'Não sabemos nada sobre Shakespeare', diz Paul Mescal, que vive dramaturgo em 'Hamnet'
Por Vitor Moreno/Folhapress em 17/01/2026 às 16:29
Se você colocar William Shakespeare na busca de imagens do Google, vai aparecer um homem pálido, de rosto magro e meio calvo, usando um colarinho franzido e com um brinco na orelha. Paul Mescal, 29, lembra que esse retrato é apenas uma suposição.
“As pessoas chegaram ao entendimento de que é assim que ele se parecia, mas não temos ideia de como ele era”, afirma o ator irlandês, que vive uma versão do dramaturgo em “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, em cartaz nos cinemas. “Não sabemos nada sobre Shakespeare.”
No filme assim como no livro em que ele se baseia, da autora Maggie O’Farrell, o nome do bardo nunca é dito de forma completa. Ele é apenas Will, o marido de Agnes (Jessie Buckley) e pai dos filhos dela. No começo, o personagem ainda está se descobrindo como artista.
“Ele não está ciente do próprio mito porque esse mito ainda não existe”, explica Mescal. “Ele é um artista de Stratford que nem mesmo sabe que é um artista ainda. Ele precisa ser persuadido por Agnes para ir atrás das coisas. Não há nenhum senso de grandeza com ele ainda.”
Para o ator, esses elementos ajudaram a não reverenciar demais o personagem -embora ele diga encarar alguém fictício com o mesmo nível de responsabilidade de alguém que de fato existiu. “Não é diferente; acho que cada personagem é uma pessoa real”, afirma. “Eles vivem no mundo da história que o autor cria para eles. No caso de alguém como Shakespeare, você precisa ativamente ir contra o mito de que ele foi um grande homem.”
Se no livro seu personagem mal aparece, no filme ele ganhou mais espaço. O que não muda, contudo, é a ausência constante em que ele se transforma na vida de Agnes e dos filhos. “Suponho que é uma ausência intencional”, avalia Mescal. “Ele era um pai ausente? É claro que essa é uma perspectiva que as pessoas poderiam ter, mas também deve-se levar em conta o papel da Agnes.”
É a esposa quem impulsiona o artista a dar vazão a seu impulso criativo em Londres, onde ele terá mais oportunidades que na pequena Stratford, onde eles vivem. Uma tragédia, no entanto, faz Agnes (e o público) questionar não só um novo afastamento como uma possível impassibilidade diante do ocorrido.
“Ele não está indo para Londres para fugir; ele está indo para processar seus sentimentos”, defende o ator. “Para mim, o que o filme faz de forma linda é não julgá-lo por isso, porque te dá a oportunidade de ver que ele não está realmente fugindo.”
O ator também procurou não julgar o personagem a respeito da forma como ele encara a perda brutal pela que passa. “Acho que depende totalmente da pessoa que você é”, comenta. “O Will realmente precisou do silêncio e do recolhimento para processar seu luto.”
Na vida real, Mescal diz que é bem menos contido que seu personagem. “Eu já sofri muito imediatamente e muito abertamente na minha vida”, afirma. “Não sei se é apenas uma questão de gênero, mas definitivamente vejo em meus amigos homens que ainda existe um bloqueio de ter que ser estoico e forte, de ter que viver um sentimento em silêncio.”
No entanto, ele prefere manter em segredo que tipo de lembrança pessoal acessou para chegar às altas notas que o personagem exige. “Acho que o grande presente que você tem como ator é que ninguém nunca saberá o que é real para você e o que é imaginado”, diz. “A menos que eu decida te contar que isso é o que aconteceu quando X ou Y aconteceu na minha vida.”
“Na verdade, sua imaginação é muito mais potente que sua experiência vivida”, afirma. “Porque no minuto em que você tenta aplicar uma experiência vivida, seu corpo começa a te proteger, especialmente se for algo doloroso. É como se ele dissesse: ‘Não quero voltar ali, porque aquilo foi horrível’.”
Sobre a direção da chinesa Chloé Zhao, ele diz que foi uma experiência diferente da que estava acostumado. “Ela não se interessa tanto em falar sobre a cena, mas em senti-la”, explica. “Grande parte do trabalho que fizemos era fora do tradicional.”
O processo da cineasta envolvia também uma certa liberdade para os intérpretes. “Como ator, você precisa saber quem é o personagem, mas não necessariamente planejar como as cenas vão parecer”, diz Mescal. “Chloe estava muito interessada na brincadeira e nas descobertas do momento.”
Com relação à parceira de cena, Jessie Buckley ele também é só elogios. “Nós já nos conhecíamos muito bem”, conta. “Estávamos alinhados em termos de como gostamos de trabalhar; mesmo que não tenhamos o mesmo processo, ele é igualmente intenso, eu diria.”
As duas performances foram bem recebidas pela crítica e vêm arrancando lágrimas do público. Buckley recentemente ganhou o Globo de Ouro de melhor atriz dramática -o filme desbancou “O Agente Secreto” como melhor filme de drama, enquanto Mescal perdeu o prêmio de ator coadjuvante para Stellan Skarsgård, de “Valor Sentimental”.
Ambos também estão cotadíssimos para o Oscar, cujos indicados serão anunciados no dia 22. O ator, no entanto, não esconde sua torcida. “Jessie está extraordinária no filme”, avalia. “Acho que o que ela fez não é apenas a performance do ano. É uma performance que ainda vão estar estudando daqui a muito tempo.”
“Hamnet: A vida antes de Hamlet”
- Quando: Em cartaz nos cinemas
- Classificação: 14 anos
- Elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Emily Watson, Joe Alwyn, Jacobi Jupe, Olivia Lynes e Justine Mitchell, entre outros
- Direção: Chloé Zhao