17/04/2026

Allan Weber aproxima mundos historicamente intransponíveis em mostra

Por Heitor Frias/Folhapress em 17/04/2026 às 11:24

Créditos: Jules Lister
Créditos: Jules Lister

“É importante mostrar esses objetos, porque eles se tornam quase invisíveis no dia a dia. Meio que só a gente que tá no corre nota eles”, diz Allan Weber, sobre a sua primeira mostra individual institucional no país. As obras podem ser vistas no Instituto Tomie Ohtake, na avenida Brigadeiro Faria Lima, importante centro financeiro, o que gera um contraste com a realidade que seu trabalho evidencia.

Há não muito tempo, durante a pandemia de coronavírus, Weber trabalhou como entregador de lanches. Os registros fotográficos desse cotidiano deram origem ao fotolivro “Existe um Mundo Todo que Tu Não Conhece”, seu primeiro trabalho publicado.

A mostra de mesmo nome, agora em cartaz, dá vida a objetos tridimensionais inspirados naquelas fotografias. De bancos de moto a embalagens de lanche, o artista expõe o que o geógrafo e escritor Milton Santos chamou de circuito inferior. “A minha intenção mesmo é que o pessoal da quebrada, os motoboys, os funcionários da limpeza olhem para o meu trabalho e se sintam representados”, afirma Weber.

Em “Trap”, uma das séries expostas na mostra, o artista cria estruturas inspiradas nos álbuns do gênero musical de mesmo nome –a música que ouvia com frequência enquanto trabalhava de entregador, tanto pela motivação quanto pela identificação com as letras. Feitas com câmeras de bicicleta e lonas de baile funk, as obras misturam o universo do trabalho e o do lazer. Entre elas, há um conjunto de três torres, formadas por caixas d’água empilhadas.

Chamada “Nós que Sustenta na Raça”, a edificação brancusiana, quase transcendental em seu volume, se dá, porém, no mundo concreto. “Você sobe numa laje na favela e vê um emaranhado de pontinhos azuis. Eu sempre fui fissurado por caixa d’água, desde pequeno era nossa piscina”, diz Weber.

Essas colunas, para ele, representam a classe pobre que sustenta a sociedade, mas também simbolizam a valorização de engenharias sociais. “Os pedreiros da favela são mega-arquitetos, eu quero muito falar sobre a desobediência da engenharia tradicional.”

Apesar de o destaque ir para obras tridimensionais, duas séries fotográficas aparecem na exposição. Em “Traficando Arte”, Weber retrata momentos de troca e lazer em sua comunidade natal, a Cinco Bocas, no Rio de Janeiro, como o dia do futebol e os bailes.

O artista conta que, na favela, a principal referência das crianças é o chefe do tráfico, porque ele é o grande provedor daquela sociedade. Weber tem tentado fazer algo semelhante por meio da arte, formando times de futebol, comprando presentes no Dia das Crianças e criando a primeira galeria da comunidade, a 5 Bocas daí o nome da série.

Em seu trabalho, Weber tenta aproximar e ressignificar esses dois mundos que parecem intransponíveis, trazendo o glamour das galerias de arte para a favela e a vida na favela para as galerias. “Da mesma forma que o ‘favelado’ na nossa cultura é um fetiche, esse cubo branco [a galeria] acaba se tornando um fetiche para a gente também.”

A outra série fotográfica, “Tamo Junto Não É Gorjeta”, que em seu título faz uma crítica à frase ouvida de forma recorrente por entregadores de aplicativo, apresenta, numa configuração de caráter warholiano, a montagem serializada de imagens de lanches nas bolsas térmicas que armazenam os pedidos.

Na mesma direção, numa das instalações mais marcantes da mostra, assentos de moto e capacetes são interligados por elásticos, flutuando no espaço. A obra ilustra a coreografia dos vários fluxos diários dos motoboys, mas também denuncia a precariedade desse trabalho.

“Os bancos das motos são construídos ergonomicamente para descansar, então é uma parada que leva à escassez. Depois de dez horas, aquilo vira um inferno”, afirma Weber.

Ele ainda fala do descaso que as plataformas de entrega têm com o humano e da necessidade de recorrer ao improviso e à criatividade para existir. “Eu vejo a gambiarra como uma tecnologia”, afirma.

Weber teve três semanas para produzir e montar as obras no próprio espaço expositivo e, por isso, acabou espalhando bancos de carro, além de um videogame de futebol, pela galeria, na tentativa de tornar o ambiente acolhedor. O artista conta que queria que tanto ele quanto o público se sentissem em casa.

Ao lado da porta, na saída da exposição, há uma máscara de bate-bola —grupo de foliões tradicional no Carnaval do norte fluminense. Weber a considera um amuleto da sorte, dotado de mágica. Nas palavras do escritor Luiz Antonio Simas, “o corpo encantado das ruas”.

Allan Weber – Existe um mundo todo que tu não conhece

  • Quando: De ter. a dom., das 11h às 19h. Até 14 de maio
  • Onde: Instituto Tomie Ohtake – av. Faria Lima, 201, São Paulo
  • Preço: Grátis
  • Classificação: 10 anos
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