Envelhecimento das mulheres de Cubatão é retratado através de novo curta-metragem

Por Anna Clara Morais em 17/01/2026 às 13:00

Foto: Divulgação
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Sob a perspectiva da cineasta Mara Anjos, nasce o curta-metragem Mulher Rainha das Serras, que traz consigo, através de personagens femininas reais, uma reflexão sobre o envelhecimento feminino e as condições com as quais as mulheres precisam lidar nesse processo, especialmente em Cubatão

Mara, diretora da obra, é filha de Edileuza Maria dos Anjos, uma pernambucana que, há 52 anos, escolheu Cubatão para fincar suas raízes e construir a própria história. Edileuza é a grande inspiração do projeto e a personagem principal que dá vida ao filme. 

“À medida que esse processo (o envelhecimento) se torna mais visível para ela, ele também atravessa a minha própria experiência de vida, já que eu também estou envelhecendo. Olhar para esse momento com mais carinho e amorosidade me levou a refletir sobre o tempo, sobre os vínculos e sobre as condições que permitem ou não que uma mulher envelheça com dignidade”, relata Mara.

Além da pernambucana, o filme conta com outros depoimentos de moradoras de Cubatão e suas respectivas perspectivas sobre o envelhecimento e a contribuição feminina no desenvolvimento da cidade. O curta Mulheres Rainha das Serras tem 13 minutos de duração e foi lançado na última segunda-feira (12), no YouTube (confira clicando aqui).

O projeto contará, ainda, com uma mostra, realizada no próximo dia 20, em que haverá uma sessão especial e exposição de fotos com imagens captadas durante a produção do curta. 

A produção executiva foi feita por Celina Silva. Trata-se de uma obra financiada pela Lei Paulo Gustavo, em Cubatão e administrada pelo Ministério da Cultura.

O envelhecimento feminino 

O curta tem como principal objetivo levar ao telespectador uma reflexão sobre as formas como o envelhecimento é encarado, narrado e vivido socialmente através de histórias de mulheres reais: vizinhas, amigas, mães e irmãs. 

“O filme evidencia como essas percepções atravessam o presente, influenciam as relações de cuidado, afeto e pertencimento, e moldam as possibilidades. Pensar no envelhecimento, especialmente das mulheres, é questionar quais futuros estamos dispostos a construir em termos de dignidade, autonomia e políticas de cuidado”, explica a idealizadora.

No entanto, apesar da expectativa de vida das mulheres no país ser superior à masculina, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), essa mesma parcela da população é a que mais sofre com problemas relacionados ao envelhecimento. 

A médica geriatra Julianne Pessequillo explica que trata-se do paradoxo da longevidade, em que, embora as mulheres tenham vantagens relacionadas a uma combinação de aspectos biológicos, hormonais, comportamentais e sociais, são essas mesmas pessoas que tendem a conviver mais anos com doenças crônicas. 

“As mulheres parecem ter uma resistência biológica maior desde a vida intrauterina, mas não podemos deixar de enfatizar que mesmo que vivam mais, tendem a apresentar mais anos de vida com enfermidades, ou seja, adoecem menos de forma fatal, porém desenvolvem mais doenças crônicas e incapacitantes como: osteoporose, artrose, dor, depressão, ansiedade e demências. Logo, por mais tempo não significa, necessariamente, viver melhor. Este fenômeno é conhecido pela geriatria como o ‘Paradoxo da longevidade feminina’”, conclui. 

Mulheres em Cubatão

Ao longo da história de Cubatão, Mara relata que a população feminina teve e tem papel fundamental no desenvolvimento da cidade, mas esse protagonismo foi, por muitas vezes, invisibilizado. 

“Elas contribuíram de forma decisiva na construção da cidade por meio do trabalho formal e informal, do cuidado com as famílias, da organização comunitária e da resistência cotidiana diante das desigualdades sociais, ambientais e econômicas. Em um território atravessado pela industrialização, migração e por graves impactos ambientais, atuaram como sustentação da vida”.

Até os dias atuais são essas mães, trabalhadoras, lideranças comunitárias e cuidadoras que agem como agentes centrais na formação da sociedade de Cubatão. 

“Reconhecer essa contribuição é também reconhecer que o desenvolvimento da cidade não se fez apenas pela indústria, mas pela força cotidiana das mulheres que garantiram a continuidade da vida e da comunidade”. 

Edileuza, a personagem central da narrativa, por exemplo, saiu de São Lourenço da Mata, em Pernambuco, com destino ao município. Foi ao lado do marido, com quem havia acabado de casar, que construiu família, em Cubatão.

Mesmo assim, a diretora observa que, apesar de toda essa contribuição, a valorização feminina ainda acontece de forma desigual.

“Falta uma escuta efetiva das mulheres idosas, bem como políticas públicas que considerem suas experiências, desejos e necessidades para além da saúde básica”, desabafa.

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