Rio: na primeira noite, temporal atrasa desfile e desafia o Grupo Especial


84 dias atrás
Por: Agência Brasil - Em 04/03/2019 às 09:54
Rio: na primeira noite, temporal atrasa desfile e desafia o Grupo Especial Tomaz Silva/Agência Brasil

CARNAVAL 2019 - A chuva forte que caiu sobre o Rio de Janeiro deixou a cidade em estágio de atenção e afetou o carnaval no Sambódromo. O temporal atrasou o início do desfile e pôs à prova as escolas. O desfile do Grupo Especial, programado para começar ontem (3) às 21h15, teve início às 22h. A pista molhada desafiou as coreografias preparadas para a avenida.

A primeira escola a entrar na avenida foi a Império Serrano, com um enredo sobre a vida que apostou numa música consagrada como samba-enredo: "O que é, o que é", de Gonzaguinha. A escolha despertou polêmica, mas trouxe para a avenida uma música que estava na ponta da língua do público.

Enredo
O desfile da Império Serrano contou desde o início da vida, o nascimento, retratado na comissão de frente. A efemeridade e o caráter passageiro da vida foram bem marcados por meio de relógios e ampulhetas nas alegorias.

Os destaques foram o carro que reproduz o famoso Deus de Michelangelo na Capela Sistina criando Adão em "um sopro do criador", como canta Gonzaguinha.

O enredo também trouxe a religião, as lutas, o aprendizado e o desejo de uma vida de paz, saúde e sorte, seguindo a letra da música que virou samba-enredo.

Interpretação
Na história em que "ninguém quer a morte", como cantam os versos, coube a atriz Dill Costa, 63 anos, interpretar esse papel. Com uma fantasia de tons escuros, ela veio como destaque no 4º carro da escola, que retrata a vida como um labirinto entre o abismo e o paraíso.

"Represento esse momento tão difícil que o povo brasileiro está passando, com tantas tragédias e tantas mortes. Venho representando esse sentimento, o que é muito difícil. Mas faz parte da vida", disse a atriz e cantora.

A presidente da escola, Vera Lúcia Correa, defendeu que o samba de Gonzaguinha pegou e foi cantado pelos componentes e torcedores. O temporal que caiu antes do desfile, brincou ela, “não passou de uma limpeza para o Império passar”.

"Foi uma superação esse carnaval, depois de tantas dificuldades. Hoje a Império Serrano mostrou que tem chão e que tem garra. Mostramos que sambista enverga, mas não quebra".

Vira
A segunda escola da noite trouxe seres mágicos, monstros e histórias fantásticas para a avenida. Com o enredo de "Viraviradouro", a agremiação de Niterói abusou das transformações, coreografias e engenhocas para
surpreender o público na avenida.

Os recursos são uma assinatura do carnavalesco Paulo Barros, que levou desde bruxas e mortos-vivos até contos de fadas como a Bela e Fera para o sambódromo.

A comissão de frente foi um dos destaques. Diante do público, príncipes se transformavam em sapos com a magia lançada por bruxas e seus caldeirões.

Susto
O coreógrafo Alex Neoral disse que o temporal horas antes do desfile deu um susto em seus dançarinos e a pista molhada não ajudou a executar os passos ensaiados.

"O importante foi que a gente viu a reação do público. Viu o público gritando do início ao fim. E aí a gente viu que a gente conseguiu nosso objetivo, que era passar essa mensagem de mágica e de alegria", ressaltou.

Fênix
A Viradouro voltou neste ano ao Grupo Especial do Rio de Janeiro e seu desfile terminou com um animal mitológico que representa seu desejo de renascer: uma fênix. Segundo a lenda, a ave é capaz de ressurgir das cinzas depois de cair e esse é o desejo do carnavalesco Paulo Barros ao voltar para a Viradouro.

"A Viradouro é uma escola que tem um perfil grande, um perfil forte. É uma escola que passou pelo grupo de acesso, mas tem o coração e a alma do Grupo Especial", disse Paulo Barros, que se considera sempre otimista. "O resultado não depende da gente. A gente fez o nosso, mas a gente não domina o resultado."

Internet
Referências à internet, drones, carros alegóricos cheios de luzes e irreverência marcaram o desfile da Grande Rio, a terceira escola que entrou na Marquês de Sapucaí, já na madrugada de segunda. A agremiação brincou com a falta de educação e provocou o público falando do jeitinho brasileiro.

Imprudência no trânsito, compartilhamento de fake news, pichações, furto de internet e outros deslizes apareceram no desfile da escola em fantasias e alegorias bem humoradas. O desfile apontou os defeitos e sugeriu a educação como a solução para um país com menos ignorância.

O presidente da Grande Rio, Milton Abreu do Nascimento, considera que a escola teve sucesso em passar sua mensagem na avenida. "A Grande Rio passou do jeito que quis, levantando o público. Foi um dos melhores desfiles dos últimos tempos da escola", comemorou.

Estandarte
O estandarte da escola foi carregado por uma porta-bandeira iniciante, Taciana Couto, que enfrentou uma Sapucaí ainda molhada em sua estreia. Os passos da dança incluíam suportar o peso dos mais de 60 quilos de sua fantasia - mais do que seus 54 quilos.

"Foi um pouquinho complicado, mas a gente conseguiu levar com garra e com emoção, mesmo com a pista molhada”, disse Taciana Couto.

Candidata ao título
A Unidos da Tijuca encerrou hoje (4) o primeiro dia do desfile do Grupo Especial com um desfile emocionante e é forte concorrente ao título de campeã de 2019. Os componentes cantaram o samba em tom de deferência como se fosse uma oração. O público nas arquibancadas também se deixou levar pela mensagem de união que a escola propôs com o enredo “Cada macaco no seu galho”.

O samba-enredo defendeu o amor ao próximo e a ideia de que se cada um desempenhar a sua função no mundo, a vida da humanidade pode ser melhor.

As encenações à frente de cada alegoria, criadas pelo ator e diretor Jan Oliveira, provocaram impacto, principalmente, a que veio na frente do carro “Comendo o pão que o diabo amassou” que é em forma de um navio negreiro.

Alegoria
Na figura de Xangô no alto da alegoria da comissão de frente, o ex- passista Quinho, levantou o público em vários momentos da coreografia em que fazia a dança do orixá utilizando dois machados, símbolo de Xangô.

“Parecia que não era eu e alguma coisa estava me conduzindo ali. Foi muito emocionante. Chorei o tempo todo. É a minha escola. Desfilo desde 2012”, afirmou Quinho.

Para o carnavalesco Alex de Souza, a escola de samba tem um papel social. “O país que carece tanto de soluções, a gente trouxe o povo no fim com duas bandeiras de luta”, disse o carnavalesco.

Saudações
Ao pisar na passarela do samba, a Beija-Flor foi saudada pelo público do setor 1 como bicampeã. A torcida concentrada na área mais popular da Marquês de Sapucaí se emocionou com o intérprete da azul e branco, Neguinho da Beija-Flor. Neste ano, o cantor completa 10 anos do desfile que marcou o fim de um tratamento contra um câncer e o casamento na pista realizado na concentração do Sambódromo com a companheira que estava grávida.

Com o enredo “Quem não viu vai ver… As fábulas do Beija-Flor”, a agremiação celebrou os 70 anos de história com uma releitura dos enredos mais marcantes que levou para a Sapucaí. Novamente o Cristo que passou coberto com um saco plástico preto no enredo Ratos e Urubus rasguem a minha fantasia em 1989, voltou este ano, dessa vez, completamente à mostra e mexeu com as arquibancadas.

Selminha Sorriso, porta-bandeira da escola há 24 anos, afirmou que se sente orgulhosa de fazer parte da história da Beija- Flor. “Vinte e quatro anos. Que alegria tanto tempo junto com o mesmo mestre sala o Claudinho. É muito felicidade. Espero dar os 40 pontos [pontos do quesito] para a minha escola”, disse.

Marcelo Misailidis, coreógrafo da comissão de frente, afirmou ter ficado satisfeito com a atuação dos integrantes. “Cumpriu com certeza com que estava esperando. Estamos esperando o bi [bicanpeonato] agora. Muito bom”, disse.

Dinheiro
A Imperatriz Leopoldinense que somou oito títulos de campeã entre 1980 e 2001 busca neste ano o campeonato com o enredo “Me dá um dinheiro aí”. A escola contou desde a criação do dinheiro com as mais antigas moedas até os dias atuais, passando por críticas à ganância. O samba leve contagiou os componentes e o público.

A escola, no entanto, teve alguns problemas na avenida. Um tripé teve problemas na roda e por decisão do carnavalesco ficou de fora do desfile. “Ele caiu em um buraco”, afirmou diretor de carnaval Wagner Araujo. “A gente aprendeu que talvez não permita este tipo de alegoria. Tentou consertar mas o carnavalesco achou que não valia a pena.”

O abre-alas que era formado por duas partes acopladas também não conseguiu seguir o desfile dessa forma e precisou ser separado. “A gente foi obrigado a desacoplar”, disse o diretor.


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