Mendoza: a Disney dos amantes da boa mesa

Confesso que ensaiei muito para conhecer a região vinícola de Mendoza, a mais importante da Argentina, e de onde saem cerca de 80% dos vinhos produzidos nesse país, apesar dos insistentes convites e ótimas referências de pessoas de gosto confiável. Priorizei outras regiões mais tradicionais, até que sucumbi a tantos apelos de amigos que desfrutam do mesmo gosto pelos prazeres do vinho, e acabei agendando, alguns anos atrás, a viagem. Uma semana depois de meu desembarque na interiorana Mendoza, capital da província de mesmo nome, a sensação era de raiva pelo tempo que perdi ao sonegar minha passagem por esta “Disney” dos amantes da boa mesa.

De fato, tanto os apreciadores de vinhos quanto da gastronomia, encontram em Mendoza um prato cheio para se esbaldar. Não bastasse as mais de 1500 vinícolas distribuídas em cinco subrregiões, que, por seu turno, se subdividem em outros tantos departamentos (vale consignar o protagonismo de Luján de Cuyo, Maipú e Tupungato), cada qual produzindo vinhos com características muito diversas em razão das mudanças de altitude, solo e outros elementos naturais que influenciam decisivamente no produto final, mais de uma centena delas está muito bem estruturada para receber os turistas que pretendem conhecer o processo de elaboração de seus vinhos, desde os vinhedos até o engarrafamento.

O interessante é estudar muito bem a região para poder se programar de forma a não “pagar mico”. Isso porque a província de Mendoza é muito grande, e por vezes as vinícolas que você quer visitar estão a distâncias que serão impossíveis de serem percorridas a tempo para cumprir os horários das reservas. Sim, com raríssimas exceções, você precisa proceder a agendamento prévio para realizar o tour e degustação nas vinícolas. Além disso, lembre-se que ninguém vai a Mendoza para tomar água mineral. Então, fique esperto se estiver dirigindo.

O ideal é contratar um serviço especializado, que proceda às reservas, agrupando as vinícolas por áreas próximas, de sorte a otimizar o deslocamento, e lhe forneça um veículo com motorista. Para tours individuais ou em grupo, recomendo contato com Susana Moreiras (susanamoreiras17@hotmail.com). Ela faz simplesmente tudo, cabendo a você apenas se divertir. Nas vinícolas você só mexerá na carteira se quiser comprar algumas garrafas ou souvenires, pois ela acerta tudo, e você, acerta com ela ao final.  

Algumas vinícolas são de visita quase obrigatória, dada sua importância e conhecimento do público brasileiro: Catena Zapata (com seu prédio magistral e seus vinhos icônicos), Norton (pela importância de seu enólogo Jorge Riccitelli e o ótimo restaurante), Luigi Bosca (tradicional e com ótima degustação) e Trapiche (com sua sede localizada em um prédio histórico restaurado). Todavia, é preciso conhecer algumas joias como Achaval Ferrer (mais pela qualidade de seus vinhos, que você conhecerá numa ótima degustação), Alta Vista (empreendimento da família D’Aulan, que foi proprietária da renomada Champagne Piper Heidsieck) e Viña Cobos (que tem como um de seus proprietários o enólogo americano Paul Hobbs).

Entretanto, não se pode descuidar em relação a vinícolas não tão conhecidas do público brasileiro, como Matías Riccitelli (puxou a genialidade de seu pai), Durigutti (uma grata surpresa, com uma ótima sala de degustações) , Mendel (uma vinícola bastante rústica, mas que recebe muito bem os visitantes, sem contar seus excepcionais Unus e Finca Remota) e Zorzal (pelo talento dos irmãos Michelini).

Na minha concepção, o ideal é que se faça três visitas com degustação ao dia (menos de duas, nem pensar), sendo que a última deve ser conjugada com almoço. Aliás, abramos aqui um parêntese para consignar que algumas destas vinícolas têm restaurantes excelentes, podendo de pronto nomear Norton, Vistalba, Chandon, Dominio del Plata (Susana Balbo), Zuccardi, Ruca Malen e Bodega Aleana (do renomado enólogo Alejandro Vigil e de Adriana Catena). Como regra, você sai da mesa por volta das 15 hs, chegando ao hotel entre 15:30 e 16 hs, o que ainda te dá tempo para dar uma volta na pacata cidade. Isso, obviamente, se você não estiver trançando as pernas ou estufado de tal maneira que não consegue dar dois passos.

E, se você tiver um dragão dentro de seu estômago, o que lhe permite uma rápida digestão, ainda poderá curtir um belo jantar num dos tantos excelentes restaurantes de Mendoza, com destaque para os excepcionais 1884 (do mago das carnes Francis Mallmann), Azafran e Maria Antonieta.

No quesito hospedagem, a região também tem ótima estrutura, com hoteis boutique,  hoteis luxuosos, hoteis mais funcionais, enfim, hoteis para todos os gostos. Me agradam o Park Hyatt e o Diplomatic, seja pelo serviço e instalações, seja pela excelente localização de ambos, o que permite passear pela zona comercial e gastronômica de Mendoza a pé. Os que pretenderem conhecer o Vale do Uco, de onde saem atualmente alguns dos vinhos mais prestigiados da Argentina, o ideal é achar um local para ficar na região (destaque para os chalés da vinícola Salentein), para não ter de encarar uma viagem de volta a Mendoza, que, após visitas e degustações, pode se tornar puxada.

E se após tantas visitas você ainda não estiver com sua cota de vinhos estourada, a cidade de Mendoza oferece boas lojas para aquisição da bebida, notadamente de vinícolas que não recebem visitas, destacando-se a Sol y Vino, Wine O’Clock e Winery.

Em resumo, não faça como eu, que perdi tanto tempo (já recuperados, obviamente). Agende logo sua viagem para Mendoza e se delicie em uma das mais importantes regiões vinícolas do mundo.


Fernando Akaoui (fernandoakaoui@unisanta.br)

 

 

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