A semente de toda música é preta, diz Céu, que revisita seu primeiro disco no palco
Por Lucas Brêda/Folhapress em 21/01/2026 às 20:28
Na capa de seu primeiro álbum, uma Céu que ainda não havia completado 25 anos de idade encara a câmera com um sorriso confiante de canto de boca. Com os cabelos cacheados emoldurando seu rosto, ela transmite uma energia de elegância despojada num dia ensolarado que casa com as 15 músicas da obra.
A cantora foi clicada na casa que dividia com duas amigas, na Pompeia, em São Paulo, um ambiente de “farra constante, muitas festas e artistas convivendo”, como ela define. Nessa época, ela equilibrava a atuação como cantora -de jingles, bares, bandas de jam sessions e backing vocal de música eletrônica- com o trabalho de garçonete no restaurante Spot.
Foi nesse cenário que ela criou e gravou o disco que leva seu nome, nas brechas de agenda em que o produtor Beto Villares podia recebê-la em seu estúdio. O álbum “Céu”, lançado em 2005, inaugurou a carreira da artista entrando no ranking da Billboard de mais vendidos dos Estados Unidos, no 57º lugar, um feito para um trabalho em língua não-inglesa.
Mais que isso, o disco rendeu uma rara indicação de um brasileiro ao Grammy americano, na categoria de melhor álbum de música global, além de uma carreira internacional até hoje bem-sucedida. Revisitado no palco em show em São Paulo nesta sexta-feira (23), e relançado em vinil pela Noize Record Club, o trabalho que completou 20 anos se mantém como um dos mais bem acabados retratos sonoros da primeira metade da década de 2000.
Mas apesar de inescapavelmente brasileiro, o disco começou a nascer quando Céu, filha de músicos, passou um ano em Nova York, quando tinha 18, tentando estudar música. “Fiquei muito pouco, mas gerou material para eu começar a ser compositora”, ela afirma. “As vivências que tive na rua, as porto-riquenhas andando onde eu morava, a galera do rap, essa coisa latente urbana que eu acabei pegando naquele momento me deu vontade de escrever minhas coisas.”
Era 1998, época do caldo de hip-hop, R&B, neosoul e reggae que desembocou em Lauryn Hill e Erykah Badu, do trip-hop do Portishead e do rap do Wu-Tang Clan, entre outros sons. “A música urbana virou um elemento muito forte para mim”, diz Céu. “Eu já sabia que era da música brasileira, sempre foi isso, mas às vezes quando a gente se distancia da nossa cultura, parece que refresca a cabeça -até para falar dela mesma.”
“Céu”, que marca o encontro de sons tradicionais brasileiros com essa música urbana, foi gravado ao longo de 2004, numa colaboração entre a cantora e o produtor. Para ela, a estética da obra resulta da química com Villares. “Ele entendia onde eu queria chegar e tinha uma paixão pelo Brasil que eu também tenho -e no mesmo lugar, uma pesquisa grande do folclore, um alinhamento.”
Os dois recentemente reabriram os arquivos em que trabalharam na época. Primeiro, ficaram surpresos com o tempo que passaram refinando o álbum -praticamente um ano inteiro. Depois, Céu, hoje aos 45 anos, se reconectou com sua versão de duas décadas atrás através do canto.
“Eu era muito verde”, ela diz. “Apesar de já ter a minha textura, uma unidade que perdura, era uma menina. Fui descobrindo que eu tinha uma amplitude maior com o tempo. É muito bonitinho, porque ouço as sessões e sei exatamente o que eu estava pensando quando estou emitindo aqueles sons. Sei até onde eu achava que era capaz de chegar, minhas limitações, e onde eu achava que podia me deleitar, brincar e me soltar.”
A voz contida e menos ousada, ainda que já sedutoramente letárgica, dá vida a uma maioria de composições próprias de Céu -12 das 15 do disco. Em “Rainha”, sob uma linha de baixo circular e sopros que aludem ao afrobeat de Fela Kuti, ela reconhece a influência da música negra ao retratar uma realeza africana que é “mãe da matéria-prima” e a quem “vai levar vida inteira para lhe agradecer”.
“Eu já estava pensando em racialidade e toda essa discussão que acontece hoje”, ela afirma. “Não sei se era consciência, mas muito cedo percebi que a semente de tudo era a música preta, sabe? Já tive muitas conversas com pessoas da música que a gente chega a essa conclusão, de que talvez não exista exatamente uma música branca. A semente, a mãe, está toda na África.”
Outra canetada de Céu nesse disco é “Malemolência”, faixa que atesta a durabilidade da obra. Levada no cavaquinho e violão e com baixo e batidas que ecoam o hip-hop, a música foi remixada pelo DJ mexicano Mandragora, que tem vivência e atuação na cena brasileira e hoje reside na França.
Nessa encarnação, a faixa de Céu virou febre em bailes funk e sets de DJs no Brasil e no exterior, isso antes de virar sample em “Trip do Boyzinho”, do cantor baiano Rosemildo Duarte, conhecido como Boyzinho. Dessa vez, a voz da cantora pontuou uma fusão de bregadeira com eletrônica de rave que fez a música estourar novamente.
Céu diz que teve problemas com Mandragora, que ela diz ter remixado seu fonograma, mudando o nome da música -para “Sem Ar”- e a excluindo da autoria, tudo sem autorização. A cantora conta que hoje essa situação está resolvida, e seu nome já consta como autora da faixa.
“Evidente que houve um estranhamento, porque ele pegou essa música e fez um hit. Pegou a voz original, a letra original, deu outro nome e me tirou da autoria. Podia só ter me botado, né? Mas já está tudo certo, já sou compositora de ‘Sem Chão’ também. Mesmo não creditada, comemorei muito, ainda mais depois com a bregadeira e todas as versões. Para mim são janelas, pontes. Meu grande desejo é que a minha música atravesse.”
O disco “Céu” é carregado também de uma atmosfera etérea que a cantora chama de lerdeza -algo que a acompanha por toda a carreira. É uma energia que combina com os efeitos de alteração de consciência da maconha e remete à obra de Bob Marley, presente no álbum com a música “Concrete Jungle”, para a qual Céu fez uma versão acústica.
“Acho que eu tenho toda a atmosfera da cannabis dentro de mim, assim, naturalmente”, diz a artista. “Já fui usuária. Hoje, fora o [composto da planta que não possui o efeito psicoativo] canabidiol, não sou. Sou muito sensitiva e a erva abre muito, abre tudo. Prefiro trabalhar já com meu mecanismo natural das coisas.”
Ela conta que já fez uso da erva para criar, especialmente no álbum que agora celebra no palco. “Foi um momento em que eu estava experimentando mais, usando mais. Quando estou numa imersão, no mato, ouvindo o som, isso sempre me fez muito bem. Acho que a cannabis é uma erva muito sagrada mesmo. Como vou usar uma coisa dessas assim -acordei e vai. Acho que ela pede um entorno.”
Céu defende a regulamentação antes de se pensar na legalização. “Acho importante olhar para as pessoas que já estão trabalhando nisso há anos, porque se não abre a lei para legalizar e aí vêm corporações gigantescas com dinheiro, para fazer mais dinheiro, e acabam com esses microempreendedores, cultivadores, pessoas que conhecem”, ela diz. “É um caminho a ser feito com cautela, não assim deliberadamente. Mas sou totalmente a favor.”
Vinte anos depois, Céu crê que a música brasileira ainda interessa aos americanos. Ela louva os esforços de Anitta ao tentar entrar no mercado dos Estados Unidos e lembra que o sucesso de seu disco por lá se deve também à aposta do selo Starbucks Hear Music, da famosa cafeteria, que comercializou o álbum no país.
Mas se “Céu” saiu numa época em que a internet ainda engatinhava no Brasil, hoje o mundo digital é a norma. “Sempre fui de ouvir uma coisa e gostar quando era estranho. Não preciso gostar de cara, mas se é legal, vou ficar. Você se debruça sobre o material. Então, esse deleite sobre uma coisa está se perdendo, né? Está tudo virando muito sobre o momento. Mas não sou pessimista, acho que a humanidade anda em espiral -é a espiral do tempo, como disse o Gilberto Gil.”
Céu 20 anos
Quando: 23 de janeiro, às 22h45
Onde: Audio – av. Francisco Matarazzo, 694 – Água Branca, São Paulo
Preço: a partir de R$ 108
Autoria: Céu