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Que País é Esse ? Uma necessária reflexão sobre o caso Marielle Franco.

" Nas favelas, no Senado

  Sujeira pra todo lado

  Ninguém respeita a Constituição

  Mas todos acreditam no futuro da nação

 

Olá pessoal,

 

Essa música escrita por Renato Russo em 1978, mas somente lançada com o álbum de mesmo nome pela Legião Urbana em 1987, ainda retrata bem o que estamos vivendo em nosso país

 

Muito me preocupa os comentários de parte da população a respeito do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, brutalmente executada dentro de um veículo, onde morreu também o seu motorista.

 

Não bastasse ser um crime horrível, mais horrível ainda está sendo a repercussão negativa daqueles que, por posicionamento ideológico ou político contrário, não concordavam com as posições da vereadora.

 

Coisas do tipo “morreu na dos bandidos que defendia” estão presente das redes sociais, em postagens e comentários de pessoas incomodadas com a repercussão que o caso ganhou na mídia.

 

Chegam ao absurdo de alegar que a defesa dos direitos humanos foi a sua sentença de morte... as vezes, lendo alguns desses textos, chego a temer ler o absurdo de que “a morte  dela foi algo bom... bem feito”.

 

Está na hora de pararmos para pensar para onde nosso país está indo.

 

Eu não conhecia o trabalho dessa vereadora, pois as notícias que chegam no Rio de Janeiro são sempre as piores possíveis, mas fato é que ela foi eleita por mais de 40 mil pessoas para exercer seu mandato e defendia em suas propostas os interesses de minorias negras, LGBT, as mulheres e os  pobres de sua comunidade.     Há quem diga que ela estimulava a divisão da sociedade através de discursos de ódio, então antes de me posicionar, procurei dconhecer sua atividade legislativa na Câmara e todos os discursos bem centrados.  Talvez com algumas falas mais contundentes, mas até ai, cada um na sua característica.  

 

Entretanto, falar sobre direitos humanos e inclusão de minorias, num contexto político de pessoas arraigadas com  suas intolerâncias e, porque não dizer, com a corrupção realmente gera um incômodo. 

 

E ela, por vezes criticou ações da polícia carioca, essa mesma polícia que hoje está sob intervenção devido a falência do controle da segurança naquela cidade.   Denunciou abusos de policiais nas comunidades onde ela tinha seu eleitorado.

Quanto a essas denuncias, se assim não fosse, esse não teria sido um dos motivos da intervenção militar no Rio.  Muitos policiais corruptos, milicianos entre outros estão sendo descobertos e exonerados da corporação, para o bem daqueles que realmente honram a farda e sentem-se incomodados com a situação que chegou tudo aquilo.

 

Esse foi o crime praticado pela vereadora. Levantar-se para defender os direitos humanos e aquilo que acreditava.   As vezes não concordo com falas e formas de atuação da esquerda mas, como já escrevi por várias vezes aqui no meu blog, nós não precisamos aceitar a ideologia ou verdade de ninguém, mas é necessário respeitar cada uma delas, pela civilidade e debate do contraditório.

 

Então vamos pensar um pouco…  a acusação que fazem a  Marielle (sim... acusam-na depois de morta) é de que estão dando repercussão para seu assassinato porque era vereadora, esquerdista e “amiga da mídia esquerdista”, e não deram atenção ao assassinato de um empresário e de outros policiais e pessoas que morrem todos os dias pela mão do crime, no Rio de Janeiro e em nosso país.

 

Que fique muito claro nesse meu artigo que todas as vítimas e suas famílias merecem as nossas condolências e que, igualmente, que os crimes sejam investigados, os culpados identificados, julgados e condenados.   Isso é óbvio dentro de nossa lei.  Não precisa estar na mídia pois é questão de Justiça.

 

Agora, toda a importância e repercussão internacional que o caso ganhou dá-se pelo fato de que a Marielle não era somente uma mulher, negra e de  origem pobre,  ou esquerdista como acusam... ela era vereadora eleita democraticamente.  A sua execução é uma afronta não só às pessoas a quem ela representava na Câmara ou à sua família,  mais uma afronta ao poder legislativo municipal, à cidade do Rio de Janeiro e ao país.   Seja quem for o responsável, mandou um recado muito claro para a sociedade, que precisa ser muito bem lido e compreendido, bem como respondido pelas autoridades,

 

Hoje vi uma postagem no Facebook, que me chamou bastante a atenção:

 Pelos comentários que estamos vendo sobre a morte da Mirella, conseguimos entender o apoio dos alemães a Adolf Hitler

 

Eu não sei quanto a vocês, mas isso para mim é assustador !

 

Em tempos que vivenciamos diariamente discursos de ódio sendo destilados sobre todos os temas, crescente intolerância, brigas e mortes por banalidades e o aumento da "simpatia" quanto à liberação do porte de armas, realmente é algo a se preocupar.

 

Infelizmente no  Brasil está acontecendo uma inversão de valores muito séria. Pessoas que defendem os direitos humanos,  ao invés de serem reconhecidas de forma positiva são atacadas e hostilizadas.  E é sempre a mesma ladainha: “defendem apenas o direito dos  manos“.    Essa visão é tão limitada quanto desrespeitosa. 

 

Respeitar os direitos humanos significa ser legalista.   Ser legalista é cobrar ações dentro do que garante a lei. 

Isso não deveria ser alvo de demérito ou despertar ódio em pessoas "ditas" de bem.    A mesma luta para preservação dos direitos humanos, erroneamente rotulada como "só protege os bandidos" é a base para nossa proteção individual nas leis e, um dia, pode ser usada para proteger-nos ou a alguém de nossa família.

 

É pacífico o entendimento de que bandidos e criminosos (de qualquer tipo ou origem) sejam presos e tenham o seu julgamento e condenação na forma da lei.  Se as leis são brandas e falhas, lutemos para sua revisão através de pressão nas casas legislativas,  mas achar que os fins justificam os meios e que vale tudo para se fazer uma “ suposta” Justiça, realmente não é o caminho de um país “justo”.

 

Mas Flávia - dirão - cadê o direito das vítimas que morrem na mão de bandidos?

 

Assim como no caso da Marielle e das pessoas que morrem aos montes no Rio de Janeiro e demais cantos de nosso país, cabe ao Estado reconstruir a segurança pública, com inteligencia, repressao a entrada de armas e drogas e tudo o mais que especialistas cantam em verso e prosa nos telejornais, para que os crimes sejam combatidos e os responsáveis punidos na forma da lei.

 

Ninguém e nenhum de nós temos o direito de fazer justiça com nossas próprias mãos…  não nos consideramos um país, embora laico, sendo de maioria Cristã?   Essa é a razão pela qual eu veementemente não concordo com o armamento da população.

 

Mas, fato é que se nossa sociedade não lutar contra o discurso de ódio cada vez mais presente em  nosso país, contra a intolerância com o outro e suas escolhas ou diferenças ( e agora não me refiro apenas às minorias), logo nossa pátria se transformará em algo muito pior.

 

Respeitar o próximo,  respeitar as lei,  respeitar nossos professores,  respeitar autoridades e instituições e, principalmente, respeitar o direito ao contraditório é fundamental para uma sociedade que deseja avançar, acabar com a corrupção e alcançar um novo de grau em sua história.    Sem o famoso e decantado RESPEITO, vamos repetir os erros de outras Nações que sofreram justamente por intolerância e desrespeito entre seus cidadãos.

 

Que as pessoas possam refletir melhor sobre os acontecimentos que nos rodeiam,  sobre os sinais que estamos recebendo,  para que comecemos hoje a mudar aquilo que queremos de melhor para o nosso amanhã e, quem sabe, o trecho da música citado no início, seja algo relegado as livros de história, como a escravidão e outras páginas sombrias de nossa história.

 

Menos discursos de ódio e mais amor.

 

Às famílias de todas as vítimas dessa “guerra urbana” que vivemos, deixo minha solidariedade e minhas orações.  Que TRANSCENDER não seja o sonho de poucos, mas a vontade materializada de muitos.

 

Um forte abraço a todos.

 

 

  • Publicado por: Flavia Bianco
  • Postado em: sexta-feira, 16 mar 2018 20:40Atualizado em: sexta-feira, 16 mar 2018 20:51

Comentários (1)

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Letícia Lopes

• 16/03/2018 22:50

Que país é esse?
Que país é esse? Que humanidade é esta? Que bestas somos nós? Tantas perguntas e reflexões que fazem coro com seu artigo. Parabéns! Que a sua sensatez incomode muito. Abraço

Santa Portal

• 16/03/2018 23:07

É Letícia .. não gostaria de incomodar .. gostaria apenas que as pessoas compreendessem que a visão das coisas está cada vez mais complicada e que basta simplificarmos com uma única palavra: respeito. Beijos e obrigada pela contribuição.

     
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Ensaios e opiniões sobre assuntos ligados a diversidade, estilo de vida, música entre outros, em busca de transcender a visão sobre esses temas, sob a ótica de Flavia Bianco, transgênero de 43 anos, santista de nascimento, publicitária de formação e musicista de coração. Participe interagindo ou sugerindo temas pelo email: blog.transcendendo@gmail.com