ESPECIAL CHORÃO: "Intenso, empreendedor e poeta" definem grandes parceiros do líder do CBJR


231 dias atrás
Por: Isabella Chiaradia/Colaboradora - Em 06/03/2018 às 21:56 - alterado em 08/03/2018 às 17:35

ESPECIAL CHORÃO - “Desde que ele foi embora, uma música começou a tocar na minha cabeça", lembrou Alexandre Teixeira, baixista do What’sUp, primeiro conjunto com Alexandre Magno Abrão, o Chorão, vocalista e compositor da banda Charlie Brown Jr. A música é: "Só os Loucos Sabem". Na hora em que recebeu a notícia, o ex-baixista, que hoje é advogado, sentou na cadeira de seu escritório e pôde ver o filme da vida dos dois amigos sem precisar de qualquer televisor ou tela para isso.

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"A nossa primeira gravação foi em um concurso feito por uma rádio, onde 11 bandas amadoras de Santos participaram. E aí o objetivo era ganhar um disco, um LP. Nós entramos como a décima primeira classificada! Foi assim: na 'raspa do tacho'. Assim que nós gravamos, ele pegou essa fita e foi em tudo quanto é lugar, bateu de porta em porta atrás de todo mundo. Dormiu na porta das gravadoras e esperou os caras abrirem pra insistir, persistir até conseguir", contou Teixeira.

Outra passagem que lhe veio à mente foi quando o Planet Hemp veio tocar em Santos e os integrantes estavam almoçando no Restaurante Vista ao Mar, próximo ao canal 5. Assim que soube da presença da banda, Chorão pegou a bicicleta e o toca fitas, seguiu para lá e ficou tentando chamar a atenção dos integrantes do Planet Hemp. “Marcelo D2, tu tem que por a minha banda (o Charlie Brown Jr) pra abrir teu show", recordou Alexandre Teixeira, o Bolinha. “De tanto insistir, o D2 falou: 'então tá bom, tua banda vai abrir meu show!' E eles abriram o show do Planet Hemp, na antiga Reggae Night, no morro da Nova Cintra. Venceu pela persistência, correu atrás do sonho e o sonho abraçou”, completou.

O contato profissional dos dois durou cerca de 11 meses. Após What’s Up, Chorão deu início ao Charlie Brown Jr, segundo o jornalista e crítico de música Julinho Bittencourt, que era amigo de Chorão, o novo grupo fazia um som hardcore e inglês, o que para ele e para o antigo integrante da banda Renato Pelado, que ainda não fazia parte do conjunto oficialmente, não possibilitaria a banda ir para frente.

Mas, depois de algumas mudanças no estilo do grupo, tudo começou a tomar outras proporções para o Charlie Brown Jr. “Os garotos eram engraçados, despachados, e o Chorão tinha o jeito marrento, cheio de talento e opiniões. Ele era o menino que incorporou como poucos a nossa alma santista e a levou adiante. Não tem nada mais santista do que falar: 'Meu, tu não sabe o que aconteceu'”, disse Bittencourt, fazendo alusão a um trecho da música "O Coro Vai Comê", primeiro grande sucesso da banda.

Para o jornalista, que conhecia o cantor desde menino, não tinha fama ou assessoria de imprensa que mudasse o jeito único do astro. “O Chorão era o mesmo sempre, nunca engoliu meio desaforo de ninguém. Falava e fazia o que queria e pronto! Muitas vezes pagou caro por isso. Mas, em outras ganhou muito, como suas canções sinceras e diretas. Um talento indiscutível”, afirmou Julinho.

Personalidade intensa
A continuação da CBJR em sua segunda fase, não só foi importante para os fãs, mas também para André Ruas, o Pinguim, ex-baterista da banda. O batera revelou que a intensidade de Chorão fez com que um de seus maiores sonhos fosse realizado, da água para o vinho. “Com ele é assim: as coisas acontecem no dia. Ele não deixava nada para depois. Foi uma das fases mais importantes da minha vida musicalmente. Ele me deu a oportunidade para que eu pudesse alcançar minhas metas, com ele isso aconteceu. Foram momentos lindos”, contou Pinguim.

A visão que Pinguim tinha das apresentações da banda era diferenciada. Até porque, o baterista tinha uma vista “privilegiada”. De trás do palco, ele podia ver seus companheiros e a profundidade do público que curtia o som na mesma intensidade da personalidade de Chorão. “Eu brincava que ele era igual pastor, manja? Ele falava de forma ecumênica. Mandava as pessoas mexerem os braços para um lado e elas faziam. Ele gritava ‘Charlie’ e a plateia completava ‘Brown’”.

Sem previsão de término é a forma como o ex-integrante define o grupo, e isso pode ser interpretado em dois sentidos. O primeiro: em razão das músicas que permanecem imortais. Já para o segundo trouxe à tona a época dos shows que não tinham hora para acabar. “O som parava, a luz ligava, desligava... Mas, a gente tava lá. E ele falava: ‘Vamos começar de novo’ e tocávamos mais duas horas. Era coisa de louco”, afirmou.

Ao contrário de Alexandre Teixeira, Pinguim precisou ligar a TV quando a mensagem da fatalidade chegou até ele. Na época, os dois não estavam com o relacionamento de amizade totalmente estável e o ex-baterista lamentou não ter tido o ‘timing’ (tempo, traduzindo do inglês para o português) de reatar os laços. “Foi um dia horrível. Eu acordei e minha esposa me disse: 'André, o Chorão morreu'. Como assim? Isso é coisa de Facebook”, mencionou o ex-baterista do CBJR, sentindo arrepio.

Mas, infelizmente, a informação era verdadeira. “Liguei a televisão e já estava explodindo os noticiários informando o que aconteceu. É louco isso, mas a Cidade estava em silêncio. Parecia um dia de feriado, sabe...?”, comentou Pinguim.

Por fim, o resumo da essência de Chorão foi feito por Bolinha, um dos grandes parceiros da vida do ídolo: “Tem uma frase que eu costumo dizer que define o Chorão, que é: 'Minha mente nem sempre tão lúcida é fértil e me deu a voz'. Aí você imagina, né? A mente nem sempre tão lúcida e fértil, deu a voz pra ele. Mas no dia 6 de março de 2013 (a mente) não estava tão lúcida e o que aconteceu? Ele era um poeta”, encerrou.

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