Bairro da Liberdade: história do local tem ligação direta com soldado de Santos
Por Anna Clara Morais em 16/02/2026 às 06:00
Um dos destinos preferidos dos santistas na capital paulista é a Liberdade. Conhecido pela cultura oriental, o local esconde uma origem trágica e heroica ligada diretamente ao litoral. A história do bairro da Liberdade carrega o sangue e a luta de Francisco José das Chagas, o Chaguinhas. Ele serviu como soldado no Primeiro Batalhão de Caçadores, ligado à praça militar de Santos.
O historiador Sérgio Willians explica que Chaguinhas personificou o descontentamento da população local com o domínio português. Em 1821, o militar liderou um movimento contra a desigualdade salarial entre soldados brasileiros (negros, indígenas e mestiços) e portugueses.
Segundo o antropólogo Di Sant’Anna, membro do Comitê Chaguinhas – Memória da Resistência Santista, o cabo não agiu sozinho. Ele organizou o levante de 27 de junho de 1821 ao lado de Cotindiba e outros cinco santistas. O grupo lutava pelo pagamento de salários atrasados e por tratamento justo.
O local da execução
Após a rebelião, as autoridades condenaram Chaguinhas e Cotindiba à morte por crime de “lesa-majestade” (alta traição). Os carrascos levaram os prisioneiros para o antigo Largo da Forca. Na época, a população evitava a região, conhecida como Bairro da Glória. Lá funcionavam a Casa da Pólvora e o Cemitério dos Aflitos, destinado a escravizados e indigentes.
Di Sant’Anna relata que o local também servia de rota de fuga. Negros escravizados passavam por ali em direção aos quilombos de Santos e da Serra do Mar.
O milagre e o grito de liberdade
Em 20 de setembro de 1821, a execução aconteceu. Cotindiba morreu imediatamente após a abertura do alçapão. Porém, com Chaguinhas, a história tomou outro rumo. Na primeira tentativa, a corda rompeu-se. O público assistiu espantado. A Irmandade da Misericórdia, responsável pelos rituais fúnebres, jogou a bandeira da ordem sobre o corpo do soldado, pedindo clemência.
Mesmo assim, as autoridades ordenaram o prosseguimento. Na segunda tentativa, a corda quebrou novamente. Nesse momento, o povo começou a gritar por “Liberdade”. Segundo a tradição oral, esses brados batizaram o bairro, a praça e a avenida, apagando o antigo nome “Bairro da Glória”.
Na terceira tentativa, os executores usaram tiras de couro. Para garantir a morte, os carrascos pularam sobre o corpo de Chaguinhas e o mataram manualmente.
Devoção e legado
A resistência de Chaguinhas gerou uma devoção popular imediata. Mulheres negras passaram a acender velas no local da forca. Mesmo com chuva e vento, as chamas não se apagavam, o que consolidou a fama de milagreiro do soldado santista.
“Entende-se como uma metáfora em que as velas representam a fé que nunca se apaga. É uma devoção peculiar da liberdade, de pessoas excluídas que tem até hoje, um referencial de alguém que lutava pelos direitos, contra as injustiças sociais e trabalhistas e pela própria libertação do Brasil”, explica Di Sant’Anna.
Hoje, a Igreja Santa Cruz das Almas dos Enforcados marca o local exato do enforcamento. O Comitê Chaguinhas mantém a memória viva com festivais e encontros mensais. Para Di Sant’Anna, as velas representam a fé inabalável e a luta permanente por justiça social e liberdade.
“A devoção ao Chaguinhas acontece regularmente hoje em dia com o culto da reza do terço. Todo mês há o encontro da Irmandade da Devoção ao Glorioso Chaguinhas, que se reúnem na Capela da Santa Cruz das Almas dos Enforcados. Existe também o Festival Chaguinhas, todo mês de setembro, em São Paulo, e, em Santos, há a Semana Francisco José das Chagas”, relata Di Sant’Anna.
Ainda de acordo com o antropólogo, o nome da Igreja Santa Cruz das Almas dos Enforcados, trata-se de uma homenagem a esse personagem histórico, construída na Praça da Liberdade, local do enforcamento.