13/02/2026

Netflix lança filme derivado de 'Irmandade' e borra as barreiras entre cinema e TV

Por Davi Galantier Krasilchik/ Folha Press em 13/02/2026 às 10:49

Alexandre Schneider/Netflix
Alexandre Schneider/Netflix

Depois da morte de Edinho Cabuloso, chefe da facção criminosa no centro de “Irmandade”, a advogada Cristina, papel de Naruna Costa, flerta com a chance de liderar o grupo. Irmã do personagem de Seu Jorge, que ao lado dela fez da série um dos maiores sucessos nacionais da Netflix, ela vê sua sobrinha ser levada por policiais corruptos em “Salve Geral”, longa que dá sequência às duas temporadas da série.

Este é o primeiro derivado de uma produção brasileira a ser lançado pelo streaming, numa época em que os serviços digitais e os estúdios de cinema estão cada vez mais próximos.

De um lado, a Netflix espera pela aprovação do governo americano para adquirir a Warner Bros. Do outro, artistas afirmam que a plataforma tem visto a distração, muitas vezes provocada por telas móveis, como critério criativo -um possível resultado, segundo eles, são as tramas repetitivas, que reciclam informações para evitar desinteressados.

No caso de “Salve Geral”, uma das principais estratégias contra a falta de atenção é o senso de urgência. Logo no início do filme, quando bandidos atacam uma delegacia e uma funcionária é obrigada a fugir, um longo plano-sequência, ou seja, uma cena filmada sem cortes, reúne trocas de tiros e perseguições de carro. É o tipo de técnica, diz o diretor Pedro Morelli, mais frequente em filmes.

“É um barato jogar o jogo que faz nossos projetos funcionarem”, acrescenta o criador de “Irmandade”. “Quando fazemos algo para o streaming, sabemos que é necessário chamar a atenção do público o mais rápido possível. Isso não é demérito –é falar a língua dos dias de hoje.” Ele cita um cronômetro que aparece nos primeiros segundos do longa, ilustrado como se fosse uma bomba.

Isso porque Cristina nunca esteve com os nervos tão à flor da pele. Durante a manhã, ela vai à prisão para conversar com colegas do irmão morto. À tarde, leva as negociações para escritórios de figurões políticos que estão dispostos a lavar as mãos. Quando a noite cai, ainda precisa enfrentar Elisa, sobrinha invocada que aprendeu com o pai -agora um fantasma que aparece em flashbacks- a nunca baixar a sua cabeça.

Tudo piora quando a polícia desvenda o parentesco entre a nova personagem e o nêmesis executado. É o que leva a advogada a mobilizar todas as forças necessárias pelas ruas, provocando o tal ataque geral do título. “Carregar a história dessa personagem e dessa série é uma responsabilidade enorme”, afirma Costa, para quem o consumo domiciliar de produções desse tipo flexibiliza a troca entre espectadores e artistas.

“Uma das coisas pelas quais mais prezo no audiovisual é a oportunidade de aprofundar as subjetividades de personagens negras e femininas. É o tipo de profundidade pela qual ansiamos e que faz parte do Brasil de hoje, em que todas as histórias que contamos dão margem para outras narrativas.”

Na visão de Camilla Damião, que dá vida à jovem sequestrada e precisou ser movida pela rebeldia, Elisa deu a ela a chance de adicionar camadas a um universo já estabelecido. Ela cita a relação da garota com o hip-hop e outras faces da cultura urbana como um potencial convite para os que sequer viram a série.

“Acredito muito no caminho da autenticidade. Quanto mais autênticos formos, mais tornaremos o nosso audiovisual num reflexo do nosso país”, diz a atriz, que afirma que as pessoas negras ainda estão longe de serem representadas com a tridimensionalidade que merecem. Ela estreou nos cinemas com “Marte Um”, longa sobre uma família periférica cujo filho mais novo sonha em se tornar astronauta.

Em 2023, após o lançamento, o filme foi selecionado para tentar representar o Brasil no Oscar, mas não teve a mesma sorte que “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto“. “Projetos como esses falam de um povo muito específico e que precisa ser retratado com dualidade. São corpos que pertencem ao presente, que precisam ser registrados pelo nosso audiovisual e que irão compor o nosso futuro”, acrescenta Damião.

Para Morelli, as complexidades do crime brasileiro também justificam a continuidade dessas narrativas, independentemente do formato. Entre violências e bandeiras sociais, ele descreve esse submundo como espaço em que o certo e o errado se embaralham e o define enquanto berço fértil para tramas brasileiras.

“O Brasil é um dos maiores mercados em que empresas do audiovisual investem. Somos relevantes para o mundo inteiro”, diz o diretor. “A força do público brasileiro tem feito todos olharem para cá.”

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