Reprodução Reprodução

Vinhos da Itália – Uma homenagem a um país em guerra contra um vírus

                                                    PARTE I – VINHOS DO PIEMONTE


A Itália é certamente um dos mais importantes países produtores de vinho do mundo, sendo a campeã mundial em volume de produção, com 46,6 milhões de hectolitros em 2019, um ano ruim, que impôs diminuição de 10% na produção mundial de vinho em razão de geadas e secas (na Itália foram 15% a menos de produção). E, dentre as inúmeras regiões vinícolas do país (elas estão espalhadas por todo o território italiano, incluindo as ilhas da Sicília e Sardenha), estão as destacadas regiões do Piemonte e da Toscana, que “brigam” pelo título de mais importante região vitivinícola.

Iniciamos nossa jornada em homenagem a este belíssimo país, devastado pelo coronavírus, pelo norte, justamente por se tratar de uma das regiões mais afetadas por esta pandemia, e, mais especificamente, pelo Piemonte, que abriga alguns dos mais importantes vinhos produzidos no mundo, os Barolo e os Barbaresco.

Geograficamente o Piemonte fica na parte mais ocidental da Itália, fazendo fronteira com a França, da qual sofreu muita influência, posto que a região inteira foi dominada durante anos pela Casa de Savoia (ou Casa de Saboia), que tinha ramificação francesa. Foram os gregos, entretanto, que introduziram a produção de vinho na região, seguidos, posteriormente, pelo Império Romano. Foi a partir do Século XVIII, entretanto, que surge aquele que se tornaria o vinho mais famoso da região, e um dos mais prestigiados de todo o mundo, o Barolo. Calcula-se que o Piemonte tenha uma área de 58.000 hectares de vinhedos, e produza cerca de 300 milhões de litros por ano.

A área piemontesa que tem maior destaque no mundo dos vinhos é a que se denomina de Langhe. É justamente nela que se encontram os ícones da região, os Barolo e os Barbaresco.

A denominação Barolo tem a pequena comuna de mesmo nome como ponto central (são apenas 679 habitantes e 5 km² de território), muito embora a principal cidade do Langhe seja Alba, famosa pelas trufas. A denominazione di orgirine controllata e garantita – DOCG Barolo se estende a outras subregiões, a saber, La Morra, Verduno, Roddi, Grinzane Cavour, Diano d’Alba, Castiglione Falletto, Serralunga d’Alba, Monforte d’Alba e Novello. Para que um vinho do Piemonte possa ganhar o rótulo Barolo, deve obrigatoriamente ser originário de uma dessas cidades e ser produzido 100% com a uva Nebbiolo. Se o vinho provier de outra cidade, ganhará a denominação de Nebbiolo, ou de uma outra DOC ou DOCG.

Em cada uma dessas subregiões há vinhedos excepcionais, que fornecem a fruta para grandes clássicos de Barolo, produzidos com uvas apenas deste local (single vineyard), ao invés de um blend de vários vinhedos. Em La Morra os destaques são os vinhedos Brunate (denominação utilizada por Vietti, Ceretto e Roberto Voerzio), Cerequio (denominação utilizada por Michele Chiarlo e Roberto Voerzio) e Rocche dell’Annunziata (produzido por Renato Ratti e Paolo Scavino, por exemplo). Em Barolo sobressaem-se os vinhedos Brunate (denominação utilizada pelos produtores Pietro Rinaldi e Marchesi di Barolo), Cannubi (denominação utilizada por Prunotto e Paolo Scavino) e Cannubi Boschis (denominação utilizada por Luciano Sandrone). Em Castiglione Falletto estão localizados os vinhedos Monprivato (denominação utilizada por Giuseppe Mascarello), Fiasco ou Fiasc (utilizado por Paolo Scavino) e Villero (denominação utilizada por Bruno Giacosa e Vietti). Em Monforte d’Alba são encontradas as denominações Bussia (utilizada por Aldo Conterno), Ginestra (utilizada por Domenico Clerico) e Mosconi (utilizada por Rocche di Manzoni). Já em Serralunga d’Alba temos as denominações Falletto (utilizada por Bruno Giacosa), Francia (utilizada por Giacomo Conterno) e Vigna Rionda (utilizada por Massolino e Podere Oddero).

Os vinhos produzidos na DOCG Barolo são potentes, e têm a fama de serem longevos (alguns não expressam suas principais características antes de 15 anos), podendo serem guardados por décadas e ainda assim manterem sua vivacidade e complexidade. E, apesar das subregiões acima anotadas estarem a poucos quilômetros de distância umas das outras, o diferente terroir pode mudar complemente o vinho, trazendo-lhe características próprias que levam os apreciadores a acreditar que se tratam de vinhos produzidos em locais muito distantes, apesar da característica comum que a Nebbiolo lhes empresta.

Alguns dos grandes produtores de Barolos são Aldo Conterno, Giacomo Conterno, Renato Ratti, Pio Cesare, Bruno Giacosa, Bartolo Mascarello, Michele Chiarlo, Ceretto, Elio Grasso, Giuseppe Mascarello, Paolo Scavino, Vietti e Roverto Voerzio.

A poucos quilômetros dali está a comuna de Barbaresco (638 habitantes e 7 km² de território), que dará nome a outra denominazione di origine controllata e garantita – DOCG que está entre as mais respeitadas do mundo.

Ali os vinhos também devem ser produzidos obrigatoriamente com 100% de uva Nebbiolo, mas, dadas as características do terroir encontrado nessa região, os vinhos tendem a ser menos potentes (com taninos menos intensos) e não suportarem o mesmo tempo de guarda do que os Barolo, muito embora os melhores exemplares de Barbaresco tenham tais qualidades.

A denominação Barbaresco exige que o vinho tenha sido produzido com uvas oriundas das comunas de Barbaresco, Treiso, Neive e uma parte do território de San Rocco Seno d’Elvio. Como toda DOCG, esta também é submetida a rígido controle, cuja lei regulamentadora impõe que o vinho tenha inúmeras características, tais como certo teor alcoólico, tempo mínimo de amadurecimento, tempo mínimo em barrica de carvalho etc. São 65 vinhedos classificados e oficializados, e que podem constar no rótulo, quando as uvas utilizadas para a produção do vinho foram originárias de apenas um deles.

Os vinhedos mais famosos de Barbaresco, e que produzem algumas de suas joias são Asili, Gallina, Montestefano, Pajè, Rabajà e Rio Sordo. Mas certamente não há como falar de joias desta região sem falar sobre os vinhos produzidos por Angelo Gaja, o grande nome de Barbaresco (mas que também produz vinhos em outras regiões, tais como Barolo e Moltalcino). Seus vinhos Costa Russi, Sorì Tildìn e Sorì San Lorenzo, provenientes dos vinhedos homônimos, são excepcionais. São vinhos para se tomar ao menos uma vez na vida.

Outros grandes produtores de Barbaresco são Bruno Giacosa, Produttori del Brabaresco, Orlando Abrigo, Ca’del Baio, Cascina delle Rose, Ceretto, Pio Cesare, Poderi Colla, Marchesi di Grésy, Bruno Rocca, Sottimano e La Spinetta.

Mas o Piemonte não vive só da Nebbiolo, sendo as uvas Barbera e Dolcetto também importantes dentro do contexto regional, além das castas brancas Arneis, Cortese, Moscato Bianco, Malvasia e a francesa Chardonnay.

Grande parte dos mais prestigiados produtores do Langhe também produzem denominações como Barbera d’Alba, Dolcetto d’Alba, Langhe, Nebbiolo d’Alba, dentre muitas outras, e que se constituem em denominazione di origine controllata – DOC, sendo estes vinhos mais baratos e não tão prestigiados quanto os Barolo e Barbaresco.

 

 

  • Publicado por: Fernando Akaoui
  • Postado em: sexta-feira, 15 mai 2020 11:09
  • VINHOS   GUERRA   ITÁLIA   

Comentários (0)

Enviar Comentário