Cláudio Fernando, viúvo da empresária morta em Guarujá: "Virgínia foi minha professora de vida"GUSTAVO KLEIN

O trabalho de jornalista nos coloca, às vezes, em posições muito pouco confortáveis. O que dizer para um homem que acaba de perder a esposa em um crime violento? O que dizer, como se portar? Eu conheci o Cláudio Fernando Aguiar em 2018, durante o processo eleitoral. Ele foi candidato. Um homem cheio de energia, de convicção, que olhava no olho. Que fazia e acontecia. O Cláudio Fernando que eu encontrei hoje me dá impressão de estar vazio por dentro. Vazio de emoções, vazio de planos e de sonhos, vazio de qualquer energia que não seja a voltada para fazer justiça, para buscar os culpados pelo assassinato de sua esposa e fazer com que paguem pelo crime. E depois? “Depois”, diz ele, “não quero pensar no depois. Não tenho planos. Minha vontade era me encontrar com a Virgínia”. Cláudio Fernando bateu um papo comigo, cujos principais trechos você lê a seguir.

Como foi o momento em que você soube do assalto? Você estava longe de São Paulo, né?
Estava em Belo Horizonte, visitando uma outra emissora de tevê. Me ligaram falando, primeiro, que ela havia sido assaltada e atingida por um tiro. Aos poucos, conforme eu ia para o aeroporto, fui recebendo outras ligações que iam, aos poucos, dando um retrato mais claro do que havia acontecido. Ainda assim, até porque eu estava longe, as pessoas tentaram me poupar. Cheguei a São Paulo e comecei a descer a serra ainda sem saber da gravidade do caso. Foi quando eu recebi um telefonema de condolências pela morte da minha esposa.

Você tem feito, por conta própria, investigações, junto a comerciantes e junto à população de Guarujá para acessar as imagens das câmeras de monitoramento e, assim, já conseguiu fazer com que os três envolvidos no assalto que terminou com a morte da Virgínia, sua esposa, fossem presos pela polícia. Como tem sido isso?
É um lado muito positivo que, no meio de toda a tragédia eu encontre solidariedade. Até pelo impacto que a notícia teve, muitos comerciantes têm vindo me procurar com as imagens de monitoramento. Foi assim, e com um aplicativo que ela tinha no celular dela, que conseguimos montar todo o trajeto dela e dos bandidos e identifica-los.

Fica cada vez mais complicado defender a tese de que se trata de um crime do tipo ‘saidinha de banco’, não?
Eles chegaram ao banco um minuto depois da Virgínia. A seguiram por cerca de 20 quilômetros. Houve momentos em que ela virava à esquerda e eles seguiam reto, para encontra-la em outro ponto. Eles sabiam exatamente qual seria o caminho dela, para onde ela iria. Não foi uma saidinha de banco, foi um crime planejado, ensaiado.

Os três envolvidos no crime já foram presos graças a esse trabalho que você e a Polícia Civil vem fazendo...
Os três envolvidos que se sabe estão presos. É de se esperar que as investigações continuem e que, caso seja este o caso, outros envolvidos apareçam. Como estas pessoas, que não conheciam a Virgínia, sabiam dos horários dela, do trajeto dela, da hora em que ela iria ao banco? E outra coisa: um deles, justamente o mentor intelectual do crime, está prestes a ganhar liberdade porque apresentou um laudo que mostra que, por causa de um defeito físico, ele não poderia dirigir o carro que participou do assalto. Mas conseguimos um vídeo que mostra o ‘Macaco’, que é este último que foi preso, dirigindo, em janeiro deste ano, o carro que foi usado no assalto.

Como surgiu esse vídeo?
A polícia fez busca e apreensão na casa dos parentes do acusado e, no celular da esposa dele, encontrou esse vídeo, gravado no dia 1º de janeiro deste ano. O primeiro envolvido, que foi o que efetuou os disparos, foi preso em flagrante, no momento do crime. Foi meu sogro, pai da Virgínia, que segurou ele até a chegada da polícia, inclusive. O segundo foi preso porque foi flagrado pelas câmeras de monitoramento. O terceiro é o Marcelo Macaco, o último a ser preso e o mentor intelectual do crime, já que é o dono do carro que seguiu a Virgínia e também o dono da arma usada no crime. É fundamental chegar no patrocinador do crime. Pegando os três envolvidos talvez consigamos chegar no quarto suspeito...

Existe essa suspeita?
Eu acredito nisso, justamente por causa de todas as coincidências que já falei. Não há sentido nesse caminhão de coincidências. O próximo passo é buscar esse informante.

Essa sua luta tem sido encorajada?
Muita gente tem me dado força. Há também os que dizem que vou acabar morrendo. Não sei, talvez seja esse um bom destino para mim, porque a vida acabou. Não tenho alegria, não tenho perspectivas, não tenho prazer em viver. Morri junto com a Virgínia mas continuo aqui, lutando para fazer com que a morte dela não fique sem uma solução. Sempre fui cristão protestante mas ultimamente tenho me apegado em algumas coisas para conseguir ter forças para me levantar pela manhã. Eu preciso acreditar que vou reencontrar a Virgínia, um dia. Que ela não se foi em definitivo. Se eu deixar de acreditar nisso, morro de vez. 

Conta um pouco da sua história com a Virgínia...
A Virginia foi minha professora na faculdade. Eu sempre tive uma grande resistência à ideia de casamento. E desde pequeno. Meus pais tinham um casamento complicado, marcado pelo alcoolismo dele, e minha infância, nesse aspecto, não foi feliz. As lembranças não eram boas e por isso eu nunca havia pensado em me casar. E então, com 26 anos, estava na faculdade, terminando Administração. No último semestre entra para dar aula a Virgínia, professora de Relações Internacionais. Ela não devia pesar mais do que 50 quilos. Chegou, bem magrinha, com salto alto, e me deslumbrou. Naquele momento, tudo o que eu pensava a respeito de casamento foi esquecido. Na mesma hora em que a vi pela primeira vez, pensei: “vou me casar com esta mulher”.

E foi fácil?
Ela não quis. Rodeei, rodeei e nada. Passou um ano e ela ainda não cedia às minhas paqueras. Tinha medo, por ter sido minha professora. Aí abri uma transportadora. E tinha a justificativa perfeita para trazê-la. Ela era especialistas em relações internacionais, havia morado fora... Convidei para ela prestar uma consultoria e ela topou. Nesse tempo consegui ficar amigo dela. E um dia cheguei e disse: “Tenho uma proposta para te fazer. Irrecusável”. E ela respondeu: “Já topei”. Fomos para Pindamonhangaba passear. E, lá, ela me deixou dar um beijo nela. Não nos separamos nem um dia desde então. Nos casamos três anos depois, em um 3 de janeiro, em homenagem ao dia do aniversário da avó dela.

E como era o dia a dia?
Virgínia era a companheira ideal. Quando a conheci não tinha uma condição financeira boa. Tinha mais dívidas do que patrimônio. Isso nunca foi um impedimento para que a gente curtisse nossas vida e nossa companhia. Eu tinha uma Biz no começo do namoro. A gente pegava a Biz e ia para o Litoral Norte, combinando assim: “vamos até onde o combustível der”. Quando minha situação melhorou, levei ela para dar uma volta de helicóptero em torno do Rio de Janeiro e pousamos no Pão de Açúcar. Eu já tinha um filho, o Lucas, e ela tinha uma filha, a Beatriz. Até nisso a relação deu certo e combinou. Tivemos o Fábio, juntos. Todas as loucuras que eu inventava, ela topava. Demos a volta ao mundo, de mochila nas costas, duas vezes. Construímos a vida assim. Juntos.

No que a Virgínia trabalhava?
Ela era muito competente e muito criativa. Criou uma empresa de importação e exportação de cavalos para campeonatos. Ficou muito conhecida nesse meio. O Doda Miranda, medalhista olímpico, chegou a fazer uma homenagem a ela. Na hora até fiquei um pouco chateado porque ele escreveu “te amo”. Mas depois ele colocou um “...como irmã” e eu fiquei mais contente. Ela tinha diversos outros trabalhos, com Lojas Americanas, com Intermarítima.

Era muito ativa...
Era uma pessoa fantástica. E sempre pensando em coisas novas. Decidiu montar uma esmalteria. Ela precisava de um escritório para a empresa de cavalos. Aí montou a empresa de cavalos em cima e a esmalteria embaixo. Uma esmalteria bacana, com os produtos que ela entendia que eram bons. E nossa vida era assim. Namorar, trabalhar, viajar. Realizamos sonhos. Compramos a casa que sonhávamos em comprar. Realizei todos os meus sonhos com a Virgínia.

Como era o temperamento dela?
Eu sou empresário. Empresário é sempre agitado. A Virgínia era diferente. Era calma, sempre muito calma. Eu a chamava de “ouro” e ela me chamava do mesmo jeito. Sempre que eu ficava agitado demais, falava alto, ela, me dizia: “Não fala alto porque falar alto afasta o que você quer. Fique tranquilo”. A Virgínia não tinha inimigos. Não tinha nem antipatias. Dizia “como é esse negócio de não ir com a cara?”. Não entendia essas coisas, gostava de conhecer as pessoas, era muito humana e muito tranquila. Ela era calma. Era muito calma. Por isso que não aceito a forma como ela se foi, não aceito a brutalidade.

Por tudo o que você fala e pelo jeito que você fala, dá pra ver que a admiração por ela – e o amor por ela – eram enormes...
Ela foi e sempre será o grande amor da minha vida. Ela não foi apenas minha professora de relações internacionais. Foi minha professora de vida. Me ensinou a compreender, a amar.

Vocês têm, como você já disse, um filho, o Fábio, que tem seis anos. Como tem sido para ele esse momento?
O Fabinho é fantástico. O Fabinho é especial. Nunca falamos disso antes. Ele faz alguns tratamentos, às vezes está agitado. Nós lutamos para tornar a vida dele a mais normal possível. Tentei dizer a ele que a mãe virou uma estrelinha. Mas ele vai para a escola e, na escola, alguma criança disse a ele que a mãe tomou dois tiros de um homem mau. Ontem ele falou que a mãe o abandonou. Então a gente passa o tempo, todos os dias, tentando colocar alegria no dia dele. Mas quando a bola baixa, ele sempre pergunta: “Mas cadê a minha mãe”? Ele vai ao nosso quarto, anda pela casa procurando por ela. Levou na brincadeira essa história de que virou uma estrelinha. Pergunta quando ele vai virar uma estrelinha, quando ela vai voltar a virar gente. É um menino espetacular, que brinca, que tem o temperamento dele e um espírito maravilhoso...

...e puro...
Muito puro. Extremamente puro. Num ato até desesperado, eu, que vou todos os dias ao cemitério, o levei lá, no domingo. Falei pra ele que ali ficam as pessoas que a gente gosta e que a mãe dele está ali. Ele chorou, brincou, perguntou se a bisa estava ali, também... Do jeito dele ele está elaborando essas informações. Quando fomos embora ele se virou e falou “tchau, mamãe”. Aquilo me impactou muito.