Emoção, luxo e ousadia marcam segundo dia do Grupo Especial no Carnaval Carioca


134 dias atrás
Por: Agência Brasil - Em 05/03/2019 às 09:56
Emoção, luxo e ousadia marcam segundo dia do Grupo Especial no Carnaval Carioca Tomaz Silva/Agência Brasil

CARNAVAL 2019 - A São Clemente abriu os desfiles do segundo dia do Grupo Especial com irreverência e foi seguida por uma performance luxuosa da Vila Isabel e uma calorosa homenagem da Portela a Clara Nunes, depois União da Ilha, Mangueira, Mocidade e Paraíso do Tuiuti. Após a noite de sábado (2), em que a chuva preocupou as escolas de samba do Rio de Janeiro, as agremiações do Grupo Especial que entraram no sambódromo na segunda-feira encontraram a pista seca e o tempo bem menos instável.

Consagrada por suas críticas sociais e bom humor, a São Clemente foi a primeira a desfilar ontem (4). A escola reviveu um samba de 1990 em que criticava os rumos do carnaval carioca, cheio de famosos, ingressos caros e efeitos especiais. "Virou Hollywood", ironiza o samba, que criticava também a falta de espaço para o povo participar da festa.

A comissão de frente da São Clemente trouxe os cartolas do samba definindo o futuro do carnaval em uma virada de mesa, referência que já tinha aparecido no desfile da Grande Rio. As duas escolas lembraram a permanência da própria Grande Rio e da Império Serrano no Grupo Especial, depois de uma decisão em plenário da Liga Independente das Escolas de Samba ter suspendido os rebaixamentos do ano passado.

Ídolos Pop
Fantasiado de Michael Jackson e Madonna, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira apontava a invasão de ícones culturais norte-americanos no carnaval. No abre-alas, o destaque a Marylin Monroe reforçava essa crítica. Marylin apareceu de aplique loiro e sutiã de ícone – marcas da artista na vida real.

A escola ironizou também o luxo dos camarotes e a distribuição de credenciais para amigos de poderosos verem os desfiles, enquanto o povo fica de fora da Sapucaí. O segundo carro mostrou a programação dos camarotes, representando uma festa com DJ e música eletrônica em plena passarela do samba.

Discussões antigas dos amantes de carnaval como os enredos e fantasias pagos, a influência da TV e o ego dos carnavalescos e estrelas também voltaram na reedição do enredo de 1990. Com a atualização do tema, as redes sociais entraram na lista, com a proliferação de "especialistas do samba" e intrigas espalhadas sobre as escolas.

Investimentos
A escola defendeu ainda o investimento em cultura, criticando os cortes de verbas que as escolas de  samba sofreram nos últimos anos. A São Clemente terminou o desfile em clima de nostalgia, lembrando antigos carnavais. O carnavalesco Jorge Silveira disse que o desfile cheio de críticas e irreverência foi um reencontro da escola com sua essência. Segundo ele, é necessário cuidar para, como diz o enredo, o samba não sambar.

"Muita coisa que ameaçava a gente naquela época continua ameaçando. A coisa só se potencializou. Mas o que mais fere o sambista é deixar o povo fora da jogada. O carnaval é do povo e ele é o protagonista".

Vila Isabel
A Vila Isabel subiu a serra e homenageou Petrópolis no carnaval deste ano. O enredo promoveu o encontro da cidade imperial com a comunidade do Morro dos Macacos e teve seu desfile iniciado por uma visita ao Museu Imperial, principal ponto turístico da cidade serrana.

O palácio foi retratado pela comissão de frente, em que estátuas se moviam e convidavam o público a entrar. No abre-alas, três luxuosos carros acoplados representavam cavalos puxando a carruagem e a coroa real, seguidas por alas que retratavam a corte e os anjos a acompanhar São Pedro de Alcântara, antigo padroeiro do Brasil Imperial.

Da opulência da coroa, o desfile seguiu para a beleza natural da serra que já pertenceu aos índios. O desfile passa ainda pela chegada dos imigrantes europeus e árabes à região, à ferrovia e à presença da cidade nos primeiros passos brasileiros no cinema.

Tempo
A Vila Isabel correu contra o tempo, mas não conseguiu encerrar o desfile no limite de 75 minutos, o que pode render penalidade na pontuação. Apesar do contratempo, o carnavalesco Edson Pereira considerou o desfile um sucesso. "Até se (o atraso) comprometeu, nossa satisfação foi ter feito um carnaval de qualidade e mostrar para a comunidade que a gente está vivo."

No último setor, o desfile lembrou o papel da Princesa Isabel na assinatura da Lei Áurea, que aboliu a escravidão no Brasil. A escola falou da luta por justiça e contra a desigualdade racial, e a família da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), assassinada em março de 2018, desfilou no último carro.

A irmã, o pai e a filha da vereadora levavam uma faixa escrito “Marielle Presente”, e a irmã Anielle se emocionou ao comentar o desfile em um carro que representou uma das bandeiras que Marielle defendia. "Estar aqui com o povo negro foi muito forte. Ela (Marielle) era isso. Era carnaval. Não tem jeito de não ficar com um nó na garganta."

Portela
O terceiro desfile da noite foi da Portela, escola tradicional de Madureira que decidiu homenagear uma de suas grandes estrelas, a cantora Clara Nunes. Em vez de contar a biografia da cantora, a Portela escolheu explorar sua brasilidade e falou de sua formação religiosa, da infância no interior e do encontro de Clara com o subúrbio do Rio de Janeiro, onde conheceu a Portela.

A comissão de Frente, coreografada por Carlinhos de Jesus, trouxe as Guerreiras de Iansã. O coreógrafo comemorou que tudo saiu como planejado. "A ideia era homenagear a mulher brasileira por meio da figura da Clara Nunes, que foi uma das pioneiras a bater no peito e assumir uma série de posicionamentos. E isso foi muito importante, porque a Clara tem essa voz."

O desfile teve outros elementos  de religiões de matriz africana, ao mesmo tempo em que carros sobre a fé católica trouxeram igrejas barrocas e a imagem de Nossa Senhora Aparecida. No abre-alas, a icônica águia da Portela veio neste ano com asas reluzentes, voando sobre outras aves da fauna brasileira.

O desfile também falou da criatividade do povo brasileiro e contou, em um abre-alas, a história de um comerciante de Madureira que mandou decorar um coreto do bairro como se fosse a Torre Eiffel. A pintora Tarsila do Amaral testemunhou a cena e a eternizou no quadro Carnaval em Madureira, considerada uma importante obra do modernismo brasileiro.

Mangueira
A “Mangueira foi Mangueira” é uma expressão usada por especialistas em desfiles de escolas de samba para dizer que a Estação Primeira desfila mantendo a tradição à história e suas raízes. Ao final, foi saudada com gritos de é campeã, das arquibancadas populares da apoteose, a área de dispersão. Até a entrada da Mangueira não houve outra escola que tenha provocado a reação do público nos desfiles deste ano.

“Um enredo completamente emocionante. A Mangueira tem essa responsabilidade”, disse a cantora Alcione ao analisar o enredo “História para ninar gente grande”, criado pelo carnavalesco Leandro Vieira. No enredo, Alcione representou Dandara, a mulher de Zumbi dos Palmares. “Foi uma honra representar Dandara, uma líder das pessoas escravizadas”, afirmou.

A intenção do enredo foi mostrar a participação de líderes populares que influenciaram a história do Brasil e não têm suas realizações contadas nos livros. Neles, personagens negros, índios, com destaque também para mulheres como a vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), Maria Felipe Oliveira, que liderou a resistência aos portugueses na Bahia e Luiza Mahin, líder do levante dos Malês, de pessoas escravizadas.

Emoções
A cantora Leci Brandão, que é mangueirense, disse ter sido tomada por um misto de sentimentos durante o desfile, pois foi homenageada e citada na letra do samba-enredo. “A gente entra para a ala dos compositores nos anos de 1970 e, em 2018, ter o nome no samba é pra gente chorar, uma emoção muito grande mesmo, principalmente porque vim representando Luiza Mahin”, afirmou a artista.

Mônica Benício, viúva da vereadora Marielle Franco, morta em março do ano passado, disse que foi um enredo urgente e atual. “Fala de representatividade, de resistência, e a Marielle sendo homenageada, ter ela hoje como símbolo de esperança é, sobretudo, uma emoção muito grande”, disse.

Para a jornalista Hildegard Angel, que passou na avenida no alto da alegoria a História que a História não conta, o desfile também foi uma emoção forte. O irmão dela Stuart Angel desapareceu em 1971, quando atuava na militância política. “Enorme, enorme. Além da expectativa”, reagiu a jornalista.

Ao fim do desfile, o carnavalesco Leandro Vieira  afirmou estar com sentimento de dever cumprido. “Com certeza, não sei se bem, mas cumprido. Mexeu com o público e eu me diverti pra caramba”, disse.

União da Ilha
Com irreverência e alegorias coloridas,  a União da Ilha entrou na avenida para fazer uma homenagem a dois autores brasileiros que nasceram no Ceará: Rachel de Queiroz e José de Alencar.  O enredo A Peleja Poética entre Rachel e Alencar no Avarandado do Céu, do carnavalesco Severo Luzardo Filho, empolgou o público com um samba leve que ajudou os componentes da evolução da escola.

A atriz Cacau Protásio, que em outros anos veio em comissões de frente, neste carnaval estava no alto de um carro alegórico, mas com um motivo muito especial. Cacau representou Rachel de Queiroz.

“Uma emoção diferente porque vim representando Rachel de Queiroz. Não tem presente melhor do que isso. Uma mulher importante, que levou o Ceará para o mundo. Isso é maravilhoso”, disse a atriz.  “Acho que a gente está precisando disso. O Brasil precisa disso. As escolas precisam de história e de saber que o carnaval ajuda. Tem gente que não sabe o que tem no Ceará e hoje a União da Ilha pôde mostrar isso. A galera nas arquibancadas veio com a gente.”

Cordel
O presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, Gonçalo Ferreira da Silva, de 82 anos, representou José de Alencar. O escritor ficou feliz por isso e por ter sido na União da Ilha. “É uma oportunidade de ouro, porque também sou cearense e ele também, para mim, é o maior romancista brasileiro. Portanto, razão dupla para eu estar feliz”, disse o presidente, no cargo há 30 anos.

Gonçalo ficou impressionado com a reação do público à passagem da escola. “Já fiz muitas outras coisas, mas esta foi singular e a primeira vez que desfilo em uma escola de samba”, completou.

O autor Mailson Furtado, ganhador em novembro de 2018 do prêmio Jabuti de melhor livro do ano, também gostou da experiência de desfilar em uma escola de samba. “É uma alegria imensa estar aqui e falar de literatura e poesia, neste que é o maior espetáculo da Terra. É uma difusão para que mais pessoas leiam e produzam. É um grande momento para que a nossa literatura seja mais vista.”

Paraíso do Tuiuti
Ao desfilar na Avenida Marquês de Sapucaí com enredo também relacionado ao Ceará, a Paraíso do Tuiuti contou a história do bode Ioiô, que foi eleito vereador em Fortaleza, e mostrou o enredo O Salvador da Pátria. Como no ano passado, o carnavalesco Jack Vasconcelos fez um enredo crítico, agora à política.

O desfile levantou o público. Tia Sandra, coordenadora da ala de baianas, revelou que foi um ano difícil para as componentes por causa das dificuldades financeiras. “Este ano foi pedreira, muito difícil. Um ano complicado para todo mundo e, claro, para as baianas. Todo mundo sem dinheiro. Mas a gente foi levando, tentando fazer o nosso melhor, é nosso carnaval, estão aí as Mães do Alagadiço”, disse Tia Sandra referindo-se ao nome das fantasias das baianas no enredo.

A compositora Luzia Faria Silva, de 93 anos, que desfilou em uma cadeira de rodas, disse que faz tudo pela Tuiuti. “Sou nascida, criada, tenho netos, bisnetos e tataraneta, tudo no Tuiuti, 93 anos de Tuiuti. Comecei a ser compositora no tempo do Bolinha, menina não entra”, disse.

Luiza acrescentou que “para defender a sua música era uma coisa. Tenho um hino que ainda vou ver divulgado e declamou: ‘No arco-íris da vida, a minha cor preferida é o verde, porque representa a esperança’. Eu sei que quem espera sempre alcança. Se algum sonho meu se realizar, sei que foi a esperança que me ajudou a triunfar”.

A escola teve problemas com o último carro. Para entrar na avenida, parte das laterais foi retirada e alguns destaques foram obrigados a desfilar no chão.

Mocidade Independente de Padre Miguel
Os desfiles do Grupo Especial de 2019 foram encerrados com a apresentação da verde e branco de Padre Miguel, na zona oeste. O carnavalesco Alexandre Louzada escolheu o enredo Eu sou o Tempo, Tempo é Vida, com vários tipos de apresentações. Ele passa rápido, devagar, não volta, não perdoa. A busca pelo tempo eterno, a vida.

As características que marcam a escola e o próprio carnavalesco foram mantidas. A Mocidade levou para a avenida alegorias gigantes e cheias de efeitos. Como seria a última do segundo dia de desfiles e já com o céu claro, a opção foi carros muito coloridos e com detalhes que pudessem refletir o sol.

O resultado agradou ao público que permaneceu no Sambódromo e aplaudiu muito a presença da cantora Elza Soares logo no início do desfile. Segundo a porta-bandeira Cristine Caldas, se pudesse voltar no tempo reviveria o carnaval de 2009 quando defendeu pela primeira vez o estandarte da Mocidade.

“Gostaria de voltar a esse tempo. Ainda era muito jovem e agora estou mais amadurecida, aqui de volta, tive esse retorno”, ressaltou Cristine. Na dispersão, ela passou mal, mas ao beber água, melhorou. “Foi cansaço. Peso da roupa , mas está tudo bem. Tudo que a gente ensaiou foi feito”, destacou.

Alegria
A alegria contagiante da dona Alônia Borges, de 71 anos, cantando forte o samba-enredo e dançando, mesmo depois de toda a extensão da Marquês de Sapucaí, tinha uma razão de ser. “Amor pela escola, gratidão ao público, à diretoria que fez essa fantasia maravilhosa para que pudéssemos rodar. Gratidão a Deus por estar viva e na Mocidade, a minha escola amada, de coração. É emocionante”, disse.

Dona Alônia entrou para a escola aos 17 anos como passista, participou de ala de comunidade até se tornar baiana. Quando se encaminhava para o fim da passagem na Marquês de Sapucaí, parte do público invadiu a pista e acompanhou a Mocidade até a dispersão. Foi uma consagração popular.

As escolas e seus torcedores precisam aguardar até quarta-feira (6) para saber quem venceu o Carnaval Carioca de 2019.