em 2026, alta de 5,82%. De forma semelhante, Itanhaém registrou aumento de 0,56%, passando de 9.707 para 9.757 eleitores no período.

CIDADES20222026PORCENTAGEM
Santos33.60829.664-11,74%
São Vicente30.68328.351-7,6%
Praia Grande30.33030.026-1%
Mongaguá5.6835.815+5,82%
Itanhaém9.7079.757+0,56%
Peruíbe7.2016.800-5,57%
Guarujá28.84626.858-6,9%
Bertioga28.8466.187-78,55%
Cubatão26.82211.048-58,81%
TOTAL201.726154.506-23,41%
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