Entrevista TbT: Sidney Sheldon, escritor

Ele vendeu mais de 350 milhões de livros. Ganhou um Oscar, um Tony, tem uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood e criou uma das séries de tevê mais conhecidas do mundo (Jeannie é um Gênio): Sidney Sheldon, aos 86 anos, está mais na ativa do que nunca. Escreve dois romances (um deles uma autobiografia). Nesta entrevista, ele fala de sua carreira no cinema, na tevê e na literatura e conta histórias de seus mais de 70 anos no showbiz. A entrevista foi feita em 2003 e publicada na America Online Brasil e no jornal A Tribuna, de Santos.


Como o sr. começou sua carreira e o que o levou a isso?
Vendi meu primeiro poema quando tinha 10 anos. Eu sempre soube que queria ser um escritor, acho que o talento vem de Deus e todos os que possuem algum talento, seja na literatura, na pintura ou na música, não deveriam levar o crédito por isso, mas sim agradecer por esse dom de Deus.

Quais de seus romances o sr. considera os melhores?
São três os que tenho mais carinho: O Outro Lado da Meia Noite, O Mestre do Jogo e Se Houver Amanhã.

Qual é, na sua opinião, a razão para seus livros venderem tanto?
É simples: acho que meus livros vendem bastante porque meus personagens parecem pessoas reais. Eu penso em mim mesmo ao escrever, no que eu gosto e no que acho que julgo ser o mais natural possível e acho que, por consequência, os leitores sentem a mesma familiaridade.

Como vive o homem Sidney Sheldon?
Eu e minha esposa Alexandra nos dividimos entre nossas casas em Los Angeles e Palm Springs, na Flórida. Recentemente, vendemos uma casa que tínhamos em Londres, porque não tínhamos muito tempo para ir lá. Compramos essa casa, um bonito duplex, de Andrew Lloyd Weber. Nós gostamos muito de viajar, já visitamos mais de 90 países.

Qual é seu ritmo de trabalho?
Começo, normalmente, às 9 da manhã e trabalho até as 18 horas. Quando tenho insônia (o que é muito comum), vou para o escritório e passo muitas horas da madrugada escrevendo, também. Trabalho sete dias por semana.


Sem descanso?
Mesmo encarando com toda seriedade, não vejo o que faço como trabalho, no sentido ruim da palavra. Faço o que gosto e porque gosto.

E seus gostos pessoais em literatura, música e cinema, quais são?
A lista dos meus autores favoritos inclui nomes como Thomas Wolfe, Sinclair Lewis, Booth Tarkington e George Bernard Shaw. Em relação a música e cinema, prefiro os artistas – e as obras – com os quais cresci: os filmes dos anos 40 e 50 e músicos como Jerome Kern, Cole Porter, George Gershwin e Irving Berlin.

Não faz muito tempo que o sr. escreve livros para crianças. Como surgiu essa idéia e quais são as diferenças de estilo entre o píblico adulto e o infantil?
Não vejo diferenças fundamentais. O básico, tanto em relação às crianças quanto aos adultos, é que a história deve ser excitante e os personagens interessantes o suficiente para prender a atenção. Escrevi meu primeiro livro infantil porque meu editor no Japão achava que as minhas histórias eram tão envolventes que as crianças gostariam de lê-las.

Escrever é uma questão de inspiração ou estudar ajuda?
Ah, 100% de inspiração, a transpiração é consequência. Não há possibilidade de que alguém sem idéias consiga produzir algo de qualidade.

Seu primeiro trabalho foi uma peça de teatro, quando o sr. tinha 12 anos. Qual era o tema desta peça e como ela foi feita?
Minha professora de Inglês leu essa peça quando eu tinha 12 anos, mas ela foi escrita um pouco antes. Ela gostou muito e me disse que gostaria de encená-la. Eu, claro, fiquei muito entusiasmado. Acho que ela gostou muito mesmo, porque convidou todos os alunos da escola para assistir, no auditório, a encenação. Eu fui o produtor, o diretor e, claro, escalei a mim mesmo para o papel principal. Era uma história de detetive. Quando chegou minha vez de entrar no palco, entrei em pânico e comecei a rir sem parar. A professora me chamou em um canto e tentou me acalmar, em frente àquele auditório enorme, mas não conseguiu. A peça nunca foi encenada.

E a televisão, como apareceu?
Comecei a escrever para televisão por acaso. Meu agente me pediu para criar um seriado de tevê para o ator Patty Duke, que acabara de ganhar um Oscar pelo filme The Miracle Worker. Criei The Patty Duke Show e, em seguida, Jeannie é um Gênio. Escrevi os episódios das duas séries ao mesmo tempo, por muito tempo.

Como foi trabalhar em Jeannie é um Gênio, um dos sitcoms (situation comedy, seriados cômicos) mais conhecidos da tevê em todo o mundo?
Produzir Jeannie é um Gênio foi uma experiência maravilhosa. Eu tinha um elenco excepcional e tive o mérito de contratar os melhores diretores disponíveis.

Os primeiros episódios da série foram ao ar em preto e branco, mas na época a tevê a cores já existia. Por que essa opção?
Não foi uma opção, até hoje não entendi direito como isso aconteceu. No ano em que Jeannie foi ao ar, todas as estações de tevê já tinham migrado para o sistema em cores. Naquele ano, apenas dois seriados foram produzidos em preto e branco. Um era um drama de guerra e o outro, Jeannie. Perguntei ao estúdio o porquê disso e recebi, como resposta, o argumento de que produzir em cores era muito caro, custaria alguns milhares de dólares a mais por ano. Fiquei tão atônito com essa resposta que até me coloquei à disposição para pagar, do meu bolso, essa diferença. Os executivos de estúdio me aconselharam a não me preocupar, que provavelmente não haveria uma segunda temporada. Bem, o resto da história todo mundo sabe: Jeannie foi ao ar por cinco temporadas e hoje, 40 anos depois de sua estréia, ainda é sucesso no mundo inteiro, tendo suas reprises exibidas em inúmeros países, inclusive no Brasil.

Como o sr. chegou a Hollywood?
Comecei escrevendo filmes, na verdade. Cheguei a Hollywood com 17 anos. Havia oito grandes estúdios, na época, e cheguei aos portões de cada um deles e me apresentei aos guardas: “Olá, sou Sidney Sheldon e quero ser escritor”. E, como sempre acontece, não conseguia falar com ninguém. Foi durante a depressão, saí de Chicago para Hollywood e minha mãe havia me dado três semanas para arrumar um emprego ou voltar pra casa. Então, ouvi falar em uma coisa engraçada: leitores que faziam sinopses reduzidas de livros, para produtores de cinema ocupados. Fiz uma, de Mice and Man, e mandei para os estúdios. Três dias depois, estava trabalhando na Universal, ganhando US$ 17 por semana, fazendo o mesmo trabalho de ler e transformar livros em sinopses. Além disso, aproveitei para escrever meus próprios trabalhos. Os quatro primeiros foram deixados de lado, o quinto foi vendido e então me tornei roteirista, aos 18 anos.

No cinema, o sr. chegou a trabalhar com a dupla Jerry Lewis e Dean Martin antes deles se tornarem famosos. É de conhecimento público que eles não se davam nada bem fora das telas. Como foi essa experiência?
Foi muito interessante trabalhar com Dean Martin e Jerry Lewis. Mesmo sendo conhecida sua antipatia mútua, ambos se comportavam muito bem no set. É conhecido de todos também que Jerry era muito controlador e Dean, um boa praça. No primeiro dia de filmagem de You´re Never Too Young, nós tínhamos uma leitura do script com o diretor, o elenco e eu. Quando terminamos, o diretor disse: “Alguma pergunta”? Dean Martin levantou-se e disse: “Não, tudo está muito bom, tenho um jogo de golfe marcado e tenho que ir”. E foi. Jerry Lewis, ao contrário, disse que tinha algumas perguntas e, pela hora seguinte, ficamos lá, discutindo todos os aspectos: ângulos de câmera, iluminação, a direção e o roteiro.

Por que sua carreira de diretor não decolou?
Seria uma opção pela literatura? Minha carreira de diretor não decolou porque eu não era muito bom, mesmo. Acredito que devemos investir nosso tempo naquilo que somos realmente bons, porque assim, as chances de sucesso são muito maiores. Mas é claro que a minha preferência são os livros.

Mesmo em relação ao teatro?
O sr., que tem experiência no teatro, televisão e cinema e literatura, prefere o quê? Escrever um livro é uma experiência bem mais livre. E mais pessoal, também. Quando escrevo um roteiro para cinema, tenho centenas de colaboradores. Em um livro, a obra é totalmente minha. Há um senso maior de liberdade, porque você cria os personagens e faz o que quiser com eles. Tem o poder de decidir quem vive e quem morre. Acho esse tipo de processo criativo extremamente estimulante.

O sr. recebeu os dois prêmios mais importantes do cinema e do teatro, o Tony e o Oscar. Tem uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood. Vendeu mais de 300 milhões de livros em 181 países, traduzidos para 51 idiomas. Os estúdios usam seu nome para promover um filme, como sinônimo de qualidade. A que atribui esse enorme sucesso?
Acho que meu sucesso tem uma explicação: escrevo sobre emoções, um tema de interesse universal. Ainda tenho a impressão de que tudo isso é um sonho. Quando The Naked Face, meu primeiro livro, foi publicado, achei que iria bater um recorde da indústria: seria a primeira vez que um livro não venderia nenhuma cópia. Para evitar isso, fui até a livraria e comprei um exemplar. Desde esse dia, sempre que um novo livro meu é colocado nas livrarias, visito uma e compro uma cópia.

Normalmente, seus personagens principais são mulheres, sempre muito fortes e que lutam contra tudo e todos em nome de seus objetivos. Essa é realmente sua visão sobre as mulheres?
Odeio aquele clichê da ‘loira burra’, que diz que se a mulher é bonita, deve ser pouco inteligente. Por isso escrevo livros em que a personagem é, além de bela, boa em tudo o que faz. Minha mãe era uma mulher assim. Minha primeira esposa, Jorja, que morreu, era assim, tanto quanto minha esposa Alexandra.

Vida e carreira

  • 1917 – Nasce no dia 11 de fevereiro, em Chicago.
  • 1934 – Chega a Hollywood, onde se torna roteirista.
  • 1941 – Ele se alista na força aérea americana e combate na Segunda Guerra Mundial.
  • 1942 – Três musicais escritos por Sheldon dominam a Broadway.
  • 1948 – Ganha um Oscar pelo roteiro de The Bachelor and The Bobby Soxer.
  • 1959 – Ganha um Tony como co-autor do musical Redhead.
  • 1964 – Cria, escreve e produz Jeannie é Um Gênio. Durante os cinco anos da série, ele escreveu 78 roteiros de episódios.
  • 1969 – Escreve o primeiro livro, The Naked Face.
  • 1975 – Seu segundo livro, O Outro Lado da Meia-Noite, alcança o primeiro lugar na lista de best-sellers do New York Times.
  • 1988 – O livro As Areias do Tempo alcança o primeiro lugar da lista de best-sellers do New York Times antes mesmo de ser lançado.
  • 1997 – Sheldon ganha destaque no livro Guiness dos recordes, como o autor mais traduzido no mundo.
  • 2007 – morre em 30 de janeiro em Rancho Mirage

 

 

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  • Publicado por: Gustavo Klein
  • Postado em: quinta-feira, 21 jun 2018 09:54Atualizado em: quinta-feira, 21 jun 2018 09:58
Reprodução Reprodução

Marcelo Teixeira: "A emoção de 2.002 é inigualável"

Marcelo Teixeira era o presidente do Santos quando o clube viveu uma de suas maiores conquistas: o Campeonato Brasileiro de 2.002. No livro 'Das arquibancadas à Presidência: 2002' ele narra toda a sua relação de amor com o clube, desde os primeiros anos da infância até a épica conquista. Nesta entrevista, gravada para o programa Releitura, ele fala do livro, da relação com a família e sobre os anos de presidência.

Vamos começar o papo já falando do livro que o senhor acaba de lançar, 'Das Arquibancadas à Presidência: 2002'. Qual é a história por trás dessa obra?
O livro começou, como idéia, bem menor do que acabou sendo. Pensei primeiro em fazer o livro contando a história da administração no novo milênio, de 2.000 a 2.002. Era justamente o momento em que o Santos vivia uma fase muito difícil, sem conquista de títulos havia 18 anos. O último, um campeonato paulista, havia acontecido em 1984, quando o presidente era meu saudoso pai, Milton Teixeira. Esse jejum deixava a torcida aflita, desesperada e, até certo ponto, humilhada. Quando era essa a idéia, o título do livro era 'De Leão adormecido a rei do milênio'.

O senhor já havia sido presidente antes, em 1992, né?
Pois é. Pensei nisso e levei o livro tendo 1992 como ponto de partida. Voltei a 1990. E aí decidi voltar até minha infância, para mostrar a minha ligação familiar, como torcedor e como dirigente com o Santos até chegar à presidência. Fiz então uma autobiografia mesclada a alguns momentos de humor, em que eu conto não apenas minhas passagens pessoais mas também as de companheiros de jornada, mostrando detalhes de bastidores e histórias até então desconhecidas.

É, então, uma autobiografia sua mas em relação ao clube...
O leitor vai conhecer parte da minha vida, a parte relacionada ao Santos Futebol Clube. Tudo aquilo que eu aprendi, vivi, corri até chegar nas arquibancadas e depois à presidência do clube.

A sua vida familiar e profissional também se confunde com a história do clube... Há uma passagem muito interessante, logo no começo da história, que lembra sua relação com seu pai - um santista apaixonado - e também com seus tios, que não torciam para o Peixe. Como era?
Conto parte dessa história. Meu padrinho Lourival, tio por parte de pai, era são-paulino. A madrinha, Beth, também são-paulina, era mais controlada. Todos os demais tios e meu avô por parte de pai eram são-paulinos. Meus avós maternos, italianos, Pirilo, não podiam ser outra coisa que não palestrinos!!! (risos). Lembro que meu tio vinha, nas ocasiões de festa, com aquele embrulho bonito e eu já ficava esperando. Mas ele, antes de me dar, perguntava: "você já mudou de time"? Aí eu já escutava meu pai, de longe, gritando: "Lourival, para de mexer com o menino, não faça isso com ele" (risos).

Seu pai, na infância, também era são-paulino, não?
Era. Até que, ainda criança, num jogo de futebol no Pacaembu, o atacante do São Paulo deu um chute no goleiro do Santos e meu pai ficou indignado e ainda mais revoltado por ver meu avô vibrando com o lance. Virou santista naquele momento.

E o Marcelo Teixeira, virou santista como?
Tive o privilégio, a sorte, de vivido minha infância no período daquele esquadrão do Santos Futebol Clube nos anos 60, a década de ouro, o auge do clube, que foi do finzinho dos anos 50 até o começo dos anos 70. Foram quase 12 anos de domínio em que foram conquistados títulos paulistas, brasileiros, sul-americanos e mundiais. Foi naquele momento que o clube deixou de ser ligado apenas a uma Cidade para encantar o mundo inteiro. Assim como eu, há toda uma geração que foi marcada por aquele período do Santos. Lembro que ia com meu pai à Vila e esperávamos os 20 minutos finais do jogo, quando os portões eram abertos, para poder assistir aos verdadeiros shows que o Santos proporcionava à torcida.

Tem alguma outra história boa sua como torcedor?
Eu ia muito aos jogos com meu amigo Takashi, que até hoje está conosco aqui no Santa Cecília. Diziamos para o meu pai que vínhamos jogar bola aqui no Santa Cecília. Mas as excursões da TUSA (Torcida Unida Santista) saíam aqui da frente do Super Centro e nós íamos para o Morumbi, para o Pacaembu sem nem nossos pais saberem (risos).

O livro também acompanha a trajetória de seu pai como presidente...
Meu pai foi convidado pela primeira vez para integrar a diretoria do Santos em 1976, como dirigente de futebol. Ele já havia tido contato com o Santos na década de 60, mas nos esportes amadores. Formou uma grande equipe de vôlei, no Santos. Mas no futebol foi em 1976, mesmo, convidado pelo velho Roma, também em um momento difícil para o clube, que ainda sofria os efeitos da saída de seu maior jogador, Pelé. Nesta época que comecei a conviver de forma mais presente com o clube, com os funcionários, conhecendo cada cantinho da Vila.

Em 1978 seu pai disputa a presidência pela primeira vez e perde por apenas 4 votos...
Meu pai havia feito todo um trabalho de renovação e, em 1978, perde a eleição para o Quintas (Rubens Quintas Ovalle), no Conselho, por 4 votos. A eleição naquele tempo não era como hoje, votavam apenas os conselheiros. O Santos foi campeão paulista em 1978 e meu pai volta ao clube em 1982, convidado justamente pelo grupo do Quintas, para ser vice-presidente, até se tornar presidente em 1984. Conto todas essas histórias, e muitas outras, até chegar no ano 2.000, mas acho que o importante mesmo é a partir do novo milênio. As primeiras cento e poucas páginas narram a história até 2.000. As 300 restantes, esses dois anos entre 2.000 e 2.002.

E é essa a parte mais saborosa da história...
Tem tudo aquilo que trabalhamos, vivemos, as contratações, os bastidores tanto dessas contratações quanto o trabalho junto à arbitragem, mostrando como o Santos começou novamente a ser respeitado como reflexo do trabalho que realizamos. Tudo isso é contato em forma de confidências, mesmo. No livro, conto tudo, sem censura. Abri meu coração para que o torcedor santista e aqueles que gostam de uma boa leitura possam acompanhar uma lição de determinação de um grupo.

Quando você assume essa segunda presidência, em 2.000, começa um trabalho de modernização do clube, inclusive na área administrativa e de gestão. Como foi essa experiência?
O Santos vivia um momento de transição. Tinha funcionários muito antigos, muito respeitados, mas uma estrutura arcaica. Não dispunhamos de mecanismos que possibilitassem a instalação de uma nova filosofia de trabalho. Tudo foi feito de forma muito cautelosa e, acima de tudo, respeitosa. Afinal, estávamos lidando com pessoas. Mas precisávamos implantar um novo regime, um novo sistema, mais moderno, de trabalho. Era fundamental. Não existia, naquela época, nem a possibilidade de profissionalizar o clube. Tínhamos diretores e funcionários mas eu queria, naquele momento, contratar especialistas em cada área. Na área financeira, administrativa, jurídica, de futebol, de marketing. Um grupo de profissionais que trabalhava comigo na universidade, que tinha a minha confiança, foi levado para o clube e começou esse trabalho, de mudar a mentalidade, mesmo.

E aí conseguiram fazer essa modernização...
Não era possível continuar como estava. Para você ter idéia, a cobrança da mensalidade dos associados era feita de casa em casa, por cobradores. Naquela oportunidade tinhamos cerca de 2 mil associados, mil e tantos assíduos, regulares. Mas como manter essa estrutura diante de nossa meta, que era chegar a 100 mil associados na ocasião do centenário? Era preciso modernizar. Foram etapas difíceis mas que foram conquistadas, inclusive com o apoio desses funcionários mais antigos, que não foram dispensados. Pelo contrário: a experiência deles, somada à juventude, foi fundamental para que conseguíssemos conquistar essas metas em curtíssimo prazo.

O investimento no departamento de base também foi fundamental nessa idéia de um novo Santos Futebol Clube, não?
Isso foi importantíssimo. Poucos clubes fizeram - e até hoje não fazem - o que o Santos fez naquela ocasião. Uma estrutura que é mantida até hoje e que dá resultados até hoje. Muitos dos jogadores que estão despontando agora, como o Rodrygo, são oriundos da estrutura montada pela nossa administração. Criamos a equipe Sub-7, criamos a equipe Sub-11 para ter um jogador que até então era desconhecido chamado Neymar. Por aí a gente vê todo um trabalho de toda uma equipe, de gente enraizada, muito comprometida com o Santos. Foi um trabalho pautado pela honestidade, um trabalho calcado em muitos princípios. O trabalho é tão bom que hoje o Santos é referência em todo o mundo.

E aí chegamos a 2.002... Em conversas que tivemos antes desta entrevista, em que o senhor narra este momento, logo no começo do ano, em que é preciso enxugar a estrutura, desmanchar aquele time cheio de estrelas... E justamente neste momento de dificuldade maior é que há toda uma superação, união e a conquista de um título que no começo do ano poderia ser considerado improvável. História de filme, né?
Nós tivemos alguns tropeços naquele ano. Hoje conseguimos admitir como normais, mas na época foram doloridos. Assumimos em 2.000, investimos tanto, trouxemos jogadores de primeira linha, de nível de Seleção Brasileira, formamos um esquadrão e não conseguimos. No primeiro ano foi interessante, chegamos à disputa de um Campeonato Paulista e fomos vice-campeões. Em 2.001, faltando pouquíssimos segundos para acabar o jogo, o jogador do time adversário faz um gol e tira o Santos da final.

Momento de questionamentos...
Inclusive internos. Eu pensava comigo: "Meu Deus, o que mais preciso fazer? Já fiz de tudo para alcançar um título e não consegui...". As más línguas ainda começam, naquele momento a dizer: "O Marcelo? É pé-frio, diferente do pai. O pai era vencedor, o filho, não". Começam as comparações do pai vencedor com o filho que assumia o clube. Ainda assim, foi uma série de situações que, na minha própria consciência eu sabia que ainda dariam resultados. Ao mesmo tempo que montamos um esquadrão, que trouxemos o Fábio Costa, o Renato, o Elano, investimos maciçamente na base, nos garotos. Eu acreditava que a convivência destes jovens com os jogadores mais experientes, mais cedo ou mais tarde, acabaria por render algum fruto.

Sua família, a Família Teixeira, é conhecida pela união, pelo apoio mútuo. Como foi, em relação a eles, este momento tão difícil?
A família e os amigos, os pais, as irmãs, os sobrinhos, a Valéria (esposa) e os filhos (Marcelo e Caroline) sempre estiveram ao meu lado, sempre apoiaram e entenderam a dedicação. Para você ter idéia, eu me caso com a Valéria em 1992 e saio do hotel onde estamos esperando para viajar em lua de mel para ir à Vila assistir ao jogo do Santos (risos)... Quer dizer... só o Santos para provocar algo assim e só a Valéria para entender um momento como esse... (risos)... Mas a família tem também o tom crítico. Eles não apenas apóiam mas, em alguns momentos que conto no livro, meu pai me diz "Marcelo, chega!", chego a ter discussões. Mas nossa família é assim, muito unida. Podemos até discordar em certos momentos, às quatro paredes. Acabou o momento, nos abraçamos, nos beijamos e tudo fica normal. Esses momentos dramáticos, também familiares, também fazem parte da vida. Me fizeram crescer, progredir e continuar a acreditar nos frutos do trabalho.

O fruto, enfim, acabou vindo em 2.002!
Aconteceu em 2.002 mas foi de uma dificuldade ainda maior. Era uma época de Copa do Mundo. O Santos disputava o Rio-São Paulo no primeiro semestre e precisa se classificar na primeira fase para ter o menor prejuízo possível, já que haveria uma paralisação por causa da Copa. Fomos desclassificados na primeira fase. Qual o resultado disso? Ficaríamos quatro meses sem jogar futebol. Um drama. Com a torcida cobrando, virando faixas de cabeça para baixo nos estádios, fazendo uma pressão enorme.

E aí esse time estelar é desmontado e o clube precisa usar a base para montar o time para a disputa do Campeonato Brasileiro...
Eu imaginava que o Rincón ia levantar uma taça mais cedo ou mais tarde. Não levantou. Nem ele nem o Carlos Germano, nem o Edmundo nem o Marcelinho Carioca. Foram o Paulo Almeida, o Elano, o Alex, o Fábio Costa, Robinho, Diego... Foram os Meninos da Vila que deram a maior alegria aos torcedores do Santos. Acho que aquela foi uma das maiores alegrias da história do Santos, pelo momento. Era um jejum de 18 anos, em uma final contra um arquirrival e num Campeonato Brasileiro, que não apenas acabava com a ausência de títulos como recolocava o clube numa competição continental. Foi um momento mágico e marcante.

Teve participação importante o técnico Emerson Leão, que vinha de uma experiência de fracasso na Seleção Brasileira, e que aceitou o desafio...
Com muito orgulho é ele que faz o prefácio do livro. Ele usou palavras lindíssimas, escreveu com o coração. O Leão vinha desacreditado da Seleção e dizia para mim "Mas justamente agora, presidente, na minha vez, é que secou a lavoura?". E o que seria um momento ruim acabou sendo fundamental: aqueles quatro meses sem compromissos. Depois de pouquíssimo tempo, o Leão veio até mim e disse que não iria precisar de novas contratações. Ao contrário do que se acreditava, que um time vencedor tem um ou dois jogadores mais experientes, o elenco do Santos era todo formado por jovens jogadores. As folhas de pagamento dos adversários eram de 3, 4 milhões de Reais. O Santos, todo, não chegava a 600 mil Reais. Subvertemos a fórmula. Todo esse momento mostrou que a simplicidade, a humildade dão resultado. Não demos um único bicho durante todo o Campeonato, toda a equipe era motivada pela conquista do título. Era um grupo marcante, muito especial, que vai ficar marcado na história. Nem tanto pela conquista, porque outras vieram depois desta, fomos vice-campeões da Libertadores em 2.003, vice-campeões brasileiros também em 2.003 e voltamos a conquistar o Campeonato Brasileiro em 2.004. Já não era igual. Foram grandes alegrias, momentos muito especiais mas não iguais. Emoção igual a 2.002, muito difícil.

 

 

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