Selton Mello ganha supervisora durona na nova temporada de 'Sessão de Terapia'
Por Folha Press em 20/05/2026 às 16:16
Uma mulher pressionada pela ideia da maternidade, uma executiva do mercado financeiro incapaz de desacelerar, um homem obcecado pela juventude e uma filha sobrecarregada pelos cuidados com o pai diagnosticado com Alzheimer.
Esses são os pacientes da sexta temporada de “Sessão de Terapia”, que nesta sexta-feira (22) no Globoplay. A série, mais uma vez, transforma angústias comuns em novas sessões conduzidas pelo terapeuta Caio Barone, personagem de Selton Mello.
Depois de mais de uma década no ar, a produção segue apostando na dinâmica aparentemente simples de duas pessoas sentadas em uma sala falando sobre dor, culpa, ansiedade e vazio. “Ela é muito importante, ela talvez seja a série mais relevante que está sendo feita que fala de saúde mental, da importância disso no momento de hoje”, avalia Selton.
A nova leva de episódios chega em um momento em que o clima da pandemia, retratado na temporada anterior, ficou para trás e ganha espaço o debate sobre saúde mental nas redes sociais, no ambiente de trabalho e nas relações pessoais. O problema, segundo a equipe da série, é que parte desse debate passou a ser atravessada por respostas rápidas, autodiagnósticos e fórmulas prontas.
Jaqueline Vargas, roteirista da produção, afirma que a série tenta seguir na direção oposta. “Hoje em dia nós temos uma sociedade tão apressada, tão automatizada, que as pessoas estão precisando de alguém que diga o que elas têm que fazer”, diz. “E o terapeuta não está aqui para dar conselho. Ele está aqui para fazer você se escutar.”
A preocupação aparece aparece na construção dos personagens. Bella Camero interpreta Ingrid, uma jovem do mercado financeiro esmagada pela lógica da produtividade constante. Ela trabalha até o limite do corpo, mistura remédios, estimulantes e energéticos e passa a enxergar o fracasso como ameaça permanente. “Ela não vive, a vida dela é trabalho, é crescer, é produzir”, resume a atriz.
Já a personagem Érica, vivida por Olívia Torres, coloca no centro da trama uma discussão ainda pouco explorada pela dramaturgia brasileira: mulheres que não desejam ser mães. A atriz conta que o tema atravessa conversas frequentes entre amigas e acabou fazendo ela própria revisitar a questão. “Esse assunto é infinito”, afirmou.
A série também discute envelhecimento sem transformar o tema em caricatura. Ulisses, personagem de Paulo Gorgulho, tenta sustentar uma juventude enquanto se afasta do próprio filho. “Eu acho tão legal envelhecer bem”, disse o ator ao definir o personagem como um alerta para homens incapazes de aceitar o passar do tempo.
A principal mudança da temporada aparece nas sessões de sexta-feira. Grace Passô assume o papel da nova supervisora de Caio Barone e substitui a condução mais acolhedora da temporada anterior por uma presença mais dura e provocativa. Selton define a relação entre os dois como um embate necessário. “Talvez essas chacoalhadas que ela dá nele eram exatamente a doçura que ele precisava.”
Grace afirma que Rosa, sua personagem, causa estranhamento desde o primeiro encontro. Ela desafia o protagonista em uma dinâmica marcada por tensão constante. A atriz brinca que a experiência ganha outra camada porque Selton dirige e atua ao mesmo tempo. “Quem está sendo analisado é ele”, diz ela.
Para o elenco, “Sessão de Terapia” funciona quase como um exercício bruto de atuação. Sem cenas de ação, trilhas grandiosas ou grandes movimentações, tudo depende da presença dos atores. Selton diz que tenta afastar qualquer sensação artificial da interpretação: “Quero que eles venham com o seu molho”.
O ator chegou a comparar o trabalho da série ao cinema de Eduardo Coutinho, conhecido por documentários construídos a partir da fala e da escuta. Alice Carvalho, uma das novidades da temporada, interpreta uma mulher consumida pelos cuidados com o pai diagnosticado com Alzheimer –tema que, segundo Jaqueline Vargas, aparece cada vez mais na vida de pessoas da mesma geração dela.
A discussão sobre saúde mental também passa pela própria estrutura da série. Roberto d’Avila, produtor da obra, afirma que a equipe evita transformar terapia em espetáculo ou romantização. Entre os novos casos, há até um adolescente que desenvolve uma relação afetiva com uma inteligência artificial, um reflexo direto do presente hiperconectado.
Selton acredita que a força da série continua vindo da simplicidade. “Aquela sala é um mundo”, afirmou. “Talvez seja a maior série de ação do audiovisual brasileiro. Nenhuma série tem tanta coisa acontecendo quanto numa série dentro de uma sala e duas pessoas falando.”