04/03/2026

Semana de Moda de Milão discute os valores burgueses da indústria

Por Erika Palomino/Folhapress em 04/03/2026 às 16:05

Foto: Reprodução/Redes Sociais
Foto: Reprodução/Redes Sociais

Kate Moss caminha lânguida, lentamente desfilando toda sua personalidade e a cancha adquirida em seus 52 anos de vida. Ela veste um longo brilhoso, com decote nas costas tão profundo que revela as tirinhas do fio dental, onde se lê o monograma da Gucci cravejado de brilhantes sobre as duas tatuagens da modelo, uma das mais icônicas de todos os tempos.

Esse é o encerramento do desfile da marca italiana, a estreia de Demna na passarela, um ano após sua nomeação como diretor criativo. Foi na última sexta-feira, um dia antes de Donald Trump bombardear o Irã.

Sexualizada, exagerada, a abordagem em muito lembra os lendários anos do texano Tom Ford à frente da Gucci, entre meados dos anos 1990 e dos 2000, em todos os 83 modelos que desfilaram -uma parada de garotas supermaquiadas, em roupas curtas, grudadas ao corpo, com fendas dramáticas, salto alto, a bolsa Bamboo carregada de forma displicente, alças sobre a dobra do braço.

O elenco masculino veio composto por jovens de físico bombado, em “t-shirts” apertadas, de garotos cheios de esperteza das ruas, de outros tipos magros em costumes de proporções soltas e grandes, sapato social de bico quadrado.

Um megamix de produtos e “tendências” – de outras eras – interpretadas por Demna, de pegada inegavelmente comercial.

“Este primeiro desfile apresenta um universo de pessoas, arquétipos, consumidores e códigos de vestimenta que irão moldar minha linguagem de design daqui em diante”, escreveu o estilista em uma carta aberta em sua conta no Instagram. “Não quero que seja intelectual, quero que Gucci seja um sentimento.”

Em entrevista ao site especializado Business of Fashion, Demna alfinetou: “Gucci não é uma marca que exige que você leia um livro para entender. É um produto muito pragmático, pé no chão”.

O desfile foi massacrado na internet, porém defendido por algumas críticas importantes, como a americana Cathy Horyn, que deu a ele um voto de confiança. Todo mundo esperava mais. Mais do que um exercício de “styling” e de roupas no último grito da volta do sexy, para usar um clichê do jornalismo de moda.

E tome clichê. De tipos do hip-hop underground, do boatismo techno, de peruas ricas italianas, caminhando -alguns rapazes descalços- ao som de um bate-estaca nervoso, numa grande sala se assemelhando a um museu, estátuas romanas iluminadas com luz estrobo.

Para quem fala ou quer falar essa nova Gucci de Demna? Ainda que ele rejeite o passado, o que ele mostrou remete, sim, a outros tempos e designers que por ali passaram. E quem vai comprar? Quem vai copiar o que parece que já foi feito? Perguntas de milhões.

Corta para o desfile da Prada, dias antes, deixando de joelhos público, crítica, internet, a torcida do Flamengo e do Corinthians, gregos e baianos. Intelectualizadíssima, hermética, repleta de significados e significantes, de leituras, de camadas -literalmente.

Eram apenas 15 modelos na passarela, que entravam quatro vezes, em cada uma delas tirando uma camada de roupa -bolsas diferentes, os mesmos sapatos.

“As perspectivas se transmutam, tanto na transposição de tipologias de vestuário quanto em sua mistura não hierárquica. As roupas são sobrepostas com precisão -alfaiataria, ‘sportswear’, vestidos de cetim bordado-, composições contraditórias que também expressam uma linguagem de moda distintamente Prada”, diz o material de divulgação.

A contradição está na alma da marca, desenhada pelos craques Raf Simons e Miuccia Prada, contando com um time de primeiríssima linha em todas as etapas, além de um arquivo que os alimenta de um verdadeiro banquete de autorreferências, arquétipos e memórias.

Sacudido à luz dos dias de hoje, em suas 60 peças estão todas as excentricidades da Prada, desgastadas, puídas, inacabadas, sedutoras. Impressionante como temporada após temporada se renova a relevância da Prada. Beleza ou a ausência dela, vulnerabilidade, força, personalidade, resiliência. Está tudo ali. E produto, e desejo -moda, em suma.

O que é a moda e para que ela serve nos dias de hoje, a quem atende, ainda mais em tempos de guerra? A indústria do luxo se revolve em busca de respostas. Em entrevista recente concedida por Miuccia Prada e Raf Simons para a jornalista Robin Givhan, Miuccia elabora: “Claro que a moda é importante. Mas quando estamos bem. Se você tem alguém no hospital, alguém doente, alguém morrendo, quem se importa com a moda?”.

A discussão passa, nesta temporada, por uma leitura do modo burguês de se vestir. Demna reitera que vem do underground a renovação -não da burguesia. Pelo preço, é possível dizer que não é a juventude das ruas que efetivamente compra Gucci ou Prada, mas a cultura da influência vai além disso. Está nas conversas, nos posts, na presença.

O papo sobre moda burguesa, luxo e intelectualismo -a maneira como você se veste representa uma forma de pensar, decreta Miuccia Prada- nos leva até outros dois momentos desta semana de lançamentos -a deselegância discreta, conceitual e minimalista da Jil Sander, do italiano Simone Bellotti.

Uma coleção esquisita, quase feia, mostrada com meias em tons errados e escarpins sem charme, que parecem velhos, sem qualquer vestígio de opulência – ao contrário. Belotti acerta e avança no jogo.

Outro momento é a segunda coleção de Louise Trotter para a Bottega Veneta, um ótimo desfile, em que o passado atravessa o presente. Grandes casacos manufaturados abraçam, embrulham em mistério quem os usa.

Destacam-se os acessórios, que seguem badalados -a bolsa de festa da “nonna” e o sapato gasto do pai, valorizando a cultura muito milanesa de se vestir bem. Com ou sem luxo.

Na Fendi, Maria Grazia Chiuri estreia sem empolgar, depois de sua saída da Dior. Silvana Armani, há a sobrinha que assumiu oficialmente a condução artística do grupo após a morte de Giorgio Armani, em setembro, dando continuidade a seu legado. Sem surpresas. E tudo bem.

A outra estreia a se observar foi a da belga Meryll Rogge, na Marni. Ela aciona o repertório de sua criadora original, a italiana Consuelo Castiglioni. Foi tão fundo na pesquisa que ficou com cara de Prada. A temporada continua em Paris.

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